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(A) :: Francis Fukuyama e a ascensão do populismo. "Se a questão fosse apenas económica, os eleitores votariam em massa na social-democracia"

Francis Fukuyama e a ascensão do populismo. "Se a questão fosse apenas económica, os eleitores votariam em massa na social-democracia"

O homem que ficou associado à ideia do "Fim da História" sente-se incompreendido. Uma entrevista sobre a democracia liberal, o fim de Trump e o motor dos populismos.

Cátia Bruno
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Francis Fukuyama acha que foi incompreendido.

O homem que ficou conhecido por ter decretado “O Fim da História” com a queda do Muro de Berlim e o fim da União Soviética ficou para sempre associado a essa ideia. Mas, num mundo atual de crescimento do populismo, guerras e autoritarismo, muitos apontaram-lhe o dedo: afinal, não tínhamos caminhado para a democracia liberal e prosperidade económica que a década de 1990 em tempos prometeu.

Quase 35 anos depois da publicação de Fim da História e o Último Homem (ed. Gradiva), Fukuyama veio repor a sua verdade com No Reino do Último Homem, publicado pela D. Quixote no passado mês de outubro. “Muitos críticos ocasionais da ideia do ‘fim da História’ não leram o que eu escrevi para além do título, e, sobretudo, não prestaram atenção aos últimos cinco capítulos de O Fim da História e o Último Homem“, escreve o autor na mais recente obra. “Esses capítulos contêm uma clara premonição da ascensão do tipo de populismo demagógico que temos experienciado desde meados da década de 2010 até hoje, uma ascensão que ameaça a estabilidade da democracia na sua metrópole, os Estados Unidos.”

Não se pense, porém, que No Reino do Último Homem é apenas um ajuste de contas. O livro mistura ensaio com memórias da infância e da vida adulta, a história da sua família — o avô fugiu do Japão para os EUA para fugir à mobilização para o Exército Imperial Japonês, a avó partiu para a América para casar com um homem que ainda não conhecia —, o gosto pela fotografia e a carpintaria, mas também uma reflexão sobre a turbulência dos tempos em que vivemos.

Nesta entrevista com o Observador, que teve lugar apenas um dia antes das eleições intercalares que viriam a dar uma vitória estrondosa ao Partido Democrata, Fukuyama fez uma previsão certeira sobre Donald Trump, que considera ser agora um homem “que perdeu a frescura”, que repete “os mesmos slogans até à exaustão” e que, depois de lançar uma guerra contra o Irão, já não se pode assumir como o outsider que disse ser durante tantos anos. “Muitos republicanos vão perceber que Trump se tornou um fardo para eles e que a associação à sua figura impede a reeleição”, diz, a partir da Califórnia. “Estamos há 12 anos à espera deste momento e creio que ele pode ter finalmente chegado.”

Mas Fukuyama não se limita a olhar para os Estados Unidos. A Inteligência Artificial, o Médio Oriente pós-guerra do Iraque (que o fez afastar-se dos amigos neocons) e as guerras identitárias também o preocupam. Já para não falar da ascensão do populismo que, considera, não se baseia apenas em descontentamento com a situação económica das pessoas. “O facto de os banqueiros ricos terem saído bem da crise, enquanto os cidadãos comuns perdiam as suas casas, criou ressentimento, que foi agravado pela perceção de que as elites responsáveis pelo colapso não prestaram contas e continuaram a olhar com desdém para quem sofreu as consequências”, afirma. “A desigualdade económica transforma-se muito facilmente numa desigualdade de respeito.” Estas e outras ideias numa conversa com um homem que em tempos esteve próximo do Partido Republicano, mas que hoje se coloca firmemente ao centro — um lugar solitário num mundo cada vez mais polarizado.

