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(A) :: "Bastava aproximar-nos da casa do pai para o comportamento mudar" (VIII)

"Bastava aproximar-nos da casa do pai para o comportamento mudar" (VIII)

Neste oitavo artigo da série Testemunho de uma Mãe Alienada, continuamos a acompanhar a história de uma mãe que descreve o afastamento progressivo do filho, num contexto que identifica como alienação

Eva Delgado-Martins
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As transições entre as casas dos pais deveriam ser momentos tranquilos e previsíveis na vida de uma criança. Contudo, quando existe um contexto de alienação parental, estes momentos podem tornar-se particularmente difíceis, sobretudo quando o filho alienado sente que não pode demonstrar livremente o afeto e a felicidade que viveu com o pai ou com a mãe do qual transita.

Neste oitavo artigo da série Testemunho de uma Mãe Alienada, continuamos a acompanhar a história de uma mãe que descreve o afastamento progressivo do filho, num contexto que identifica como alienação parental. Neste artigo, procuramos compreender como o conflito de lealdades de um filho se pode manifestar nos momentos de transição entre as casas dos pais, e de que forma o sofrimento emocional de uma criança alienada pode ser observado através de mudanças repentinas no seu comportamento.

“Ele tinha estado muito bem lá em casa”

Um dos aspetos que mais intrigava a mãe alienada era a mudança de comportamento do filho durante as transições entre a sua casa e a do pai.

Segundo o seu testemunho, depois de passar momentos agradáveis consigo, o filho começava a comportar-se de forma diferente à medida que se aproximava da casa do  pai: “Ele tinha estado muito bem lá em casa. Estava muito à vontade. E, no momento em que entrávamos no carro, fazíamos um percurso de cinco minutos e, quando estávamos perto da casa do pai, o comportamento dele já mudava”. A mãe descreveu que, durante esse breve percurso, o filho se tornava mais silencioso, contrariado e opositor, apesar de ter estado descontraído e feliz momentos antes. Na sua interpretação, esta mudança parecia corresponder à necessidade de esconder o bem-estar que tinha vivido na sua companhia: “Ele já começava a criar ali uma situação para demonstrar que não tinha sido bom, quando tinha estado lá e tinha estado super bem”.

Como compreender que uma criança possa estar feliz e descontraída com a mãe e, poucos minutos depois, manifestar comportamentos que parecem contrariar aquilo que acabou de viver?

Esta mudança merece particular atenção porque não se tratava, segundo o relato da mãe, de uma alteração gradual ao longo do convívio, mas de uma transformação que surgia precisamente quando o filho alienado se aproximava da casa do pai.

Durante a intervenção no contexto de vida da parentalidade  que realizamos, refletimos sobre a importância de observar não apenas aquilo que a criança diz, mas também a forma como o seu corpo, a sua expressão emocional e os seus comportamentos se modificam perante determinadas circunstâncias. A propósito destas transições, depois de um convívio feliz com o filho em sua casa, acompanhei a mãe a levá-lo a casa do pai, e observei que, o filho estava a conversar tranquilamente e, à medida que se aproximava da residência de um dos pais, alterava a postura corporal, a expressão e a forma de comunicar.

Uma criança que estava descontraída pode tornar-se tensa, silenciosa ou defensiva, como se precisasse de se preparar emocionalmente para o reencontro com este pai alienador. No caso deste filho alienado, observei precisamente esta transformação. Parecia deixar de conseguir expressar a satisfação que tinha demonstrado durante o tempo passado com a mãe. O que nos deve merecer uma particular atenção é a possibilidade de a criança sentir que precisa de modificar o seu comportamento para não revelar que esteve feliz com a mãe.

O conflito de lealdades e o medo de demonstrar felicidade

As transições entre as casas podem ser emocionalmente exigentes para qualquer criança, sobretudo quando os pais vivem uma situação de conflito intenso. A separação em situação de alienação momentânea de um dos pais, a necessidade de adaptação a diferentes rotinas e a antecipação do reencontro com o outro podem provocar ansiedade ou insegurança.  Contudo, em situações de alienação parental, pode existir uma dificuldade adicional: o filho alienado pode sentir que demonstrar felicidade com um dos pais significa desagradar ou ser desleal para com o outro.

