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Morreu Tinto Brass, lenda do cinema erótico e transgressivo italiano. Tinha 93 anos

Discípulo de Rossellini, o cineasta começou no cinema experimental mas ascendeu ao estrelato quando abraçou o erotismo. Foi homenageado este ano no Festival de Veneza.

António Moura dos Santos
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Morreu Tinto Brass, aos 93 anos, na sua casa, em Roma, pelas 10h30 [9h30 em Lisboa] desta quarta-feira. O anúncio foi feito pela sua família, avança a agência italiana ANSA.

Inconformista, controverso e corajoso, o realizador e argumentista foi autor de uma das mais singulares filmografias do panorama italiano: primeiro no cinema avant-garde, chegando a ser apelidado como “o Antonioni dos anos 70”; depois, no filme erótico, ficando conhecido aos olhos do mundo como o homem que realizou Calígula, um dos mais polémicos filmes da história e que ele viria a renegar pela adição de conteúdo pornográfico contra a sua vontade.

Nascido a 26 de março de 1933 em Milão, Giovanni “Tinto” Brass cresceu em Veneza e desde então se considerou para sempre veneziano. A alcunha pela qual veio a ser retratado, um diminutivo de Tintoretto, foi dada pelo avô que, tal como o mestre do século XVI, era um pintor.

Depois de se formar em Direito, Brass mudou-se para Paris na década de 50, onde trabalhou como arquivista na Cinemateca Francesa. Foi também na capital francesa que teve a primeira experiência de cinematografia, ao ser assistente de realização de Alberto Cavalcanti e Joris Ivens.

Ao regressar a Itália, terminou a sua formação em 1959, tendo como tutor um dos maiores cineastas italianos de sempre, Roberto Rossellini. Foi sob a sua tutela que trabalhou nos filmes India: Matri Bhumi e General Della Rovere antes de finalmente se estrear a solo.

Esse arranque ocorreu em 1963 com Chi lavora è perduto (Quem trabalha está perdido), filme político que originalmente se chamava In capo al mondo (No fim do mundo) mas que a censura italiana obrigou a renomear. Seria a primeira de um sem-número de instâncias em que foi visado pelas autoridades. “Passei quase mais tempo nos tribunais do que atrás das câmaras, 26 dos meus 27 filmes foram censurados, todos exceto La Vacanza em 1971, que ganhou o prémio do júri no Lido”, afirmou, recordado pela ANSA.

Os anos seguintes foram de experimentação, não só técnica como de género cinematográfico: realizou, entre outros filmes, a comédia de ficção científica Il disco volante, o western spaghetti Yankee e a dupla de curtas Tempo Libero e Tempo Lavorativo, encomendada por Umberto Eco para a 13.ª Trienal de Milão.

Seguiu-se uma estada em Londres, que resultou em obras como o giallo Col cuore in gola e as comédias negras L’urlo e Nerosubianco — se o segundo filme venceu o Urso de Ouro em Berlim, o terceiro antecipava um dos seus interesses tardios no seu jogo de palavras, já que o título oficial capitalizava as letras EROS, referência ao deus grego do amor e do sexo.

É nesta fase que surgiu uma das maiores lendas por confirmar da sua carreira: a de que teria sido convidado pela Warner Bros para realizar A Laranja Mecânica, clássico do cinema que acabaria por ser concebido por Stanley Kubrick. As versões dividem-se quanto às razões que o impediram de adaptar o romance de Anthony Burgess, se por conflito de agendas, se por interesse de Brass em fazer outros filmes.

Nos anos 70 atingiu o pico do reconhecimento mas também da infâmia, dependendo de a quem se coloca a pergunta. O início da década viu-o trabalhar duas vezes com o casal de Franco Nero e Vanessa Redgrave, em Dropout e La Vacanza; o segundo venceu o prémio de Melhor Filme Italiano no Festival de Veneza de 1971.

Foi o fim da sua carreira “regular” ou “respeitável”. Em 1976, lança Salon Kitty, um dos precursores dos filmes Nazisploitation, filme de guerra erótico e baseado numa história verídica, sendo ambientado num bordel berlinense transformado pela SS numa central de espionagem. A sua abordagem chamou a atenção de Bob Guccione, produtor e fundador da revista pornográfica Penthouse, que o contactou para realizar um filme, Calígula.

https://www.youtube.com/watch?v=pCw_uur6nAU

Concebido para ser um épico sem filtros para retratar a depravação do imperador romano que lhe dá nome, este filme de 1979 teve guião de Gore Vidal e contou com um elenco de luxo, com nomes como Malcolm McDowell, Peter O’Toole e Helen Mirren. No entanto, não só as filmagens foram atribuladas e marcadas por conflitos, como o processo de edição ditou o afastamento de Brass. Em causa esteve o facto de Guccione ter mandado filmar cenas de sexo explícitas para incluir na pós-produção, alterando completamente o tom do filme.

Tanto Vidal quanto Brass renegaram Calígula, que teve de ser altamente editado para poder ser exibido em vários países e foi mal recebido tanto pela crítica como pelo público. No entanto, não só se tornou um clássico de culto como foi sujeito a várias montagens posteriores. Em 2023, foi lançado Calígula – The Ultimate Cut, nova versão montada pelo produtor Thomas Negovan e que aproveitou muitas horas de gravação nunca utilizadas. No entanto, apesar de ser exibida e elogiada em Cannes, e de merecer a aprovação de Malcolm McDowell, Brass manteve a sua rejeição, considerando que qualquer reedição feita sem o seu controlo criativo direto constituía uma traição à sua obra.

Não obstante a experiência negativa com Calígula, Brass continuou focado no cinema erótico até ao final da sua carreira, patente em obras como La chiave (1983), Paprika (1991), Così fan tutte (1992), Monella (1998), Trasgredire (2000) e Monamour (2005).

“Fiz tantos filmes eróticos porque acreditava que o erotismo é uma chave fundamental para a expressão humana e, acima de tudo, a chave para retratar as mulheres. Era isso que mais me interessava”, afirmou em entrevista ao La Repubblica.

A sua deriva para o cinema erótico resultou em sucesso comercial, mas diminuiu-o aos olhos da crítica e da indústria. Esta só voltaria a abraçá-lo nos últimos anos de vida: primeiro, quando fez 90 anos, o Centro Sperimentale di Cinematografia, de Roma, adquiriu o seu arquivo pessoal, catalogado por Caterina Varzi, advogada e ex-atriz, com quem Brass se casou pela segunda vez em 2017, aos 84 anos (após um casamento de cinquenta anos com Carla Cipriani, falecida em 2006).

Depois veio a derradeira homenagem. A 1 de setembro deste ano, o 83.º Festival de Cinema de Veneza dedicou-lhe a pré-abertura, exibindo na Sala Darsena uma nova versão restaurada em 4K de Col cuore in gola. Brass era para comparecer, mas uma febre repentina reteve-o de viajar, fazendo-se representar por Varzi, que leu a seguinte mensagem: “Não posso estar presente, mas estou convosco, com o coração na boca”. Na mesma ocasião, recebeu o prémio de carreira Pietro Bianchi, atribuído pelos jornalistas de cinema italianos.