No livro refere a ideia de Hegel de que o pensamento e as instituições humanas não são imutáveis e evoluem ao longo do tempo. Dá inclusive o exemplo da monarquia e da escravatura e de como a nossa perspetiva sobre elas se transformou. Pergunto-lhe, por isso, se considera que os ideais de democracia e de igualdade de direitos que hoje defendemos no Ocidente também podem regredir — seja de forma permanente ou cíclica. Em suma: corremos o risco de perder a democracia para sempre ou trata-se de um retrocesso temporário do qual é possível recuperar?
Acho que é preciso distinguir entre períodos de retrocesso da democracia e o descrédito da própria ideia de democracia — acho que são duas coisas diferentes. Já tivemos retrocessos no passado, nas décadas de 1930 e 1970, mas a democracia acabou por regressar. Há, no entanto, questões sobre o futuro da democracia para as quais não tenho resposta e que podem implicar um desagregamento mais profundo do sistema. E grande parte disso prende-se com a tecnologia, uma vez que qualquer sistema político ou conjunto de ideias políticas é, em última análise, profundamente condicionado pela tecnologia de cada época. Quando existiam reis e aristocratas, vigorava um sistema feudal agrário assente no campesinato e na sua opressão. Em grande medida, a emergência de uma sociedade industrial, com níveis de riqueza e de escolaridade muito mais elevados, foi o que tornou a democracia possível — até porque não se pode ter um sufrágio de massas se as pessoas não souberem ler ou forem analfabetas. Mas a evolução tecnológica não parou. Num livro que publiquei no início dos anos 2000 sobre o futuro pós-humano, abordei o impacto potencial da biotecnologia. Se for possível alterar a natureza humana, altera-se a própria natureza dos direitos, o que teria consequências profundas. Com o advento da Inteligência Artificial, enfrentaremos toda uma nova série de desafios. E não sei como serão resolvidos, até porque teremos máquinas capazes de tomar decisões humanas a substituir os decisores humanos. Acredito que haverá uma tentação fortíssima de delegar a tomada de decisão democrática em máquinas, o que pode perfeitamente agravar as desigualdades. Há, portanto, todo um conjunto de vias pelas quais esta nova vaga tecnológica pode ser altamente destrutiva para o modelo de política democrática que conhecemos até hoje. Mas não sabemos. Resposta curta: não sabemos, são meras especulações.

É interessante como a tecnologia, em particular quando falamos de IA, não se limita a evoluir a par do resto do mundo, mas parece fundir-se com a própria política. Vemo-lo na China, mas também nos EUA, onde as grandes empresas tecnológicas surgem de algum modo associadas ao atual Presidente. Considera que isso aumenta ainda mais o risco?
Bem, considero que a competição geopolítica dificulta a regulação da tecnologia. É claramente o que se passa nos EUA. Quando se defende que devíamos regular a IA ou desacelerar o seu desenvolvimento, a primeira reação é: “Então e a China?” A ideia de que, se abrandarmos, a China nos ultrapassará na corrida à superinteligência — ou seja qual for a meta desta competição — torna o esforço regulatório mais difícil. Não estou totalmente convencido de que este seja um argumento imbatível. Parece-me que, se a tecnologia for tão perigosa como alguns sustentam, o próprio Governo chinês não quererá simplesmente promovê-la às cegas. Estão muito focados em manter o controlo; se estas máquinas não puderem ser efetivamente controladas, o regime também não terá interesse nisso. Por isso, não excluo a possibilidade de alcançarmos algum tipo de acordo relevante para limitar a tecnologia, embora a rivalidade geopolítica torne isso difícil. Acresce que, nos próprios Estados Unidos, as grandes empresas estão a competir para atingir a Inteligência Artificial geral, e essa competição interna impede qualquer uma delas de abrandar.

"[Trump] é inequivocamente autoritário. Ele gostava de ter o tipo de poderes autoritários de que gozam Putin ou Xi Jinping. Só não o conseguiu porque os Estados Unidos ainda dispõem de instituições suficientemente fortes para o travar, mas não há qualquer dúvida de que gostaria de ser como eles. Não admira nenhum estadista democrático; só admira ditadores e homens-fortes."

Preocupa-o que o atual Presidente norte-americano pareça incentivar essa corrida em vez de promover algum tipo de regulação?
Ele foi capturado por estes conselheiros de Silicon Valley, que lhe dizem para não se preocupar com nada. Acho que é um erro grave, inclusive do ponto de vista político, uma vez que a rejeição dos data centers é muito profunda em ambos os partidos. Tanto os democratas como os republicanos têm alas profundamente preocupadas com a Inteligência Artificial.

