Foi o tempo de “dormir sobre o assunto”. Na noite da passada quinta-feira, a Balenciaga anunciou a saída de Pierpaolo Piccioli da direção criativa, depois de apresentar apenas três temporadas. Já nas primeiras horas da manhã desta sexta-feira, a maison francesa revelou que Martine Rose assume o lugar, sendo a primeira mulher a desempenhar o papel nos 109 anos de história da maison fundada por Cristóbal Balenciaga.
A designer britânica com ascendência jamaicana já tem uma marca consolidada em nome próprio, tendo destaque nas linhas de roupa para homem, num estilo streetwear. Rose foi consultora de moda masculina da Balenciaga entre 2015 e 2018, numa altura em que Demna criava a sua identidade própria, marcada pelas peças oversized. Em 2017 Rose abriu a marca em nome próprio, e desde então criou peças que viralizaram entre os famosos, como é o caso da colaboração com a Nike em 2023 e que ainda hoje se repercute em semanas da moda internacionais e em outras colaborações.
O estilo masculino, inspirado nas subculturas londrinas, que vai dos skinheads à influência jamaicana, conquistou nomes como Kendrick Lamar, Rihanna, A$AP Rocky e Timothée Chalamet. Entretanto, Rose não apresenta uma coleção desde junho de 2025, devido a uma disputa pela sua marca própria e incubadora Tomorrow Ltd, que comprou 60% da empresa em 2023.
“A Balenciaga sempre foi uma casa de criatividade radical, desafiando convenções e redefinindo os limites da moda. Martine Rose personifica este espírito com uma visão fresca, ousada e profundamente contemporânea“, disse Luca de Meo, CEO da Kering, em comunicado. “A sua ligação à nova geração e a sua compreensão instintiva da cultura trazem uma nova dimensão à casa. A sua nomeação reflete a nossa ambição de manter a Balenciaga na vanguarda da inovação, criatividade e cultura”, diz ainda de Meo. Já o CEO da marca, Gianfranco Gianangeli, destaca o “talento criativo extraordinário com uma visão ousada e singular” da designer britânica. “A sua capacidade de desafiar convenções, reinventar silhuetas e trazer uma perspetiva inesperada para a moda ressoa profundamente com o espírito de inovação que define a Balenciaga. Estamos muito felizes por recebê-la como diretora criativa e ansiosos por este novo e entusiasmante capítulo para a casa.”

A decisão por Martine Rose assinala a intenção da marca de se estabelecer perante um público mais jovem, e com uma narrativa que conversa mais facilmente com o streetwear. O comunicado sobre o afastamento de Pierpaolo Piccioli, lançado na passada quinta-feira, não trazia uma citação do designer, apenas do CEO da Kering, que assinalou que o italiano “é um costureiro excecional e um talento criativo por quem temos o maior respeito”, mas que a ambição do grupo “é desenvolver o espírito vanguardista da Balenciaga, honrar o seu notável legado e continuar a expandir os limites da criatividade, consolidando ainda mais a marca como uma voz poderosa e relevante.”
Piccioli foi escolhido para assumir o comando da Balenciaga em maio de 2025, um ano depois de deixar a Valentino, onde esteve por 25 anos. Quem ocupou o seu lugar na maison italiana foi o antigo diretor criativo da Balenciaga, Demna.
Cerca de uma hora depois de a Kering lançar o comunicado, Piccioli usou o próprio Instagram para reagir. Junto a várias fotografias em que aparece a trabalhar no atelier da Avenue George V, o designer italiano destaca o seu percurso na moda. “A alta-costura é uma forma de pensar, uma perspetiva a partir da qual se escolhe olhar. É um território inexplorado, um ecossistema delicado onde o cuidado e a conexão humana são tudo; um equilíbrio mantido vivo por aqueles que escolhem este ofício com consciência. Ao longo dos anos, a minha paixão pela alta-costura definiu quem eu sou, moldando as minhas escolhas e os caminhos que percorri”, escreve Piccioli, que afirma que é no trabalho com alta-costura que “sempre quis estar”.
O designer fala também sobre como acreditava num “sonho bonito”, mas que “a vida é uma viagem e cada capítulo existe para abrir caminho ao próximo.” “Nada termina realmente; tudo evolui. No final, a nossa identidade e os nossos valores são as únicas coisas que realmente nos pertencem. Permanecer fiel a esta identidade e a estes valores é a única forma de navegar com graciosidade pelo que está para vir.” Piccioli termina o texto a agradecer à equipa com que trabalhou, sem citar nomes. “Vocês sabem quem são. E, apesar de tudo, continuem a brilhar. Sempre.”