(c) 2023 am|dev

(A) :: O que pensa Borges do genocídio?

O que pensa Borges do genocídio?

Vivemos num tempo em que, num festival literário, as referências a André Ventura para seduzir o estimável público começam a superar largamente as citações de Borges.

Bruno Vieira Amaral
text

Ariana Harwicz é uma escritora argentina que pertence a uma nova geração muito celebrada de autoras latino-americanas e na qual se incluem vozes como as de Valeria Luiselli, Samanta Schweblin, Karina Sainz Borgo, Fernanda Melchor, Selva Almada, Mariana Enriquez, Cristina Rivera Garza e Pilar Quintana. Muitas destas autoras têm tido um amplo reconhecimento internacional, os seus livros têm sido distinguidos com alguns dos prémios literários internacionais mais importantes, estão traduzidas um pouco por todo o mundo e são presença assídua em festivais literários.

Harwicz, que é também ensaísta, viu a edição inglesa do seu romance de estreia Matate, amor chegar aos finalistas do Man Booker International Prize em 2018, que seria ganho pela futura Nobel Han Kang, e ser adaptado para cinema num filme de Hollywood dirigido pela realizadora Lynne Ramsay e com Jennifer Lawrence e Robert Pattinson nos principais papéis. Os seus livros, que tratam sobre desejo feminino, pertença familiar, problemas mentais, maternidade e violência, têm sido elogiados pela crítica que também revela apreço pela qualidade da prosa de Harwicz. Com este currículo literário não espanta que a convidem para festivais, conferências, palestras e residências.

Ou espanta se tivermos em conta um pequeno pormenor biográfico: Ariana Harwicz é judia. E é uma judia cujas posições públicas sobre Israel, o conflito israelo-palestiniano e a existência de um estado judaico não agradam à maioria das pessoas que frequentam festivais literários e não agradam mesmo nada à maioria das pessoas que organizam festivais literários e que são responsáveis por convidar os autores que neles participam. Numa entrevista de 2024 à revista Letras Libres, Harwicz disse: “Impressiona-me ver, na Europa, na Alemanha, em França, em Espanha, nos países nórdicos, artistas a apelarem à Intifada, a dizerem «basta de genocídio em Gaza», a classificarem os israelitas como supremacistas e colonizadores. Encontraram uma forma retórica de odiar os judeus e de exigir a aniquilação de Israel. É uma renovação lexical da Juventude Hitleriana e do nazismo do século XX, mas, a meu ver, ainda mais escandalosa e cúmplice, porque temos a Shoah às nossas costas.”

Mesmo assim, foi convidada para participar este ano no Festival CULTUR-ALH, organizado na Universidade de Granada. Mas, depois da pressão exercida pela Red Universitaria por Palestina de Granada, que considerou inaceitável o facto de a escritora se opor ao boicote cultural a Israel, a organização cancelou a participação de Harwicz a 72 horas do evento (a Universidade manifestou-se contra a exclusão da escritora, sublinhando que a decisão era dos programadores do festival, que tinham autonomia para o fazer). Um grupo de 350 escritores, entre os quais o irlandês John Banville, que cancelou a sua participação no festival, manifestou apoio a Harwicz numa carta aberta. Em resposta, cerca de 500 escritores, incluindo Rivera Garza e Pilar Quintana, apoiaram a organização. Outras sete escritoras, que estavam convidadas para o festival, foram mais longe e defenderam o direito de um festival cultural ou uma instituição académica excluírem quem considerarem que ultrapassou os limites da liberdade de expressão, que Harwicz teria ultrapassado por ser contra o boicote cultural a Israel e por ser uma “negacionista” do genocídio em curso, ou seja, por não partilhar as ideias destes artistas e dos responsáveis das instituições.