Vimo-lo na campanha para as intercalares: de repente, os data centers tornaram-se um tema central em vários estados.
E acredito que será um tema ainda mais determinante nas presidenciais de 2028. Portanto, não me parece que a linha política atual vá durar para sempre; haverá pressões para abrandar, regular e por aí fora.

Que balanço faz destes últimos dois anos da presidência Trump? No livro, chega a descrevê-lo como autoritário.
Sim, ele é inequivocamente autoritário. Ele gostava de ter o tipo de poderes autoritários de que gozam Putin ou Xi Jinping. Só não o conseguiu porque os Estados Unidos ainda dispõem de instituições suficientemente fortes para o travar, mas não há qualquer dúvida de que gostaria de ser como eles. Não admira nenhum estadista democrático; só admira ditadores e homens-fortes. Neste segundo mandato, em particular, personalizou o exercício do poder. Em vez de respeitar regras gerais e precedentes, tenta moldar todo o sistema em função do seu benefício pessoal. Daí assistir-se a um nível sem precedentes de corrupção na administração, que condiciona a política americana. Isso é péssimo para o futuro, porque cria precedentes gravíssimos sobre o uso do poder político para proveito próprio.

Acredita que o impacto eleitoral dessas medidas pode começar a forçar uma alteração de rumo? Penso, por exemplo, na imigração — e, é claro, a sua própria família emigrou para os EUA. As rusgas do ICE têm sido altamente impopulares. Acha que isso pode levar a uma mudança de políticas em matérias específicas?
Bem, é uma questão complexa, até porque há aspetos da agenda de Trump para a imigração que são francamente populares e que eu próprio apoio. Acho que Biden deixou a fronteira descontrolar-se; o fluxo de pessoas era excessivo, o sistema não tinha capacidade de resposta e os cidadãos reagiram mal a isso. Hoje, a fronteira está praticamente selada e quase não há travessias ilegais. Mas Trump foi incomparavelmente mais longe: não gosta de imigração legal, opõe-se à vinda de estudantes estrangeiros para as universidades americanas e trava a cooperação com cientistas internacionais. Trata-se, portanto, de uma visão muito mais tacanha e nacionalista. Além disso, é um discurso profundamente racista. Basta ouvi-lo falar sobre os imigrantes da Somália, ele diz que estão geneticamente predispostos para a criminalidade e que não devemos aceitar pessoas assim no país. Não creio que a maioria dos americanos se reveja nesta posição. Querem a fronteira controlada, mas continuam a ter uma visão positiva da imigração. A grande maioria dos americanos tem antepassados imigrantes, em muitos casos recentes. Por isso, não me parece que venha a existir um apoio alargado a esta política nativista e tacanha que Trump promove.

"Não me parece que a esquerda atual seja substancialmente mais radical do que era nos anos 60, quando eu era jovem. As pessoas ficam chocadas por ver os jovens usar a palavra 'socialismo', mas não entendem o que o termo significa. Não creio que a maioria esteja a defender a nacionalização de grandes empresas, a ditadura do proletariado ou o tipo de conceitos que antigamente definiam o socialismo."

A campanha para as intercalares pôs também em evidência o crescimento de uma vaga progressista que se assume como socialista, sobretudo entre os eleitores mais jovens. No entanto, no seu livro nota que os protestos académicos, por exemplo, não são, de modo algum, um fenómeno novo. O quão distinto é este momento em relação às revoltas do passado?
Não me parece que a esquerda atual seja substancialmente mais radical do que era nos anos 60, quando eu era jovem. As pessoas ficam chocadas por ver os jovens usar a palavra “socialismo”, mas não entendem o que o termo significa. Não creio que a maioria esteja a defender a nacionalização de grandes empresas, a ditadura do proletariado ou o tipo de conceitos que antigamente definiam o socialismo. O que pretendem é simplesmente mais redistribuição de rendimentos, maior regulação estatal e um modelo fiscal que taxe os milionários.

Mais próximo do modelo social-democrata europeu.
Muito disto é social-democracia clássica. Nesse sentido, não é nada de especialmente novo. Há indivíduos a querer ir mais longe, mas nos Estados Unidos não terão grande recetividade.