Na intervenção psicológica da parentalidade que realizei com esta família, tive oportunidade de observar comportamentos da criança compatíveis com um conflito de lealdade, nomeadamente a preocupação frequente em confirmar o que lhe era permitido fazer e o receio de contrariar indicações do pai. Estas observações ajudaram a compreender o significado psicológico que as mudanças descritas pela mãe poderiam assumir. O filho alienado vivia uma tensão entre aquilo que sentia durante os momentos de proximidade afetiva com a mãe e aquilo que receava demonstrar quando regressava à casa do pai.

O sofrimento emocional de uma criança alienada pode manifestar-se precisamente nesta dificuldade em conciliar o amor que sente por ambos os pais com a perceção de que precisa de corresponder às expectativas de um deles. É importante compreender que uma mudança de comportamento, isoladamente, não permite determinar a sua causa. Contudo, quando estas alterações se repetem e são acompanhadas por manifestações de medo, insegurança e preocupação em não contrariar um dos pais, devem ser analisadas no conjunto da história familiar e das observações realizadas em contexto.

“O tempo passa muito depressa”

Outro aspeto particularmente doloroso deste testemunho era a curta duração dos momentos de convivência entre a mãe alienada e o filho. A mãe recordou: “Porque o tempo passa muito depressa entre a escola, jantar e voltar a entregar, a levá-lo a casa.” Entre a saída da escola, o jantar e a deslocação até à casa do pai, o tempo disponível para estarem juntos era reduzido. Cada momento de convívio representava uma oportunidade de preservar a proximidade afetiva com o filho. Contudo, o regresso à casa do pai parecia ser acompanhado por uma mudança emocional que comprometia a tranquilidade dos últimos minutos que passavam juntos.

A brevidade do convívio que, por si só, causava sofrimento, era uma dificuldade agravada pela experiência de ver o filho transformar o seu comportamento precisamente no momento da despedida.

Nestas circunstâncias, o tempo de convivência pode ficar marcado pela antecipação da separação, tornando mais difícil viver os momentos de proximidade com espontaneidade.

O sofrimento de ver um filho mudar perante os nossos olhos

Durante a conversa com esta mãe, refletimos também sobre o sofrimento de quem presencia estas mudanças e percebe que a criança poderá estar emocionalmente condicionada. Mesmo quando um pai ou uma mãe compreende que determinados comportamentos podem estar associados a um processo de alienação parental, isso não diminui necessariamente a dor de os testemunhar.

Para a mãe alienada, estas situações foram vividas como uma nova manifestação de rejeição, apesar de ter acabado de partilhar momentos de afeto e proximidade com o filho. Mas nem sempre os comportamentos de oposição ou rejeição de uma criança alienada correspondem à ausência de amor pelo pai ou pela mãe rejeitados. Podem também constituir manifestações de sofrimento, insegurança e conflito de lealdade. Uma criança pode amar profundamente um dos pais e, ainda assim, sentir que não tem liberdade para demonstrar esse amor na presença do outro.

A importância de observar a criança nos momentos de transição

Este testemunho reforça a importância da intervenção psicológica em contexto, particularmente quando existem comportamentos contraditórios que não podem ser compreendidos apenas através dos relatos dos pais. Observar uma criança durante um convívio, no percurso entre as casas e nos momentos de despedida pode fornecer informações relevantes sobre o seu estado emocional e sobre as circunstâncias em que surgem determinadas alterações de comportamento. É fundamental compreender se a criança manifesta ansiedade, receio, tensão ou necessidade de controlar aquilo que diz e faz, distinguindo os comportamentos observados das interpretações sobre as suas causas.

Nas situações de alienação parental, a observação em contexto pode ajudar a identificar o sofrimento emocional que se esconde por detrás de comportamentos aparentemente inexplicáveis ou contraditórios. O objetivo não é transformar cada reação da criança numa prova contra um dos pais, mas compreender as suas necessidades emocionais e identificar formas de a proteger do conflito parental.

Nenhuma criança deveria ter de esconder que foi feliz

O testemunho desta mãe alienada mostra como um percurso de apenas cinco minutos pode assumir um significado emocional profundo na vida de uma criança. O filho que tinha brincado, conversado e estado descontraído com a mãe parecia transformar-se à medida que se aproximava da residência do pai. Uma criança deve poder regressar à casa do pai e contar que passou bons momentos com a mãe, tal como deve poder regressar à casa da mãe e partilhar a felicidade que viveu com o pai. Deve poder sentir saudades, demonstrar carinho e falar das suas experiências sem recear que essas manifestações de afeto sejam interpretadas como uma deslealdade.