A situação económica e social tem vindo a agravar-se em França, país que esta quinta-feira enfrenta uma greve geral, e os analistas admitem que estes problemas podem vir a afetar outras economias europeias, incluindo Portugal.
O país tem sido impactado por protestos contra questões como o aumento do custo de vida, com bloqueios de escolas realizados por estudantes e até episódios de violência, tendo-se alargado para uma greve geral marcada para esta quinta-feira.
A economia e as contas públicas do país atravessam um momento complicado. Carsten Brzeski, chefe global de macroeconomia do banco ING, afirmou numa análise que “França não é a Grécia”, numa alusão à crise financeira de 2009 que abalou a União Europeia.
Contudo, a incapacidade da França de cumprir as metas de gastos e de crescimento, bem como objetivos de corte de despesas, está na raiz dos seus problemas económicos.
A dívida pública atingiu 119% do Produto Interno Bruto (PIB) e o Governo informou que o seu orçamento voltaria a ultrapassar os limites de gastos da União Europeia, com a dívida pública a chegar a quase 122% do PIB, um novo recorde.
Em 30 de outubro, a Fitch reviu a perspetiva da dívida soberana da França de estável para negativa, embora tenha mantido a sua classificação de crédito de longo prazo em ‘A+’, perante a deterioração das perspetivas de crescimento, do aumento do custo de financiamento e do agravamento das contas públicas.
A Fitch prevê que a dívida pública francesa aumente de 115,7% do PIB em 2025 para aproximadamente 124% em 2028, acima da sua estimativa anterior de 122,7%.
Quanto à economia, o Banco de França sinalizou uma possível revisão em baixa na projeção de crescimento para 2026, após a contração do PIB francês no terceiro trimestre, de 0,1% em relação ao trimestre anterior, pressionado pelas exportações líquidas e pelo investimento fixo.
Segundo uma análise do Fórum para a Competitividade, os problemas políticos e orçamentais em França “estão a afetar fortemente as suas taxas de juro e é provável que venham a desacelerar esta economia (o nosso terceiro parceiro comercial), afetando os restantes países europeus”.
“As taxas de juro francesas têm aumentado imenso, já regressaram aos níveis da crise de 2011 e 2012 e ultrapassaram as taxas homólogas de Itália, depois de, ainda em 2025, terem subido acima das espanholas e portuguesas”, lê-se, sendo que o impasse político e a forte subida de taxas de juro “deverão afetar o crescimento em França e prejudicar os seus principais parceiros comerciais, incluindo Portugal”.
Para os economistas do Fórum, as elevadas taxas de juro da dívida emitida por Paris poderão gerar uma crise de dívida que transborde aquele país, sendo possível que chegue a Lisboa.
Por outro lado, a taxa de câmbio do euro, que se tem depreciado, pode acabar por contrariar os efeitos recessivos desta situação, nota o Fórum.
O Banco Carregosa também salientou, numa análise, que França se destaca cada vez mais pela negativa no mercado da dívida soberana da Zona Euro.
“Apesar do rating A+ atribuído pela Fitch, idêntico ao de Portugal, as obrigações do tesouro francês a 10 anos oferecem um rendimento de 5%, o mais elevado desde julho de 2002, contra 3,95% da dívida portuguesa”, sendo que França paga mais do que Itália e Grécia.
Em causa está a trajetória da dívida pública, num contexto de défices orçamentais superiores a 5% e fraco crescimento económico.
Já Portugal “segue o caminho contrário, com o rácio da dívida em queda e contas públicas mais equilibradas, o que explica a yield inferior à sugerida pelo seu rating“.
No entanto, sendo França a segunda maior economia da Zona Euro, a persistência desta deterioração das suas contas públicas representa um “risco cada vez maior para toda a União Europeia”, alertam.
A Oxford Economics também avisa, numa análise, que a crise orçamental da França pode piorar antes de melhorar. Os spreads podem subir acima do pico de 200 pontos-base previsto no cenário-base antes da eleição presidencial de abril, sem que isso desencadeie uma crise de dívida, acrescenta.
Segundo esta análise, riscos que poderiam desencadear um novo aumento nos spreads incluem protestos prolongados de grande escala, a queda do Governo devido a impasses orçamentais, a redução da diferença nas sondagens entre Jean-Luc Mélenchon e Marine Le Pen numa eventual segunda volta, além de dúvidas persistentes sobre a credibilidade orçamental do partido de Le Pen, o Rassemblement National (RN).
Macron não pode concorrer a um terceiro mandato consecutivo em 2027, e a líder de extrema-direita Marine Le Pen lidera as sondagens antes da primeira volta da eleição presidencial, em 18 de abril. A segunda volta está marcada para 02 de maio.
Os organizadores da paralisação e mobilização de hoje incluem sindicatos, associações estudantis e os “coletes amarelos”, que esperam reunir centenas de milhares de pessoas em todo o país.
A jornada de greve e mobilização nacional foi marcada em protesto contra o aumento do custo de vida e em defesa da educação e da saúde públicas.