E este movimento juvenil surge associado à dita agenda woke, mas começou também a vincular-se a novas causas, como a situação em Gaza. Já houve muitas análises a defender que a esquerda se focou excessivamente na política identitária, negligenciando a redistribuição da riqueza. Não considera que essa dinâmica pode estar a mudar com estes novos atores políticos focados no custo de vida e na redistribuição da riqueza?
É um pouco mais complicado, porque muita gente na esquerda entende a igualdade de género e das minorias raciais como parte da agenda tradicional de redistribuição de riqueza, dado que estes grupos continuam em desvantagem económica face aos homens brancos. No entanto, tem razão quando diz que, em 2020, após o assassinato de George Floyd, o foco tendeu a ser quase exclusivamente cultural — centrado na raça, género e orientação sexual. Atualmente, estes novos candidatos democratas “socialistas” voltaram a enfatizar a justiça fiscal, o controlo dos milionários, esse tipo de coisas. Há, portanto, um regresso aos temas económicos. E, na verdade, considero isso positivo. Faz muito mais sentido para eles como estratégia política do que as questões culturais, que foram meio loucas.

Até [Alexandra] Ocasio-Cortez já veio dizer que a vaga “woke 1″ foi uma loucura…
Sim.

Recuando a 2003, a Guerra do Iraque foi um ponto de viragem pessoal para si. Admite que mudou de posição e se afastou de velhos amigos. Diria que a fratura atual no Partido Republicano em torno de Trump e do movimento MAGA é ainda mais profunda do que a divisão de 2003 entre neoconservadores e os republicanos anti-intervencionistas?
Sim. Tanto na política interna como na externa, Trump adotou posições infinitamente mais extremas do que qualquer medida tentada por George W. Bush. Por isso, prevejo uma rutura muito maior. Ele lançou uma nova guerra depois de ter prometido o contrário. Não tem um pensamento económico coerente: adora tarifas, e acho que ninguém no país gosta delas. Não existe uma ala relevante no Partido Republicano a clamar pelas tarifas. O resultado será uma identidade [partidária] muito fraturada. Além disso, se olharmos para as sondagens, vemos não apenas a sua queda de popularidade, mas uma rejeição pessoal a Trump de uma intensidade extraordinária. A grande maioria dos que não gostam de Trump fá-lo de forma visceralmente pessoal. Se os democratas obtiverem um bom resultado nas eleições intercalares [esta entrevista foi feita um dia antes da eleição], muitos republicanos vão perceber que Trump se tornou um fardo para eles e que a associação à sua figura impede a reeleição. É algo que já se começou a notar nestas intercalares. Consequentemente, haverá mais disponibilidade de alguns para criticar abertamente quando ele fizer algo escandaloso, como reivindicar a Gronelândia. Estamos há 12 anos à espera deste momento e creio que ele pode ter finalmente chegado.

"Não há a menor hipótese de optarem por uma intervenção terrestre massiva com muitos soldados [no Irão]. Essa lição foi finalmente aprendida. A lição que não aprenderam é que não é possível alcançar mudanças políticas duradouras recorrendo exclusivamente a campanhas aéreas de bombardeamento. Não funcionou na II Guerra Mundial, não funcionou no Vietname nem noutros conflitos, e manifestamente não funcionou com o Irão. Essa é a lição que a equipa de Trump não assimilou."

Em todos os ciclos eleitorais se antecipa o fim do domínio de Trump e tal nunca se concretizou. Está convencido de que será desta?
Desta vez sim. Ele perdeu a frescura, é um homem velho. Limita-se a repetir os mesmos slogans até à exaustão e a fazer comícios que atraem cada vez menos gente. No início, transmitia a imagem de um outsider capaz de agitar o sistema e resolver os grandes problemas da política americana. Neste momento, já ninguém acredita que tenha capacidade para o fazer.

Considera que a guerra do Irão o fez passar a ser visto como parte do próprio sistema?
Sobretudo junto da sua própria base eleitoral, que era precisamente quem mais rejeitava o envolvimento americano em novas guerras no Médio Oriente ou noutras paragens. E foi exatamente aí que ele os enganou.

