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(A) :: Na nova guerra dos sexos não há… sexo!

Na nova guerra dos sexos não há… sexo!

O caso Sally Rooney é um checkup nas patologias contemporâneas. O diagnóstico? Estamos completamente tramados.

Paulo Nogueira
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Leitores, dão-me licença de uma confissão íntima? (Sim, é uma pergunta retórica.) Sou maluquinho pela literatura (paixão seguramente não correspondida), e ganho a vida a escrever livros (14, e com mais dois no forninho), como professor de ficção e crítico literário. Pena que hoje as novidades da literatura causam-me bocejos. Os malditos homens brancos mortos? Bruxos! Como eles (e as senhoras suas colegas) entregaram a alma ao Criador, agora só se trocassem a secretária por uma mesa pé-de-galo.

Porque raio a literatura de hoje finge que continuamos em 1950? No Ocidente, o patriarcalismo já lá vai. Já em 1929, Serguei Diaghilev, o produtor dos revolucionários Ballets Russes, explicou: “Tchaikovski pensou em matar-se com medo de ser desmascarado como homossexual. Agora, se um artista não for gay, o melhor é meter desde já uma bala na cabeça”. Denunciar a masculinidade tóxica não é mais copernicano – só mais do mesmo. Casais gays  também já degustam alegremente os deleites do divórcio, das famílias desfeitas, das gritarias sobre de quem é vez de deitar o lixo lá fora, e se custa tanto levantar a tampa da sanita ao fazer xixi. Ótimo, pois não era esse o sonho de consumo do arco-íris?  Porém a literatura atual é tão maçadora que subscrevo Benjamin Disraeli, primeiro-ministro britânico e autor de 16 romances: “Quando quero ler um livro, escrevo um”. Daí os meus dois títulos no forninho.

Acabo de exercitar a vitimização, essa estranha forma de vida contemporânea. Se foi inebriante? Nem por isso. Os protagonistas da ficção atual tão-pouco querem sair da zona de conforto e aprender duras lições da vida (como os seus ancestrais clássicos), mas “compartilhar” tsunamis de traumas – chorar tanto que seus olhos degenerem em rios navegáveis, para que neles pouse um hidroavião apinhado de likes. OK, nem todos podem ser Sylvia Plath, no seu poema “Lady Lazarus”: “Ergo-me com o meu cabelo ruivo/E devoro homens como o ar!”. Ou o célebre verso de “Daddy”: “Toda mulher adora um fascista”. É bem mais fácil ser Sally Rooney e rosnar: todos os homens são fascistas!

“Sally quem?” O NY Times ungiu-a “a grande ficcionista millennial”. Aos 35 anos, a Rooney tudo causa mais vergonha do que prazer (sinto o mesmo pela prosa dela), até prémios e vendas astronómicas. Como marxista convicta, vender constrange Rooney: “Devia dizer: se não consegue pagar, roube o meu livro”. Pobrezinha: a editora Faber promove seus títulos com ecobags, velas aromáticas, bonés. Em 2024, a Faber organizou 140 eventos de Rooney nos EUA, e brindes como o saco sustentável Baggu.

Em 2025, o governo britânico classificou o Palestine Action (PA) como grupo terrorista. Rooney decidiu doar parte dos seus direitos autorais ao PA. Na lei britânica, financiar terroristas é crime. Para não ser processada por cumplicidade, a Faber agora retirou de circulação os livros de Rooney – com o aquiescência da autora, que afivelou a auréola de mártir. O PA comete atentados contra instituições que fazem negócios com Israel. Em 2022, atacaram a fábrica Thales em Glasgow, causando danos superiores a £1 milhão. Em 2024, foi a vez da Elbit Systems: drones e computadores escavacados, a coluna de um segurança partida com uma marreta. Em 2025, vandalizaram dois petroleiros  Voyager, com prejuízos de £7 milhões.

