(c) 2023 am|dev

(A) :: Manifestantes invadem estaleiro da Microsoft em Amesterdão em protestos contra centros de dados em 15 países europeus

Manifestantes invadem estaleiro da Microsoft em Amesterdão em protestos contra centros de dados em 15 países europeus

O protesto reuniu ativistas ambientais e pró-palestinianos que invadiram a construção do futuro datacenter da Microsoft. A manifestação pretende paralisar a construção de três grandes torres.

Agência Lusa
text

Um grupo de manifestantes invadiu esta sexta-feira em Amesterdão, nos Países Baixos, o estaleiro de construção de um futuro centro de dados da Microsoft, no âmbito de uma vaga de protestos que se tem expandido por outros países europeus.

A polícia neerlandesa teve de intervir para retirar os manifestantes que invadiram o estaleiro, num protesto contra o impacto ambiental destas futuras instalações e pelo alegado papel da empresa tecnológica na ofensiva militar israelita na Faixa de Gaza.

Nas imediações, a organização ambientalista Fossielvrij Nederland (Países Baixos Livres de Combustíveis Fósseis, em português) realizou a sua própria manifestação, uma ação inserida numa campanha de protestos convocada para esta sexta-feira e sábado em vários países europeus, com o objetivo de exigir que se ponha fim à expansão dos centros de dados.

Centenas de ativistas ultrapassaram as cercas do recinto, situado no bairro de Sloterdijk, utilizando escadas e abrindo buracos na vedação, e alguns chegaram mesmo a subir a um guindaste e aos andaimes da obra.

Os manifestantes colocaram uma faixa em que se podia ler: “Abaixo os centros de dados, que se lixe a Inteligência Artificial (IA)”, segundo o canal regional neerlandês AT5.

Esta mobilização foi organizada pelo coletivo Geef Tegengas (Fazer Frente, em português), que pretende paralisar a construção de três grandes torres destinadas a albergar servidores informáticos.

A polícia mobilizou para a zona unidades de intervenção e utilizou bastões e gás pimenta durante os confrontos com os manifestantes, após a presidente da Câmara de Amesterdão, Femke Halsema, ter proibido a manifestação. Ainda é desconhecido o número exato de pessoas detidas.

O protesto reuniu ativistas ambientais e pró-palestinianos, entre os quais membros do Extinction Rebellion, que denunciam o elevado consumo energético dos centros de dados, onde são armazenadas e processadas grandes quantidades de informação e que também permitem o funcionamento de serviços de Inteligência Artificial.

Os organizadores do protesto estimam que as instalações consumirão tanta eletricidade quanto todas as residências de Amesterdão juntas e denunciam que o projeto reflete o aumento do poder das grandes empresas tecnológicas.

Os manifestantes pró-palestinianos, por seu lado, acusaram a Microsoft de contribuir para a vigilância e a repressão da população palestiniana devido às suas ligações comerciais com o exército israelita.

A Microsoft afirmou estar ciente da manifestação em Amesterdão, segundo a agência de notícias Associated Press (AP).

“Compreendemos que as pessoas tenham opiniões fortes sobre o projeto e respeitamos o seu direito de expressar essas opiniões de forma pacífica”, afirmou um porta-voz da empresa.

“No entanto, não toleramos quaisquer ações ilegais ou que coloquem em risco a segurança das pessoas”, continuou.

Dezenas de grupos da sociedade civil e ativistas afirmaram que se irão juntar aos eventos “Stop Dirty Data Centres” (Acabem com os Centros de Dados Poluentes), a decorrer até sábado em 15 países europeus, incluindo Irlanda, Polónia, Dinamarca, Finlândia, Espanha, Itália, Países Baixos, França e Reino Unido, segundo os organizadores.

Os dinamizadores dos protestos exigem uma moratória sobre projetos de grande escala para dar resposta às preocupações sociais e ambientais em torno destes gigantes que consomem muita energia.

“Existe um fosso entre a forma como os líderes eleitos se deixam levar pelo entusiasmo em torno da IA e a perceção das pessoas”, afirmou Owen Espley, coordenador da StopDirtyDataCentres.eu.

Na Alemanha, uma dúzia de manifestantes reuniu-se esta sexta-feira em frente a um centro de dados nos arredores de Berlim.

“Queremos pôr fim a esta construção cega de centros de dados por toda a Alemanha, sem ter em conta quaisquer preocupações ambientais”, afirmou a porta-voz do protesto, Caro Weber.

Em Itália, o setor dos centros de dados, em rápido crescimento, enfrenta um aumento igualmente rápido da oposição popular, particularmente na região setentrional da Lombardia, o principal polo de infraestruturas digitais do país.

Os ativistas argumentam que o crescimento das instalações dedicadas à computação em nuvem e à IA está a avançar mais rapidamente do que as consultas públicas e a supervisão ambiental.

O movimento atingiu um marco a 10 de outubro, quando mais de 1.000 pessoas e representantes de cerca de 40 comités locais se reuniram na Piazza della Scala, em Milão, para aquilo que os organizadores descreveram como a primeira manifestação nacional da Itália contra os centros de dados.

A manifestação surgiu na sequência de uma série de mobilizações cada vez maiores em cidades nos arredores de Milão.

A Europa deverá atrair 5,6 mil milhões de dólares (cerca de cinco mil milhões de euros) em despesas de capital acumuladas em centros de dados entre 2026 e 2050, representando cerca de 18% do investimento global, segundo o relatório “Global Data Centre Outlook 2026-50” da consultora PwC.

Nos Estados Unidos, o tema dos centros de dados foi central na campanha eleitoral para as eleições intercalares realizadas na terça-feira, onde muitos dos candidatos do Partido Democrata, o grande vencedor do escrutínio, se opõem à construção dos mesmos.

Prevê-se que os Estados Unidos atraiam 15,1 mil milhões de dólares (cerca de 13,5 mil milhões de euros) em despesas de capital em centros de dados durante esse período, segundo o mesmo relatório da PwC.