Todo este triste caso apresenta uma insofismável vantagem: as opiniões são cristalinas e não permitem interpretações ambíguas. E se alguém ainda tivesse dúvidas, a diretora do Festival de Granada tratou de as esclarecer. Ana Gallego Cuiñas foi uma das convidadas do encontro Dias da Literatura de Lisboa, presidido pelo escritor Alberto Manguel e que decorreu na semana passada na Fundação Calouste Gulbenkian. Na sua intervenção, capciosamente intitulada “Não convidamos livros, mas quem os escreve”, referiu-se ao caso Harwicz e estabeleceu uma preciosa diferença: “Ler um autor, estudar a sua obra, distingui-lo com prémios e convidá-lo para um festival não são atos idênticos” porque “dar a alguém um palco público é uma decisão institucional que concede atenção, prestígio e valor.” E acrescentou, como é típico dos censores eivados de boas intenções, que a decisão de excluir Harwicz foi tomada na defesa dos direitos humanos e em solidariedade com o povo palestiniano. Ou seja, Harwicz, como qualquer outro autor, pode ser lida, a sua obra pode ser estudada e até pode receber prémios, mas quando se trata de convidá-la para um festival literário, a sua obra literária passa para segundo plano e o que importa é o que disse numa entrevista ou publicou nas redes sociais. A verdadeira senha de entrada num festival não são os livros, mas as opiniões do autor, como aliás Ana Gallego Cuiñas deixou candidamente explícito no título da sua intervenção. Os livros podem existir, circular, ser lidos (porque os canceladores são pessoas do bem que amam os livros, muito diferentes dos filisteus que os querem queimar). Os escritores que os escrevem é que têm de se remeter ao silêncio ou, se não o fizerem voluntariamente, ser silenciados.

Mas há algo de terrível nas palavras da diretora do festival. É que ler um livro, estudar uma obra, atribuir um prémio, escrever uma crítica num jornal de grande circulação e convidar para um festival não são atos exatamente idênticos, mas, ao contrário do que ela dá a entender, todos concedem atenção, prestígio e valor. O que Gallego Cuiñas faz, de forma desonesta, é justificar a exclusão de um autor de um festival com um argumento que, a ser usado noutras circunstâncias com a mesma legitimidade, justificaria a exclusão das suas obras da academia e das listas de prémios literários e que fosse boicotado por certos meios de comunicação social ou até, em última análise, pelas editoras. Uma exclusão que nada teria que ver com a qualidade dos seus livros, mas apenas com as suas opiniões políticas, as que desagradam a quem tem o poder de conceder atenção, prestígio e valor. É que, hoje, um festival literário faz parte do sistema de reconhecimento literário, como um prémio ou o estudo de um livro na academia.

Quem já teve o privilégio de participar ou assistir a um festival literário nos últimos quinze anos em Portugal, como é o meu caso e acredito que seja o de dois ou três leitores desta crónica, sabe que há truques infalíveis para conquistar a plateia: contar a história da avó analfabeta, sacar de uma citação de Borges (confesso que recorro regularmente a ambos e geralmente um logo após o outro; e quem nunca explorou a história familiar e simulou familiaridade com Borges que atire a primeira “noite unânime”) e, quando isto não resulta, usar a arma nuclear tática do ataque à “direita”, de preferência com cravos, grândolas e dias inteiros, iniciais e limpos pelo meio. Nada desperta o público da letargia livresca em que alguns escritores, com os seus discursos soporíferos, o mergulham do que uma referência inopinada (quanto mais inopinada maior será o efeito de choque) a Cavaco (tímidos aplausos), Passos Coelho (urros na plateia) ou o Chega (cenas bárbaras de comoção geral). Vivemos num tempo em que, num festival literário, as referências a André Ventura para seduzir o estimável público começam a superar largamente as citações de Borges. E quando lemos as declarações da diretora do festival espanhol que cancelou Ariana Harwicz percebemos a razão: eles convidam autores (os que pensam como eles) e não os livros (que falam, e muito, mas não têm opinião sobre o “genocídio”).