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Brasil, a ideologia está morta

Se a ideologia continua a orientar os discursos, não acho certo que determine as políticas.

Miguel Vargas
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A política brasileira tornou-se uma batalha entre dois campos que se apresentam como incompatíveis. De um lado, Lula, o histórico dirigente do PT e da esquerda, defensor da redistribuição de rendimento e da intervenção do Estado. Do outro, Flávio Bolsonaro, herdeiro (literalmente) político do bolsonarismo, candidato do Partido Liberal e representante de uma direita que promete menos impostos, menos burocracia e mais liberdade económica.

Lula venceu Flávio na segunda volta das presidenciais, com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21%. A questão que esta eleição deixa e que vale a pena analisar sendo português não é quem ganhou, mas até que ponto os candidatos políticos representam realmente aquilo que dizem defender.

Se a ideologia continua a orientar os discursos, não acho certo que determine as políticas.

Flávio Bolsonaro concorreu pelo Partido Liberal (PL), um nome que evoca uma tradição de liberdade económica e limitação do poder do Estado, mesmo tendo em atenção que a política é geográfica e não basta ter o mesmo nome para ser igual ao que entendemos na Europa. Todavia, durante a campanha, apresentou pelo menos uma proposta difícil de conciliar com a ideia de um Estado afastado das decisões económicas, a de comprar dívidas de particulares e empresas a bancos privados, suspender temporariamente os pagamentos, controlar taxas de juro e transferir os créditos para a Caixa Económica Federal.

A proposta previa uma carência de seis meses para particulares e de um ano para empresas, seguida de um refinanciamento em condições mais favoráveis. O detalhe essencial é que a medida foi anunciada nos debates, mas não constava do programa formal entregue à autoridade eleitoral.

A intenção pode ser socialmente compreensível pois o endividamento das famílias brasileiras é um problema real e estrutural, porém, a questão económica é inevitável. Quem pagaria a diferença entre o valor das dívidas, o preço pelo qual os bancos aceitariam vendê-las e as condições mais favoráveis oferecidas aos devedores? Que incentivo criaria para quem paga pontualmente os seus empréstimos?

Se o Estado comprar créditos com grandes descontos, a operação poderá ter uma lógica financeira. Se pagar demasiado, poderá transferir para os contribuintes riscos que pertenciam aos bancos e o calote ser incontrolável. Por sua vez, se os cidadãos esperarem que futuras dívidas também sejam congeladas, poderá incentivar-se o incumprimento. Não é preciso ser liberal para reconhecer estes riscos mas Flávio decidiu ignora-los.

A contradição está em apresentar-se como defensor da liberdade económica e, simultaneamente, propor uma intervenção directa do Estado no mercado de crédito, com a compra de activos privados e a suspensão das cobranças, apenas porque poderia conferir ganho de votos. Uma medida destas não é automaticamente de esquerda, mas certamente não é liberal (ou sequer de direita).

Lula, por sua vez, representa uma tradição política diferente. O seu programa defende o investimento público, a protecção social, uma tributação mais progressiva e um papel activo do Estado na economia.

No mundo real, a governação obriga-o a negociar com o Congresso, com os mercados financeiros e com os interesses económicos que a sua retórica política frequentemente apresenta como adversários e vilões. O resultado é uma mistura de ambição redistributiva, compromissos orçamentais e pragmatismo político.

A moderação forçada não prova que Lula tenha deixado de ser de esquerda, mas prova que a distância entre um programa eleitoral e a governação efectiva pode ser enorme.

Uma questão basilar para mim é saber se os eleitores avaliam estas concessões com o mesmo rigor que aplicam ao adversário. Se um político de direita intervém na economia, denuncia-se a incoerência com o liberalismo. Se um político de esquerda faz compromissos com o sistema financeiro ou com forças políticas do centro, a explicação pode passar a ser a inevitabilidade da governação. Ambas as explicações podem ser válidas, mas existe um problema quando os princípios só são exigidos ao campo oposto.

Aplico a mesma lógica aos casos judiciais que marcaram a política brasileira.

Lula foi condenado em processos da Operação Lava Jato, mas as condenações mais conhecidas foram posteriormente anuladas. O Supremo Tribunal Federal considerou incompetente o tribunal de Curitiba para julgar aqueles processos e confirmou a parcialidade do então juiz Sérgio Moro no caso do triplex do Guarujá.

Bolsonaro também tem um caso controverso no seu percurso, a investigação conhecida como “rachadinha”, relacionada com alegados desvios de salários de antigos assessores quando era deputado estadual. As provas recolhidas foram invalidadas pelos tribunais e a denúncia criminal foi rejeitada. Em 2025, uma nova tentativa de retomar diligências foi igualmente travada por decisão judicial. O caso não terminou numa condenação de Flávio mas deixou questões por esclarecer.

A incoerência política aparece quando se exige rigor absoluto para os casos do adversário e se considera encerrada qualquer discussão quando as decisões favorecem o próprio campo. A justiça não pode ser um princípio apenas quando condena quem não gostamos.

Talvez estejamos perante a morte da ideologia política. A esquerda e a direita continuam a apresentar diferenças importantes na tributação, nos serviços públicos, nos direitos laborais, na regulação e na distribuição do rendimento, mas os rótulos deixaram de ser uma garantia de coerência.

Um candidato da direita pode defender uma intervenção estatal de grande dimensão enquanto um candidato da esquerda pode moderar as suas promessas e negociar com os interesses que critica. Ambos podem contar com apoiantes dispostos a ignorar evidências e a relativizar  contradições.

A eleição brasileira mostra que a política não se resume a programas económicos. Numa eleição conta a identidade, a memória, o receio do adversário e a confiança pessoal. Para muitos eleitores, impedir a vitória do outro campo pode tornar-se mais importante do que exigir coerência ao seu próprio candidato.

É por isso que a pergunta não deve ser apenas se Lula é verdadeiramente de esquerda ou se Flávio Bolsonaro é verdadeiramente liberal mas sim se os eleitores estão dispostos a avaliar os seus líderes pelos mesmos critérios, independentemente da cor partidária.

Quando a ideologia serve para justificar tudo aquilo que o nosso lado faz e condenar tudo aquilo que faz o adversário, deixa de ser um conjunto de princípios e passa a ser apenas uma identidade.

Seria cómodo atribuir toda a responsabilidade aos políticos, mas a persistência destas contradições também revela algo sobre a forma como os eleitores se relacionam com o poder, pois se um político promete princípios para conquistar o poder, mas os abandona quando deixam de lhe ser convenientes, o que está o eleitor realmente a escolher? Um ideologia ou apenas um líder?