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Avenida 25 de Novembro: um duplo “até que enfim”

Para nós, a democracia liberal que queremos preservar; para eles, “a democracia de fachada do 25 de Novembro” que querem destruir.

Francisco Camacho
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Foi no passado dia quatro, Quarta-feira. Vinte e um dias antes do quinquagésimo primeiro aniversário da data em que se assinala um dos momentos fundadores do Portugal contemporâneo, foi aprovada a proposta do vereador da Cultura, Diogo Moura, do CDS-PP, para atribuir o nome “Avenida 25 de Novembro (1975)” ao Eixo Central da Alta de Lisboa.

Não estive presente na votação, mas quase que aposto que, do lado dos que votaram a favor, alguém terá suspirado, “até que enfim”. Caso isso tenha, de facto, sucedido, terá sido um duplo “até que enfim”. Primeiro: passadas tantas décadas desde aquela Terça-feira de Novembro em que uma sequência de eventos determinaria o fim do PREC, há, na capital de Portugal, uma designação toponímica que fixa a data na memória pública. Segundo: cinco anos depois de o CDS-PP Lumiar ter iniciado o processo de atribuição, ele foi concluído com sucesso.

O percurso até chegar aqui não foi nada evidente. Nem o que atravessa cinco décadas de covardia institucional, nem o que separa a primeira ideia dos autarcas do CDS-PP do Lumiar, há cinco anos, da sua concretização, pela mão de Diogo Moura. Sobre o segundo, tudo começou, como tudo o que é verdadeiramente consistente começa, numa escala pequena para depois, fazendo o seu caminho e percorrendo as instâncias necessárias, crescer até à aguardada concretização.

João Freire de Andrade, presidente da Assembleia de Freguesia do Lumiar desde 2021, juntamente com os seus colegas do CDS-PP Lumiar, apercebeu-se de que, nos arruamentos que vinham sendo inaugurados no novo bairro da Alta de Lisboa, à excepção da Avenida Nuno Krus Abecasis, o padrão onomástico revelava um particular enviesamento à esquerda: Rua Octávio Pato, Rua Carlos Aboim Inglez, Avenida Álvaro Cunhal, Rua General Vasco Gonçalves, entre outros. Assim, em 2021, avançou-se, juntamente com o PSD, para uma moção, aprovada pela Assembleia de Freguesia do Lumiar. Começava aí a longa caminhada que terminaria na passada Quarta-feira.

A intuição era certeira: numa zona de Lisboa simbolicamente povoada pelos fantasmas do gonçalvismo, nada como o eixo principal daquele pedaço de cidade para lhes dar o justo enquadramento. A mensagem é evidente: “25 de Novembro”, muito mais do que o nome de uma avenida, tornar-se-ia no leitmotiv à luz do qual todo o conjunto toponímico passaria a responder. Resta então perceber por que razão foram necessárias cinco décadas para aqui chegar. Nomear uma avenida com uma data da maior relevância para o nosso regime e para o país parece ser um simples gesto de sensatez institucional. Infelizmente, a sensatez é uma virtude que nem sempre é tida em conta pelos responsáveis políticos do nosso país.

O que se verificou na reunião do executivo municipal ilustra bem o problema. Quanto à extrema-esquerda, nem vale a pena mencionar que votou contra. Mas, do Partido Socialista, um dos principais, senão o principal responsável político pelo travão às fantasias soviéticas do General Vasco Gonçalves, obtivemos uma abstenção. Tal como já obtivéramos em 2021, um voto contra da Assembleia de Freguesia do Lumiar. A persistente pusilanimidade do PS em relação ao 25 de Novembro não deve preocupar tanto o CDS-PP como a descendência política de Mário Soares. É a esta que cabe prestar contas pelas decisões que o Partido tem tomado em relação a este assunto.

Nem de propósito, a atribuição do “25 de Novembro” à maior avenida da Alta de Lisboa coincide com a chamada “acampada” do Rossio e com a emergência de algumas figuras que se aproveitam de problemas reais para objectivos irreais. São os filhos e netos da extrema-esquerda derrotada em 1975 que, com a solidariedade de rua do PS, redigem manifestos, exibem cartazes e gritam palavras de ordem precisamente contra a data que consolidou a democracia em Portugal: para nós, a democracia liberal que queremos preservar; para eles, “a democracia de fachada do 25 de Novembro” que querem destruir.

A luta, pelos vistos, continua, mas pelo menos agora, na Alta de Lisboa, os lisboetas podem olhar à sua volta e ver ali os nomes de um determinado período histórico, finalmente contextualizados pela data que lhes dá o seu verdadeiro significado. Dizer que Lisboa ganhou uma nova avenida seria pouco; mais correcto seria dizer que, graças ao CDS-PP, Portugal ganhou memória. Até que enfim.