Escreve detalhadamente sobre como pensa que a Guerra do Iraque provou aos EUA que é impossível construir um Estado a partir do zero. Acha que Trump percebeu isso, ou existe o risco de esta administração tentar um percurso idêntico?
Não há a menor hipótese de optarem por uma intervenção terrestre massiva com muitos soldados. Essa lição foi finalmente aprendida. A lição que não aprenderam é que não é possível alcançar mudanças políticas duradouras recorrendo exclusivamente a campanhas aéreas de bombardeamento. Não funcionou na II Guerra Mundial, não funcionou no Vietname nem noutros conflitos, e manifestamente não funcionou com o Irão. Essa é a lição que a equipa de Trump não assimilou. Julgaram ser possível. Mas, bem, acho que estavam provavelmente influenciados por “Bibi” Netanyahu e por figuras rasas como Pete Hegseth, que simplesmente não entendem a História.

Há uma ausência de académicos e especialistas nesta administração?
O Departamento de Estado e as agências de informações foram sangrados de quadros técnicos, entre demissões e afastamentos. A decisão de avançar para a guerra foi tomada sem qualquer aconselhamento qualificado. Há duas décadas que os analistas sabem que um ataque ao Irão nos moldes em que foi efetuado levaria Teerão a tentar bloquear o Estreito de Ormuz.

Houve várias simulações e war games sobre esse cenário…
Muita gente sabia, mas esta administração desmantelou todo o processo habitual que existia para tomar uma grande decisão como começar uma guerra e só se apoiou num círculo extremamente restrito de conselheiros. Como resultado, cometeram um erro crasso que teria sido facilmente evitado se tivessem cumprido o processo normal de consulta dentro do Governo.

Acredita que não haverá recuo e que vão optar por radicalizar a postura?
Trump não vai recuar; não é esse o seu instinto. Pelo contrário, é muito provável que entre em desespero e se mostre disposto a assumir riscos extremos para voltar a ter os holofotes virados para si no pós-eleições. Não antevejo, por isso, um período de governação sereno.

"A história da China ainda não acabou. Há hoje uma população muitíssimo mais escolarizada na China e o regime tem mantido um desempenho razoável. Se caírem numa crise económica prolongada que ponha em causa a eficácia do modelo, não estou certo de que a lealdade ao Partido Comunista se mantenha inabalável."

Nota que a ameaça do islamismo radical muitas vezes leva ao surgimento de regimes autoritários, que surgem para o controlar. Rejeita a tese do “choque de civilizações” de Samuel Huntington, mas, dada a persistência de regimes autocráticos no Médio Oriente, mantém a convicção de que o desejo de democracia é universal?
Acho que Huntington errou ao considerar as civilizações como os atores centrais — esses continuam a ser os Estados-nação. A sua tese aplica-se melhor, contudo, ao mundo islâmico, por ser a única região do mundo onde as pessoas sentem que pertencem a uma cultura comum moldada pela religião. Mas isso não ocorre em mais lado nenhum. Na América Latina ninguém pensa: “Somos todos católicos, logo temos de atuar em bloco”. No Leste Asiático ninguém diz: “Somos parte de uma civilização confuciana, logo vemos o mundo da mesma forma”. Os Estados-nação continuam a ser a unidade determinante. Assistimos a um recrudescimento do nacionalismo à escala global, mas não era disso que Huntington falava. Ele antecipava a fusão dos nacionalismos em blocos civilizacionais mais amplos, o que simplesmente não aconteceu.

Pensa que, à medida que os níveis de escolaridade aumentam, há uma maior predisposição das pessoas para a democracia?
Tudo indica que essa premissa da teoria da modernização provavelmente não é verdadeira. Há traços universais: em nenhuma civilização as pessoas apreciam viver sob ditaduras e existe um desejo genérico de liberdade básica. No entanto, há diferenças culturais que favorecem o aparecimento de regimes autoritários em certas regiões de forma muito mais consistente do que noutras.

Vemos o caso da China, que combina crescimento económico sustentado e estabilidade social sem que se observe uma exigência generalizada de democratização.
A história da China ainda não acabou. Há hoje uma população muitíssimo mais escolarizada na China e o regime tem mantido um desempenho razoável. Se caírem numa crise económica prolongada que ponha em causa a eficácia do modelo, não estou certo de que a lealdade ao Partido Comunista se mantenha inabalável. Mas veremos. Admito perfeitamente a possibilidade de o país não evoluir no sentido democrático.

Como admite a possibilidade inversa?
Exatamente.

