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(A) :: Depois da tempestade, não basta esperar pela bonança

Depois da tempestade, não basta esperar pela bonança

Estamos a entrar numa nova época de maior exigência meteorológica. O tempo para retirar lições das ocorrências anteriores não pode ser desperdiçado.

António Carias de Sousa
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A bonança que se seguiu às últimas tempestades já passou. Com a aproximação de um novo inverno, não podemos limitar-nos a esperar que os próximos fenómenos meteorológicos sejam menos severos. Temos de estar melhor preparados para os enfrentar. A experiência recente demonstrou que a forma como planeamos o território, construímos, mantemos e protegemos as nossas infraestruturas condiciona decisivamente as consequências destes acontecimentos. A prevenção não pode continuar a ser uma prioridade apenas quando o risco se torna iminente.

Não podemos controlar a intensidade das tempestades, mas podemos reduzir a vulnerabilidade do território e das comunidades que nele vivem. Nem todos os danos são evitáveis, mas muitas das suas consequências podem ser mitigadas através de decisões tomadas antecipadamente. É neste domínio que a engenharia assume um papel determinante: transformar conhecimento técnico em capacidade de prevenção, resiliência e proteção das pessoas e dos bens.

Preparar o território exige uma visão integrada. Não basta dimensionar redes de drenagem para responder à precipitação intensa se a ocupação do solo comprometer os caminhos naturais da água. As decisões sobre onde construir, como urbanizar e de que forma garantir o escoamento devem ser articuladas com o planeamento das infraestruturas. A gestão do risco começa muito antes da ocorrência de uma tempestade, na qualidade das decisões que tomamos sobre o território.

Esta visão deve também incluir a floresta e a sua relação com as povoações e as infraestruturas. A Engenharia Florestal é essencial na escolha de espécies adequadas, na proteção dos solos e na gestão dos espaços florestais. Não existem soluções universais: a preparação da paisagem deve considerar os diferentes riscos, incluindo o fogo, o vento e a precipitação intensa, procurando respostas adaptadas às características de cada região.

Mas o planeamento, por si só, não chega. É indispensável cuidar do que já existe. A manutenção regular das infraestruturas, a limpeza dos sistemas de drenagem, a inspeção das estruturas e a reparação atempada das situações de maior vulnerabilidade não podem ser tarefas adiadas até ao próximo alerta. Exigem responsabilidades claramente definidas, acompanhamento permanente e investimento continuado. A prevenção não é uma despesa dispensável; é uma condição de segurança e uma forma racional de proteger o investimento público.

A tempestade Kristin, que atingiu a região de Leiria, evidenciou também a interdependência das infraestruturas. Os danos nas estradas e as interrupções no fornecimento de eletricidade, água e telecomunicações demonstraram como a falha de uma rede pode comprometer o funcionamento de outras e afetar serviços essenciais. A resiliência não se constrói apenas reforçando cada infraestrutura individualmente. Exige uma abordagem sistémica, capaz de antecipar as consequências de falhas simultâneas e de assegurar a continuidade dos serviços de que as populações dependem.

Também no Algarve, a depressão Cláudia provocou inundações, quedas de árvores e danos em estruturas, recordando que o Sul não está imune a fenómenos meteorológicos severos. Estes episódios reforçam uma evidência: cada território tem vulnerabilidades próprias e exige soluções adequadas às suas características. Aprender com o passado não significa preparar-nos para repetir a mesma tempestade, mas identificar fragilidades que poderão voltar a ser expostas por fenómenos diferentes.

A engenharia deve estar presente em todas as fases deste processo. Na prevenção, através do planeamento e da redução do risco. Durante a emergência, na avaliação da segurança das estruturas e na proteção dos serviços essenciais. Na recuperação, através da análise das falhas e da definição de soluções que corrijam as vulnerabilidades identificadas.

Reconstruir não pode significar simplesmente repor o que existia. A pressão para recuperar rapidamente a normalidade é compreensível, mas não deve conduzir à repetição das fragilidades que contribuíram para os danos. Sempre que reconstruímos sem corrigir o que falhou, estamos a transferir o problema para o próximo inverno.

Estamos a entrar numa nova época de maior exigência meteorológica. O tempo para retirar lições das ocorrências anteriores não pode ser desperdiçado. É necessário transformar essas lições em decisões concretas, com prioridades claras, responsabilidades assumidas e capacidade de execução.

Não podemos impedir todas as tempestades. Mas podemos evitar que a próxima nos encontre tão vulneráveis. A bonança já passou. É agora que temos de preparar o próximo inverno.