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Manifestamente errados

No conjunto da União Europeia, todos os 11 antigos países comunistas estão acima de Portugal na percentagem de habitação própria.

Margarida Bentes Penedo
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Terça-feira, 3 de Novembro, Assembleia Municipal de Lisboa. Outra vez as manifestações “pelo direito à habitação”. Do alto daquela proverbial prudência e rigor nas proporções, o PS referiu-se à “pandemia habitacional” – mais um fenómeno português que, a exemplo de Guterres, atravessou fronteiras, atormentou continentes e o mundo. Tomemos-lhe as medidas exactas: 73,4 por cento dos portugueses vive em casa própria; 51 por cento vive em moradias – dados do Eurostat relativos a 2024. Estamos folgadamente acima da média europeia para habitação própria, situada nos 68,4 por cento. A quem queira ser levado a sério em matéria de governação, convém descobrir a diferença entre a gravidade da crise e a dimensão da crise, procurando identificar a população afectada. Há nestes números casas onde vive mais gente do que devia; e há também famílias que se mantêm juntas contra a sua vontade, porque não conseguem pagar o luxo de ir cada um para seu lado.

Dos 27 países da União Europeia, Portugal classifica-se em 14.º lugar. Quem nos ultrapassa? A Roménia, em primeiro lugar, com 94,3 por cento; a Eslováquia, com 93,1 por cento; a Hungria, com 91,6 por cento; a Croácia, com 91 por cento. Dos treze países à nossa frente, apenas a Itália (com 75,9 por cento) e a Espanha (73,7 por cento) não conheceram a cara do comunismo. No conjunto da UE, todos os 11 antigos países comunistas estão acima de Portugal na percentagem de habitação própria. Coincidência? Nada disso.

Controlo estatal, restrições à propriedade privada, eis o produto típico dos regimes comunistas. Decisões centralizadas, toda a população dependente. Com a queda destes regimes, no início dos anos 1990, deu-se a natural reacção epidérmica: fartos de suportar políticas comunistas, estes cidadãos tornaram-se proprietários. Muitas das casas onde hoje vivem foram-lhes vendidas pelo próprio Estado, já devidamente “corrompido pelo capitalismo”, em condições particularmente favoráveis. As taxas actuais de habitação própria mostram a consequência lógica de décadas a fio de colectivização, de padronização das condições de vida e de supressão da autonomia individual. Levantam suspeitas quanto à disposição desta gente para regressar a semelhante organização económica. Quem conheceu em directo os modelos comunistas não fica excessivamente receptivo ao regresso daquela abominação.

Em Portugal não chegou a haver comunismo, apesar da violência dos primeiros esforços, da suavidade manhosa dos esforços seguintes – que instalaram o comunismo nas nossas instituições – e das boas graças do comunismo no coração dos nossos governantes. O que hoje temos é um desequilíbrio perfeito entre a oferta e a procura, cuidadosamente agravado durante quase uma década de governos socialistas, boa parte deles suportados pela extrema-esquerda. Esses sábios da irresponsabilidade abriram as fronteiras a mais de um milhão de imigrantes e empenharam-se em erguer todos os obstáculos estatais à construção de casas novas. Os manifestantes exigem mais habitação pública, mais intervenção pública e mais limitações à propriedade privada. Os partidos da extrema-esquerda, com a anuência do PS, continuam a apresentar essas políticas como soluções. Aparentemente, já quase ninguém, nem – com a necessária firmeza – o melancólico governo do PSD, questiona a eficácia das propostas activistas. Uma coisa é ter comunistas profissionais acampados no centro da cidade; pior ainda é tomá-los por interlocutores: eles não representam o país nem esta espécie de comuna deve ser reconhecida como o seu porta-voz.