Rooney, irlandesa a viver na Irlanda, não foi amordaçada por suas opiniões políticas, nem é um Quixote da liberdade de expressão. Apoia um movimento (BDS) que defende a censura às instituições acadêmicas e culturais israelitas, e não autoriza traduções das suas obras para o hebraico (bom, os judeus não podem ter azar em tudo).

Cem VIP intelectuais (como a Nobel francesa Annie Ernaux) publicaram uma carta aberta a acusar o Governo britânico de censura. Mas a retirada dos títulos de Rooney pela sua própria editora nada tem a ver com o conteúdo deles. Bem ao contrário de “Os Versos Satânicos”, de Salman Rushdie, cujo caso foi evocado na carta – mas que não a assinou. Em 1998 Rushdie gramou com uma fatwa (sentença de morte) do aiatolá Khomeini, tão predatória que 34 anos depois, em NY, foi esfaqueado 15 vezes, perdeu um olho, o uso de uma mão e teve o fígado perfurado. Em 2006 Rushdie assinou, sim, um manifesto diferente: “Depois de superarmos o fascismo, o nazismo e o estalinismo, o mundo enfrenta uma nova ameaça totalitária: o islamismo”.

Rooney podia fazer qualquer outra coisa –  vender fish and chips na rua -, que continuava impedida de financiar o terrorismo. Ou será que os signatários da carta são favoráveis ao terror como o do grupo neonazi Sonnenkrieg Division, banido pela mesmíssima lei? Como notou James Joyce, o conterrâneo de Rooney: “A Irlanda orgulha-se de ser o único país que nunca perseguiu os judeus – porque nunca deixou-os entrar”. Este mês estava agendado em Dublin um fórum sobre o antissemitismo com os 27 membros da União Europeia. Mas o Hotel Herbert Park cancelou as reservas dos 70 quartos – só faltou pendurarem na entrada o cartaz “Judenfrei”. Em fevereiro, a Sala de Concertos Nacional da Irlanda desmarcou a leitura dramatizada da peça “7 de Outubro”, que narra nas palavras delas as experiências de 14 mulheres sobreviventes do pogrom do Hamas. Em agosto, a seleção irlandesa de futebol disputou duas partidas da Liga das Nações contra Israel – os jogadores irlandeses  recusaram-se a cumprimentar os israelitas e curvaram a cabeça no hino nacional do adversário. Na Irlanda existem 500 “zonas livres de apartheid”, que excluem “sionistas” (ou seja, os judeus que se opõem à aniquilação de Israel).

Em abril, a New Stateman publicou “Meet the Angry Woman”, de Emily Lawford, sobre a onda de jovens radicalizadas. Uma  entrevistada: “Deixei minha vida pessoal e os homens pela causa palestiniana”. Será que os palestinianos pediram tal castidade? É que a “Palestina” não é a Palestina, mas um fetiche ideológico. Greta Thunberg parou de comer em criança por causa da ansiedade climática. Rooney gemeu que apoiar Gaza é “afastar o desespero”. No século XX, as ocidentais eram mais conservadoras do que os homens – hoje é o inverso. Se floresceu a “manosfera”(Douglas Wilson propôs a revogação da 19º Emenda dos EUA, que concedeu o direito de voto às mulheres), também brotou a “femosfera” e suas Passionárias primaveris. O foco do feminismo mudou das mulheres héteros insatisfeitas com os papéis de gênero. Reina uma nova sororidade, o pertencimento queer, que prioriza questões ideológicas que vão desde quem é ou não mulher (pessoas não-binárias) até à existência de Israel. Bem, como diz JK Rowling, se um homem pode ser uma mulher, então as mulheres não existem.

Uma pesquisa revela que britânicas de 18 a 30 anos são de longe o grupo demográfico mais progressista do UK. E mais pessimistas quanto ao futuro, e com uma visão muito menos positiva dos homens jovens (só 35%) do que a deles sobre elas (72%). E as mais privilegiadas são as mais niilistas. Mais mulheres brancas consideram o UK racista do que as não brancas.