Refere a existência de um eixo global que alinha países tão díspares como a China, a Rússia, o Irão e a Coreia do Norte, unidos na oposição à ordem liberal democrática liderada pelos EUA. O que alimenta esta hostilidade aos Estados Unidos? Imagino que o intervencionismo americano tenha tido o seu peso ao longo do tempo, mas haverá outros fatores?
Varia consoante os atores, mas há um fundo comum de crítica à hegemonia ocidental que passa pela rejeição dos valores culturais do Ocidente e pela recusa de instituições democráticas que limitariam o poder desses regimes. É curioso notar que existe hoje uma aliança mais forte — há uma cooperação militar efetiva entre China, Rússia, Coreia do Norte e Irão —, algo que não existia aquando da Guerra do Iraque, acompanhada contudo de um fosso ideológico maior entre eles. Trata-se de um cálculo puro de realpolitik: entenderam que têm a ganhar se atuarem em conjunto, mas sem que exista qualquer afinidade ideológica estrutural.

"Se a questão fosse puramente económica, os eleitores estariam a votar em massa na social-democracia. (...) No entanto, os sociais-democratas estão mal em quase todo o lado, enquanto os partidos da direita populista, focados no ressentimento cultural, não param de crescer. Isto demonstra que a desigualdade económica é vivenciada sobretudo como uma desigualdade cultural e não apenas económica."

É uma aliança de conveniência para fazer avançar interesses próprios, portanto. Olhando para a atualidade internacional, numa altura de intensas manifestações na Europa e de crescimento de partidos populistas, defende que muito deste ressentimento decorre mais de uma procura de respeito do que propriamente de reivindicações socioeconómicas. Não considera, ainda assim, que a crise financeira de 2008 destruiu a expetativa de progresso contínuo, de cada geração pensar que a seguinte viverá melhor?
Os fatores económicos são importantes, mas também se traduzem em ideias culturais. O facto de os banqueiros ricos terem saído bem da crise, enquanto os cidadãos comuns perdiam as suas casas, criou ressentimento, que foi agravado pela perceção de que as elites responsáveis pelo colapso não prestaram contas e continuaram a olhar com desdém para quem sofreu as consequências. A desigualdade económica transforma-se muito facilmente numa desigualdade de respeito. Testemunhei-o na Alemanha durante o período eleitoral em que a AfD se afirmou. A Alemanha Ocidental fez investimentos colossais na parte oriental após a reunificação: expandiu o seu Estado social, estimulou o emprego e injetou recursos massivos na economia. Mas o que alimenta a AfD é o ressentimento social perante a falta de respeito que os alemães ocidentais manifestam pelos de leste. Manifesta-se em detalhes subtis, como os sotaques regionais. É muito interessante o facto de os cidadãos do ocidente falarem fluentemente inglês, enquanto no leste essa aprendizagem não existiu, o que os exclui de certos circuitos internacionais. Portanto, as desigualdades económicas são importantes, mas derivam muito rapidamente em ressentimento cultural. O argumento definitivo é este: se a questão fosse puramente económica, os eleitores estariam a votar em massa na social-democracia. São eles quem quer usar a política económica para a mitigação das desigualdades. No entanto, os sociais-democratas estão mal em quase todo o lado, enquanto os partidos da direita populista, focados no ressentimento cultural, não param de crescer. Isto demonstra que a desigualdade económica é vivenciada sobretudo como uma desigualdade cultural e não apenas económica.

Daí a clivagem do voto por qualificações académicas e a fratura entre o mundo rural e o meio urbano, que alimenta um voto de protesto contra elites percecionadas como condescendentes?
Exatamente isso.

Olhando para o seu percurso, transparece uma postura assumidamente centrista e moderada no debate público. Ser moderado hoje em dia está fora de moda? É um exercício solitário?
[Risos] Especialmente na era das redes sociais, ser um moderado razoável é algo que não atrai muito interesse. A própria dinâmica das redes sociais é assim: para captar atenção, os influencers são compelidos a adotar posições cada vez mais extremas, porque é isso que faz com que sejam notados e lhes dá mais seguidores. Essa é uma parte da razão pela qual vemos a disseminação da polarização em múltiplos países — e a internet é o principal motor disso.