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Construir a esperança no cancro da mama com a força da medicina multidisciplinar

Quando uma Unidade da Mama consegue reunir e coordenar todas as competências, o medo transforma-se em esperança. No processo prova-se que as doentes não precisam de caminhar sós.

André Magalhães
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O mês de outubro que agora passou convida-nos, anualmente, a refletir sobre o cancro da mama, uma patologia cuja incidência tem registado um crescimento, com especial impacto em mulheres jovens. Felizmente, o cenário atual traduz-se numa evolução francamente positiva. As taxas de sobrevivência continuam a aumentar, um sucesso que se deve a três pilares fundamentais: o diagnóstico cada vez mais precoce, o desenvolvimento de medicamentos inovadores e o aperfeiçoamento de técnicas cirúrgicas e de radioterapia mais precisas.

Contudo, só com a existência de uma equipa multidisciplinar é que é possível que a articulação de diferentes especialidades e profissionais de saúde – desde o diagnóstico ao acompanhamento a longo prazo – permita salvar vidas e devolver qualidade de vida às sobreviventes. Esta abordagem integrada desenvolve-se em duas frentes essenciais: as reuniões de decisão clínica e o apoio assistencial diário.

Semanalmente, grupos de médicos de diversas especialidades reúnem-se para discutir cada caso individualmente. O grande objetivo destas reuniões é garantir que o plano de tratamento de cada doente cumpre rigorosamente as diretrizes científicas nacionais e internacionais.

Ao partilharem o conhecimento atualizado de cada área, estes profissionais anulam o risco do erro individual, funcionando como um mecanismo seguro de controlo de qualidade. A eficácia deste modelo é inequívoca: um estudo publicado na Escócia, em 2012, demonstrou que a introdução destas reuniões de decisão partilhada reduziu a mortalidade em cerca de 18%.

Atualmente, este método tornou-se a prática corrente e obrigatória nos hospitais. Em muitas unidades de referência, a exigência é tão elevada que se discutem todas as biópsias realizadas na semana anterior, mesmo aquelas que revelam nódulos benignos, assegurando uma avaliação tripartida entre o cirurgião, o patologista e o radiologista.

A outra vertente da multidisciplinaridade acontece no dia a dia do hospital e estende-se muito para lá da cirurgia ou da quimioterapia. O cancro da mama surge, frequentemente, numa fase da vida em que a mulher se encontra no auge da sua atividade familiar e profissional. O impacto do diagnóstico e dos tratamentos exige, por isso, uma rede de suporte abrangente.

A incapacidade temporária para trabalhar pode provocar uma quebra significativa nos rendimentos familiares, tornando o papel da Assistente Social fundamental. Da mesma forma, o impacto psicológico da doença justifica o acompanhamento próximo pela Psicologia ou Psiquiatria para tratar quadros de ansiedade e depressão.

As terapêuticas necessárias trazem frequentemente efeitos indesejáveis. A Ginecologia intervém na saúde íntima (como a secura vaginal), a Nutrição ajuda a controlar o aumento de peso associado às terapêuticas hormonais, e a Reumatologia atua na prevenção e correção da osteoporose, também decorrente desses tratamentos.

Vencida a doença, inicia-se o desafio do regresso à rotina, a gestão do medo de uma recaída e a recuperação física. Se a cirurgia ou a radioterapia comprometerem a mobilidade do braço ou provocarem “inchaço” (linfedema), a Fisiatria é chamada a intervir. Quando o impacto estético afeta a autoestima, a Cirurgia Plástica assume um papel central para restabelecer o bem-estar da mulher.

Quando uma Unidade da Mama consegue reunir todas estas competências de forma coesa e coordenada, o medo transforma-se em esperança. O processo de diagnóstico, tratamento e recuperação torna-se menos traumático, provando que, no combate ao cancro da mama, as doentes não precisam de caminhar sozinhas.