Pimba: namoros e casamentos em colapso – epidemia de solidão, ansiedade e queda a pique da natalidade. No UK de hoje, 33% dos jovens entre 18 e 29 anos nunca tiveram um relacionamento. A Federação Espanhola de Futebol vai financiar às jogadoras da seleção feminina tratamentos de reprodução assistida, como congelamento de óvulos e fertilização in vitro. Na Austrália e Nova Zelândia, em 2025 as mulheres congelaram seus óvulos em taxas recordes – o dobro que em 2021. Porque? “Não há homens”. Provavelmente há, mas são verdes – pois nem eles nem elas podem amadurecer em relacionamentos mútuos.

As relações próximas entre jovens do sexo oposto – romântico, de amizade ou familiar – é hoje muito menos comum. A tempestade perfeita: confinamento da Covid + redes sociais + ideologia de género (os homens são tóxicos, e as mulheres irascíveis não valem o esforço). A geração que cresceu com smartphones (2007) socializa menos, faz menos sexo, bebe menos e tem menos amigos. Na era da conectividade, tomam mais refeições sozinhos do que qualquer geração anterior. Se és uma jovem que nunca conheceu ou amou um rapaz da mesma idade (ou vice-versa), é fácil vê-los como estranhos e hostis – temos duas narrativas rivais online e na vida real, com homens e mulheres a habitar universos morais completamente diferentes.

Para  Louise Perry, talvez até seja a crise de relações românticas (o “heteropessimismo”) que inflama a rancorosa polarização mundial, com o fim do centro político. Daí o rastilho de pólvora dos tumultos da geração Z pela Europa (nativos ou não), a chamada “TikTokização” dos protestos em  tribos organizadas algoritmicamente e uma sensação de que “a minha crise é mais importante que a tua”.

O ativismo não atesta genialidade, nem sequer talento. Com um léxico de infantário e a profundidade de um dedal, a prosa de Rooney é abaixo de cão. Ela “conta” (explica) em vez de “mostrar”- nada de cenas vívidas que permitam aos leitores imergirem nelas, acessarem mentes diferentes das suas e tirarem as suas próprias conclusões. Em “Intermezzo”, uma personagem cola cartazes assim: “O sexismo está em todo o lado. As nossas saias são curtas, mas as nossas ideias. Revolução queer! Tens um pénis, mas somos as heroínas”. Em “Pessoas Normais” uma miúda queixa-se de uma injustiça: “Tem a ver com o capitalismo”. A interlocutora exclama: “Como tudo!”.

Em “Conversas Entre Amigos”, a protagonista Frances professa-se comunista, considera a masculinidade “pessoalmente opressiva” e “os polícias, racistas”. Branca, gostava de “negar a minha etnia”. Dorme com o marido de Melissa, mas só como parte de um edificante pacto poliamor. Envolve-se com Nick, um ator marxista (pois Rooney quer que gostemos dele, apesar da criatura ser, urgh, homem). Frances diz que ter uma casa de férias devia ser ilegal. Nick pede-lhe perdão por… possuir um teto, e o facto de ele lá morar não é desculpa: “Reconheço que é perturbador”. O desgraçado admite que o seu pai é (pausa para um esgar de asco)… de direita. Incrédula, Frances balbucia: “Mas ele é mesmo de direita ou está só a gozar?” “Não, ele é realmente capitalista, odeia as mulheres e os pobres”. Ufa, que alívio: por um segundo achei que fosse um estereótipo.

Ao pé do panfletarismo de Rooney, até o Realismo Socialista de Estaline parece arte pela arte. Nada de luzes e sombras ou pontos cegos. Doris Lessing publicou bons romances com protagonistas vermelhíssimas, mas nas histórias de Rooney uma pessoa decente é sempre, escarrada e cuspida, como Sally Rooney e os seus leitores julgam que são. Não há risco de imprevisibilidade – apenas o piloto automático das cartas marcadas: tanto os heróis como os vilões são caricaturas.

