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PS reúne 400 pessoas em Lisboa para construir programa de Governo. Carneiro quer mostrar serviço ao país (e ao partido)

Movimento de Carneiro parte de casos concretos para desenhar políticas e atrair quadros para o PS. Líder quer lançar as bases de um futuro programa de Governo e terá Pedro Abrunhosa no debate.

Rita Tavares
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Dentro de uma semana, o PS junta em Lisboa mais de 400 pessoas para discutir casos concretos e transformá-los em propostas políticas. São os novos Estados Gerais, que na era Carneiro se chamam “Contamos todos”. Pelo caminho, poderão também revelar-se futuros governantes. “Não é a principal motivação”, garante a organização. Mas também conta.

Na véspera, o partido troca uma voz da academia por uma da música. Para debater o futuro da democracia e a importância da formação cívica, o PS tinha convidado o sociólogo e politólogo Robert Fishman. Impedido de estar presente, vai ser substituído por Pedro Abrunhosa.

O músico não é um estreante em palcos políticos. Em 2025, apoiou Pedro Nuno Santos nas legislativas e António José Seguro nas presidenciais deste ano — anos antes, em 2014, tinha apoiado António Costa contra o mesmo Seguro nas primárias do PS. E antes disso já tinha dado um pé no lado social-democrata, com o apoio a Luís Filipe Menezes na corrida à Câmara do Porto. Agora estará ao lado de José Luís Carneiro depois de, esta semana, ter acusado o Governo, numa entrevista à RTP, de instrumentalizar a polícia para tentar desacreditar os protestos pela habitação.

No dia seguinte, na Estufa Fria, o PS estreia o seu novo “espaço de participação” com 20 painéis de debate, com 20 participantes cada, que vão analisar questões setoriais a partir de um caso concreto. “A ideia é adaptar o método de estudo e trabalho a um caso concreto. Partir do concreto para a teorização e não o contrário”, explica o secretário nacional para a organização do partido, Luís Soares.

Por exemplo, a mesa dedicada à habitação vai procurar responder à pergunta “Ainda é possível viver onde se quer viver?”. O ponto de partida é um exercício concreto: se os participantes tivessem de procurar casa hoje, com os preços e rendas a crescerem acima dos salários, conseguiriam continuar a viver na mesma zona? O PS apresenta um enquadramento onde descreve a situação económica atual e questiona a eficácia do que foi feito nos últimos anos, com dois apontamentos críticos: as isenções fiscais para os jovens na compra da primeira casa e a renda moderada até 2.300 euros — uma ideia que o PS propôs que o Governo revogasse, substituindo-a pela lógica da renda acessível.

A expectativa da organização é que o debate passe pelos apoios a quem procura casa, a mobilização de devolutos, a aceleração da disponibilização de habitação pública e a eventual regulação de preços e rendas. No final, a mesa deverá apresentar até três medidas para alargar o acesso à habitação, indicando a quem se destinam, quem as executa, os recursos necessários e a avaliação de resultados. Neste painel, estará, por exemplo, Sara Brysch, a arquiteta e investigadora luso-alemã reconhecida pelo seu trabalho em habitação colaborativa e habitação a preços acessíveis.

As conclusões destes painéis serão transmitidas a quatro oradores que, durante a tarde, vão fazer intervenções sobre as quatro áreas em discussão: Igualdade e bem-estar, liberdade e segurança, desenvolvimento e transformação e desenvolvimento do território. “É a estruturação de um programa de Governo”, considera Luís Soares. Após este lançamento, acrescenta, a plataforma ficará disponível online para quem quiser propor novos painéis de debate nas áreas que entender.

“É uma plataforma para perdurar além do ciclo eleitoral”, afirma o secretário nacional para a organização do partido. A ambição é durar, mas estas iniciativas partidárias de abertura à sociedade civil acabam por ter um papel mais decisivo na altura em que é preciso afirmar uma alternativa. E José Luís Carneiro precisa de mostrar que a está a preparar, mesmo com as legislativas a três anos de distância e que o líder vá jurando que não tem intenção de provocar uma crise política.

Até porque o calendário que conta não é só o do país. É também o do partido. Carneiro volta a disputar a liderança no início de 2028, antes das próximas legislativas, e sabe que está longe de reunir a unanimidade interna. Os Estados Gerais são, por isso, uma oportunidade para apresentar propostas para o país, mas também de mostrar serviço ao partido.