O cuidador informal define-se como a pessoa que presta cuidados a alguém em situação de dependência, sem qualquer tipo de remuneração ou contrapartida financeira. Em Portugal, de acordo com os dados (de 2026) divulgados pelo Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, existem mais de 19 mil cuidadores informais. Pertencem, regra geral, ao círculo de proximidade de quem é cuidado, podendo ser filhos que acompanham os pais, pais que se dedicam aos filhos, cônjuges, bem como outros familiares ou amigos. É expressivo o número de adultos mais velhos que assumem o papel de cuidadores dos seus próprios pares, sejam maridos, mulheres ou irmãos, sendo que a média de idade dos cuidadores informais se situa na ordem dos 60 anos. Isto demonstra que esta realidade abrange transversalmente todas as faixas etárias, da infância à longevidade.
A dedicação contínua acarreta, no entanto, um profundo desgaste, com repercussões significativas na saúde física e mental. É frequente chegarem às consultas de Psicologia cuidadores informais em situação de exaustão, com os seus recursos físicos e emocionais esgotados e, em muitos casos, já com sintomas de depressão.
Apesar da consagração legal do Estatuto do Cuidador Informal, o direito ao descanso do cuidador continua, para muitos, a ser uma miragem. Este período de pausa é imprescindível para o autocuidado, permitindo que o cuidador zele pela sua própria saúde e consiga realizar tarefas do dia a dia, como ir à farmácia, a uma consulta médica ou simplesmente dedicar tempo a si próprio.
Dados divulgados pela Ordem dos Psicólogos Portugueses indicam que os cuidadores informais apresentam um risco 51% maior de depressão e 38% maior de problemas de ansiedade. Na ausência de suporte social, encontram-se também em elevado risco de burnout.
Estes dados refletem uma realidade em que o tempo do cuidador é quase inteiramente dedicado à prestação de cuidados, alimentando um ciclo de exaustão. Aliás, 88% dos cuidadores referem já se ter sentido num estado de exaustão emocional.
É muito comum surgirem sentimentos como a culpa, a dependência emocional, o medo e a sensação constante de que “nunca se faz o suficiente”. Muitos cuidadores chegam ao limite das suas forças, abdicando da própria vida até à exaustão física e emocional. Este sentimento de culpa é particularmente dilacerante quando se trata de pais que cuidam dos filhos, num contexto de dependência que pode surgir em qualquer etapa da vida. A dificuldade em reconhecer que também têm direito à sua individualidade e a uma vida para além do cuidar pode gerar uma sobrecarga psicológica avassaladora.
É urgente que a sociedade e as redes de apoio social reconheçam o valor inestimável dos cuidadores, assegurando-lhes o direito a viver para além do cuidar. Para mitigar este cenário, é fundamental implementar estratégias de autocuidado, regulação emocional, apoio psicológico e redes de entreajuda familiar, complementadas com a manutenção de uma alimentação equilibrada, a prática de exercício físico e o usufruto de tempos livres e atividades prazerosas.
Preservar as relações sociais e garantir o descanso não é um ato de egoísmo, mas sim uma necessidade fundamental. Afinal, paralelamente ao dever e à vontade de cuidar do outro, prevalece a obrigação inalienável de cuidar de quem cuida.