Existe um paradoxo nos negócios internacionais: as vantagens competitivas das empresas que dominam qualquer indústria global costumam estar obstinadamente vinculadas ao país de origem e às características do seu ambiente competitivo. A concorrência local é o melhor estímulo para a inovação global. Se, além disso, a procura local e a configuração das suas atividades anteciparem as tendências futuras, é muito provável que as empresas se convertam em líderes mundiais, para além de líderes nos seus mercados de origem.
Tomemos uma perspetiva histórica da indústria automóvel como exemplo. Nos anos 70 dominaram os carros americanos: amplos, grandes e confortáveis para longas deslocações. Ideais para as grandes distâncias, com clientes que priorizavam os motores grandes e potentes, sem se preocuparem com o custo do combustível. Continuam a dominar o seu mercado interno, mas não encaixam nas tendências futuras. A concorrência nos Estados Unidos era feroz, com novos operadores, mas foi-se consolidando em redor de três grandes grupos — General Motors, Ford e Chrysler — com múltiplas marcas e produtos. Segundo dados agregados da Organisation Internationale des Constructeurs d’Automobiles, produziam 13 milhões de carros, face aos 5 milhões de japoneses e 3 milhões de europeus.
Dez anos mais tarde, os concorrentes japoneses desenvolveram carros com um perfil diferente, aperfeiçoando processos como o just-in-time, ajustando o espaço interior e reduzindo a dimensão exterior dos carros num mercado onde os clientes tinham maiores restrições de espaço urbano. Trabalhavam numa rede de colaboração com empresas próximas, com as quais foram criando um ecossistema muito eficiente. Com menor consumo de combustível como resposta às crises do petróleo do início dos anos 70. Com estas características, lideraram o mercado de grande consumo de carros em todo o mundo, seguidos anos depois pelos fabricantes coreanos, que mostravam características semelhantes. O seu mercado local previu bastante bem as necessidades futuras e continuam a ser líderes mundiais. A concorrência no Japão era feroz com a Toyota, Honda, Nissan ou Mitsubishi, entre outras. Os carros japoneses igualaram a produção americana em apenas uma década.
Em 2020, os fabricantes alemães superaram em mais de 50% a produção americana, que continua estagnada no mesmo nível que tinha 20 anos antes, enquanto os japoneses já representavam 2,5 vezes a produção americana. Os fabricantes alemães desenvolveram carros com um perfil diferenciado, com motores potentes, mas eficientes e com uma fiabilidade e segurança extraordinárias. É o único país do mundo que permite (de forma legal e oficial) circular sem limite de velocidade em certos troços das suas autoestradas, numa infraestrutura magnífica para aquela época. Trabalhavam com fornecedores especializados líderes nos seus nichos, aproximando-se mais de um perfil de montador, ao ponto de grande parte do esforço de inovação tecnológica ser externalizado para os seus fornecedores principais. A concorrência na Alemanha era feroz e vai-se consolidando em redor de três grandes grupos — Volkswagen, Daimler-Benz e BMW — com múltiplas marcas e produtos. O seu mercado local previu bem as tendências futuras no nicho de procura global de carros de alta qualidade e dos mercados mais desenvolvidos e exigentes. Continuam a ser líderes neste segmento.
E no mesmo ano de 2020, os fabricantes chineses produziam a mesma quantidade de carros que os Estados Unidos, embora ainda representassem 40% da produção japonesa e 50% menos que os alemães. Os fabricantes chineses emergem como a grande potência nos carros elétricos. Aproveitaram uma base industrial que desenvolveram e otimizaram, incorporando o conhecimento e a experiência dos produtores estrangeiros aos quais a administração chinesa exigiu, na altura, ter um parceiro local em Joint Ventures para produzir e vender localmente. Competiam num mercado enorme, com problemas de congestionamento e poluição, que necessitava de soluções inovadoras. Surge assim um novo modelo de cadeia de abastecimento verticalmente integrado que agiliza os processos, característica partilhada com a Tesla nos Estados Unidos. A concorrência na China é feroz, com quatro fabricantes a dominar o mercado — BYD, Geely, Chery e Changan —, embora existissem mais de 100 marcas em 2025. Um mercado que assistirá provavelmente a um processo de consolidação quando se extinguirem os enormes subsídios concedidos pela Administração Chinesa.
Neste contexto, olhando para o futuro, a pergunta que fica no ar é: qual destes mercados locais prevejo melhor a procura futura de carros? A evidência empírica histórica diz-nos que o melhor a longo prazo é deixar o mercado falar, com serenidade e paciência. Com certeza melhor do que impor uma ideologia de qualquer tipo.