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Resistir a brincar (e se não chover)

Suponho que as tendas vazias possam receber o estatuto de devolutas e a utilização de infelizes que dormem ao relento por necessidade e não por ócio.

Alberto Gonçalves
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Perante a fraqueza crescente das “autoridades” e do poder político, a excitação dos “media” e a simpatia de Sua Excelência, o presidente da República, os acampamentos de Lisboa e do Porto parecem uma adaptação teatral, dilatada e cómica, de “O Senhor das Moscas”. A principal diferença é que as crianças do livro de William Golding falham em reproduzir numa ilha remota a sociedade dos adultos, e os campistas são adultos que, em duas praças portuguesas, importaram de Espanha com sucesso uma réplica do universo infantil caro à extrema-esquerda.

O primeiro esboço de organização passa, claro que passa, pela realização de “assembleias populares”, momentos de liberdade onde cada um pode dizer o que pensa desde que pense o mesmo que os demais. Uma moça que, no Rossio, apelou à moderação do ódio contra a polícia foi vaiada e, deduz-se, excomungada. Indivíduos que nem apelaram a coisa nenhuma mas transportavam bandeiras que a não a da “Palestina”, ou eram suspeitos de “infiltração”, viram-se agredidos com vigor democrático. Também a bem da igualdade, as “assembleias populares” estratificaram-se num ápice, com a implantação do regulamento que obriga a uma maioria de mulheres, pessoas “trans” e pessoas “não-binárias”. No máximo, entre “binários” e sujeitos que se dizem mulheres, a composição daquilo não deve ultrapassar os 100% de homens.

Naturalmente, a reinvenção do mundo não se esgota nas “assembleias populares”, expressão que os repórteres no terreno repetem como se fosse a sério. Os campistas do Porto criaram o “Resistir a Brincar”, que podia ser o lema dos acampamentos e é um espaço “dinamizado” por uma animadora sociocultural, uma actriz, uma artista plástica e uma empresária para, cito, “incluir as crianças num protesto habitualmente marcado por atividades dirigidas aos adultos” (a distinção é polémica). No “Resistir a Brincar” cometem-se “desenhos, cartazes e trabalhos manuais”. Há sessões de ioga e “horas do conto”. Não carece de inscrição: basta, diz uma das “dinamizadoras”, “aparecer e querer brincar” (que é exactamente o que todos fazem ali).

Dado que a vida dos campistas não é só brincadeira, ambas as entulheiras beneficiam de uma “cantina popular” que distribui gratuitamente refeições a centenas de gastrónomos por noite, ainda que, no serão em que espreitei, na praça D. João I não houvesse sequer uma dúzia. Há um posto médico com assistência gratuita de médicos, psicólogos e, adequadamente, psiquiatras. Há, pelo menos no Porto, um jornal chamado “Tendão” (“Somos o Tendão que dá força ao corpo que são estas tendas” é a frase que explica magnificamente o nome), o qual publica textos políticos, fotografias, desenhos, cartoons, poemas e, diz com espanto um artigo de um jornal não gratuito, “até uma sopa de letras”. Parece espectacular, embora não tão apelativo quanto a página de Instagram dedicada a “encontros” e “mensagens de interesse romântico”. Trata-se, obviamente, da “Vi-te na Acampada” e é comum a ambos os acampamentos. Escuso de acrescentar que os anúncios são gratuitos. Aliás, tudo ali é gratuito na medida em que nada implica trabalho, e sim uma extraordinária quantidade de tempo livre para a pândega, o berreiro e, em suma, a luta pelo fim do “sistema” e do capitalismo e de Israel e das alterações climáticas ou lá o que é. Resistir a brincar, de facto.

Não quero sugerir que a rotina dos campistas é desprovida de sofrimento. Num ápice, inúmeros “artistas” de variedades, daqueles que vivem de contratos públicos por ajuste directo, decidiram que o governo e as autarquias gastam dinheiro mal gasto e colocaram-se ao lado dos manifestantes. Ou, pior, no meio deles. Alguns dos “artistas”, os que desprezam o Código Penal e as Convenções de Genebra, não se satisfazem em exibir a opinião e a hipocrisia: exibem-se eles próprios em sessões de cantoria nos acampamentos. Num acto particularmente desumano, comparável ao martírio de Balthasar Gérard, o cançonetista Tim devastou o Rossio com uma interpretação do êxito “A Minha Casinha”. Face a isto, não faz sentido haver quem se queixe das esporádicas, e comparativamente reconfortantes, intervenções da PSP.

A propósito da casinha deles, tendemos a esquecer que o pretexto de semelhante circo começou por fingir ser a habitação, assunto que somente políticos de terceira apanha acreditam contar para esta história e por isso imploram “diálogo” com espécimes que os odeiam. Erro grave: a “causa” da “habitação”, coitada, sumiu em cinco minutos no meio da “resistência” (a brincar) ao “fascismo” (imaginário), e demonstrações de fraqueza alimentam a sanha dos fanáticos – e se têm piada involuntária, os fanáticos são voluntariamente perigosos. Para desgosto dos apreciadores de sit down comedy, o que ameaça igualmente sumir por uns dias são os acampamentos, ou pelo menos as criaturas que os preenchem. Vem aí a chuva e o espírito de sacrifício dos revolucionários tem limites. Ao que li, o plano consiste em largar as tendas na via pública e abrigarem-se, imaginem, em casa. Entretanto, suponho que as tendas vazias possam receber o estatuto de devolutas e a utilização de infelizes que dormem ao relento por necessidade e não por ócio. Depois do debate em volta da dona Renata, aguardo nova discussão jurídica.

E, após imparáveis avanços na cobardia das instituições, aguardo para ver quando e onde terminará isto. Em “O Senhor das Moscas” as crianças não evitaram a barbárie. A brincar, a brincar, os campistas de todas as idades desejam a barbárie.