Dantes os leitores podiam simpatizar com um assassino (“Crime e Castigo”) ou com uma adúltera (“Anna Karenina”). Afinal, é o erro que nos humaniza. Agora só há paladinos que são fantoches dos autores e do seu narcisismo moral. Mas um bom escritor é o contrário: conta uma história em que o bem e o mal são parte dela e de todos os personagens.

Hoje as ocidentais leem, escrevem e publicam mais livros do que eles. E estão consternadas porque os homens preferem ler as instruções de um saco de vómito no avião do que romances femininos. É que os novos temas não variam. A heroína percebe que seu casamento é uma masmorra patriarcal e pisga-se. Abre uma pousada num monte alentejano (com sessões de mindfulness à borla). Com que capital? Ah, uma tia distante teve a bondade de esticar o pernil e lhe deixar uma fortuna porque, quando a protagonista era criança, vislumbrou nela uma aura mágica. Ou a protagonista volta à cidade a qual jurou nunca mais pisar, e conhece um trolha rude e atormentado, mas secretamente podre de rico, que escolheu o trabalho braçal porque o dinheiro lhe trouxe tanta felicidade como a CR7 depois de encontrar Jesus.

Segundo a National Endowment for the Arts, só 25,7% dos homens americanos leram um romance em 2025. Nas editoras, as mulheres são 78% dos executivos. Aposto o pescoço que fervilham por aí boas autoras inéditas, que retratam a  individualidade feminina ímpar (vive la différence!), em vez de mantras de grupos identitários – e por isso com tanta dificuldade de publicar como os rapazes brancos cis. É a tal da diversidade?

Nenhum britânico branco com menos de 40 anos foi indicado ao Booker Prize desde 2011. Nenhum americano branco nascido depois de 1984 publicou contos na New Yorker. Em 2025, a mais importante exposição de arte dos EUA, a Bienal do museu Whitney, em NY,  apresentou 45 artistas millennials – nenhum era branco.

Um romance apetitoso é uma visão prismática do que é o mundo, e não apenas do que o autor acha que a sociedade tem que ser. Até ontem era irrelevante os grandes personagens serem eles ou elas – o que valia era a complexidade humana. Grushenka (“Os Irmãos Karamazov”, Dostoievsky), Molly Bloom (“Ulisses”, James Joyce), Maria Eduarda (“Os Maias”, Eça de Queiroz), Catherine Earnshaw (“O Monte dos Vendavais”, Emily Bronte), Elizabeth Bennet (“Orgulho e Preconceito”, Jane Austen), etc. Não eram obrigatoriamente “mulheres empoderadas”. Algumas eram egoístas, temperamentais, audazes, brilhantes, cruéis, afetuosas. Não se reduziam a tutoriais para leitores com próstatas.

A Universidade Cornell recrutou 3 mil leitores e alterou aleatoriamente os pronomes em histórias idênticas. A pesquisa mostrou que os homens tinham a mesma hipótese de continuar a ler quando o protagonista era masculino ou feminino. Mas as editoras estão perplexas porque os marmanjos não salivam por serem descritos como feminicidas falocratas patéticos.

A literatura é melhor hoje? Os filmes? As séries? As peças? O meio acadêmico é mais respeitado (Jason Arday)? Na Feira do Livro de Londres houve um painel: “Para onde foram todos os leitores homens?” 13 dos 14 participantes do painel eram mulheres. O 14º era um homem transgénero com sentimentos complexos sobre o seu pai. O veredito: os homens não possuem o vocabulário emocional para a ficção contemporânea. Não passou pela cabeça de ninguém atravessar a rua, entrar na primeira tasca e perguntar a opinião dos gajos. Claro que ainda vão a tempo. Mas, por amor de Deus, não durante um jogo do Benfica, do Porto, do Sporting… Era só o que faltava.