Num novo livro de memórias, Dustin Hoffman revela detalhes sobre os bastidores do filme que catapultou a sua carreira em Hollywood. Quase sessenta anos após protagonizar um dos títulos de referência da obra de Mike Nichols, The Graduate (A Primeira Noite, na versão portuguesa), o ator que completa 90 anos em 2027 recorda o desconforto que sentiu durante a rodagem do filme. Num excerto de Look at Me — publicado a 10 de novembro, por enquanto sem confirmação no mercado português — disponibilizado pela revista The New Yorker, Hoffman relata a “experiência terrível” e as provações a que foi submetido, e que incluíram 27 chapadas e um tímpano furado.
“A Primeira Noite exacerbou todas as minhas inseguranças desde o início“, começa o texto. Na altura em que foi escolhido para interpretar o protagonista do novo filme de Mike Nichols, Hoffman (na altura com 30 anos) começava a alcançar algum sucesso na cena do teatro nova-iorquino. Apesar do desinteresse em relação ao cinema produzido nos Estados Unidos, fez uma audição e acabou por ser selecionado pelo realizador que no ano anterior tinha lançado o filme de sucesso Quem tem medo de Virginia Woolf, com Elizabeth Taylor e Richard Burton.
No processo de seleção, Hoffman destacou-se face a grandes vedetas da época, entre as quais Robert Redford, e a escolha surpreendeu a maioria das pessoas envolvidas no projeto. “Porque é que haviam de escolher uma pessoa que parece tão étnica, como eu, para interpretar o expoente do WASP?” (sigla que significa branco, anglo-saxónico e protestante, ou seja, pertencente à elite americana), questiona o ator. Judeu, baixo e com uma aparência pouco alinhada com os padrões de beleza dominantes, Hoffman não tinha muito a seu favor, pelo menos à primeira vista.
Isso foi um problema logo no primeiro contacto com Mike Nichols, que tentou manipular os traços físicos do ator. A forma das sobrancelhas, a grossura do pescoço e até o nariz de Hoffman deixaram o realizador “descontente com aquilo que via”. “Lembro-me de pensar, ‘Estão a tentar tirar aquilo que existe de judeu da minha cara, mas isso não vai acontecer’“, recorda o livro de memórias, escrito com a redatora da New Yorker, Ariel Levy.
Mas as inseguranças do protagonista foram apenas uma parte das dificuldades que enfrentou durante as gravações. “O Mike era irritável com toda a gente, mas eu discernia um certo sadismo endereçado especialmente a mim“, escreve. Numa cena do filme, a atriz coadjuvante de Hoffman, Katherine Ross, que interpretava o jovem interesse romântico, tinha de esbofetear o protagonista. Nichols obrigou o elenco a repetir a cena 27 vezes, sendo que, na versão editada do filme, ela não foi incluída.
“O Mike continuava a dizer à Katherine Ross para me bater, com mais força”, continua o testemunho. Apesar da preocupação da atriz com quem partilhava a cena, algumas chapadas atingiram Hoffman na região do ouvido, pelo que no fim do dia se sentia “tonto”.
A condição já frágil do ator agravou-se quando, no dia seguinte, teve de filmar uma cena na piscina, na qual se exigia que estivesse submerso durante longos períodos de tempo. “Quando vim à superfície, os meus ouvidos sangravam“, lê-se no excerto. “Entre todas as chapadas do dia anterior e a pressão da água no fundo da piscina, tinha perfurado um tímpano.”
No verão do mesmo ano de 1967, a negligência da equipa de filmagens voltou a incidir não apenas sobre Hoffman mas também sobre Anne Bancroft, a famosa Mrs. Robinson com quem o protagonista do filme tem um caso amoroso. A atriz desmaiou em plena rodagem por causa do calor “escaldante” e “teve de ser ressuscitada com oxigénio”, recorda o autor de Look at Me. Hoffman, por sua vez, admite quase ter perdido a consciência na mesma ocasião, em que Nichols o obrigou a repetir uma cena de corrida sob o sol intenso da Califórnia. “Repetimos a cena uma e outra vez, até que eu fiquei completamente destruído por causa do cansaço e da desidratação.”
“Foi uma experiência terrível fazer o filme que mudou a minha vida“, conclui Dustin Hoffman. “O tempo todo, senti que o Mike estava zangado comigo, seja porque eu estava a fazer algo de errado ou porque ele tinha percebido o que toda a gente já sabia, que ele tinha escolhido o protagonista errado para o seu filme.”
A impressão de todas as partes envolvidas estava errada, ou pelo menos essa foi a deliberação da crítica e da Academia, que atribuiu um Óscar e sete nomeações ao filme. Desde então, Dustin Hoffman tornou-se um ator venerado, premiado, mas também contestado, quando em 2017 foi alvo de várias acusações de assédio sexual. O novo livro de memórias reflete sobre a carreira de sucesso em Hollywood e convida os leitores a “entrarem no mundo privado atrás da figura pública”. Resta confirmar se também aborda os alegados casos de abuso.
Look at Me fica à venda no mercado anglo-saxónico e online no dia 10 de novembro. Ainda não existe uma data de lançamento para o livro em Portugal.