A Unidade Local de Saúde do Algarve (ULS do Algarve) vai instaurar um inquérito para apurar as circunstâncias da morte de um homem que aguardava atendimento no Serviço de Urgência de Portimão, disse esta quinta-feira o presidente da administração hospitalar.
Também a Inspeção-Geral das Atividades em Saúde (IGAS) confirmou à Lusa que vai instaurar um inquérito para apurar as circunstâncias da morte, na madrugada de quarta-feira, do homem de 87 anos, após cerca de 10 horas de espera no Serviço de Urgência do Hospital de Portimão.
Em declarações à Lusa, o presidente do conselho de administração da ULS do Algarve, Tiago Botelho, afirmou que, conforme os dados recolhidos pela instituição, o utente de 87 anos terá aguardado “cerca de 10 horas” até ser chamado para observação médica na Urgência do Hospital de Portimão, serviço a que recorreu por volta das 17h00 de terça-feira.
O utente foi chamado para atendimento por volta das 04h00 de quarta-feira, não tendo respondido à chamada, sendo encontrado pelos enfermeiros “inconsciente na sala de espera”, explicou o presidente da ULS do Algarve, rejeitando ainda informação de que o homem tenha morrido na sala de espera.
“O doente não morreu na sala de espera. Ele faleceu na sala de reanimação”, afirmou, explicando que o utente foi encontrado inconsciente após ter sido chamado para observação médica, tendo sido posteriormente “sujeito a manobras de reanimação sem sucesso”.
Tiago Botelho explicou que o doente, com várias comorbilidades, recorreu à urgência com queixas de vómitos e dor abdominal, tendo sido triado com pulseira amarela.
“Tratava-se de um doente que se apresentou à urgência com queixas de vómitos e dor abdominal e, portanto, foi por esse facto que foi triado como amarelo”, referiu, acrescentando que os sintomas apresentados “não permitiam antecipar o desfecho fatal”.
“São sintomas que em nada faziam prever o desfecho infeliz que acabou por acontecer”, afirmou, acrescentando que o utente tinha antecedentes clínicos, incluindo um acidente vascular cerebral (AVC) e outras doenças crónicas.
“O senhor tinha outras patologias, tinha tido um AVC há algum tempo, tinha outras doenças crónicas, mas, de facto, as queixas não eram compatíveis com uma situação de gravidade elevada”, detalhou.
Tiago Botelho esclareceu também que o doente não estava acompanhado por familiares, mas encontrava-se numa área permanentemente frequentada por profissionais de saúde e outros utentes.
“Não estava acompanhado por familiares, mas encontrava-se numa sala onde havia profissionais de saúde à vista, portanto, não era uma situação em que estivesse fora do alcance visual dos nossos profissionais. Aliás, estavam outros doentes também presentes”, referiu.
A administração da ULS do Algarve vai agora averiguar as circunstâncias da ocorrência e apurar eventuais responsabilidades.
O caso ocorre num contexto de pressão sobre os serviços de urgência hospitalar, particularmente durante os períodos de maior afluência, e deverá agora ser analisado quer pela entidade inspetiva, quer pela administração hospitalar.
Questionado sobre os tempos de espera registados naquele dia, Tiago Botelho admitiu que uma procura acima do habitual poderá ter contribuído para o aumento da demora no atendimento.
“Efetivamente, o dia de anteontem teve uma procura um pouco mais elevada do que o costume em Portimão. Nós costumamos ter cerca de 120 a 130 episódios por dia. Nesse dia estiveram cerca de 200″, indicou.
Segundo o responsável, o hospital tem registado “alguma maior afluência inesperadamente, uma maior procura”, embora tenha ressalvado ser prematuro estabelecer uma relação direta entre esse aumento e o caso em causa.
“Não quero afirmá-lo de forma definitiva, mas pode ter contribuído para alguma maior espera na urgência”, concluiu.