Desde que a trágica morte de Jesús de Miguel foi confirmada, na manhã desta terça-feira, que a larga maioria da comunicação social também lembrou a outra vítima: Jesús Owono, o guarda-redes do Andorra que chocou com o avançado do Tenerife. Internacional pela Guiné Equatorial, com apenas 25 anos, tem sido acusado e defendido, sem grande possibilidade de ele próprio apresentar explicações.
De acordo com o jornal Sport, ao longo desta segunda-feira, depois do acidente e antes de se entender por completo a gravidade da situação de Jesús de Miguel, Jesús Owono queria falar com a família do avançado, pedir desculpa e manter-se em silêncio publicamente. A ideia acabou por perder sentido com a confirmação da morte, algo que segundo o mesmo jornal deixou o guarda-redes em “choque absoluto”. Esta terça-feira, porém, Owono acabou por reagir publicamente através de um comunicado divulgado pelo Andorra.
https://x.com/fcandorra/status/2118005968571400232
“O FC Andorra continua profundamente afetado pela morte de Jesús de Miguel. Nestes momentos tão difíceis, o nosso jogador Jesús Owono quer partilhar pessoalmente algumas palavras. ‘Estes estão a ser os dias mais difíceis da minha vida. Custa-me encontrar as palavras e é-me muito difícil assimilar tudo o que aconteceu. Sinto uma dor enorme pela perda de Jesús. Penso nele, na sua família e em todas as pessoas que gostavam dele. Sei que haverá muitas questões a abordar, enfrentarei o que vier com todo o respeito. Mas neste momento, sinceramente, não consigo pensar noutra coisa senão em Jesús e na dor que estamos a viver. Descansa em paz, Jesús’. O FC Andorra pede a máxima sensibilidade e respeito”, pode ler-se na nota divulgada durante a tarde.
Natural de Bata, na Guiné Equatorial, Jesús Owono mudou-se com a família para o País Basco quando era ainda criança. Começou a jogar no Antiguoko com apenas oito anos e ainda passou pela Real Sociedad na formação, estreando-se pela equipa principal do San Ignacio, então na Terceira Divisão de Espanha, em 2019. Assinou pelo Alavés em 2021 e cumpriu os primeiros minutos na La Liga em janeiro do ano seguinte, acabando por passar quatro temporadas no clube antes de rumar ao Andorra, primeiro por empréstimo e depois, no último verão, a título definitivo. Pelo meio, tornou-se presença habitual nas convocatórias da seleção da Guiné Equatorial, tendo quase 50 internacionalizações.
Nas horas seguintes ao acidente, Jesús Owono apagou todas as contas que tinha nas redes sociais, já que estava a ser vítima de vários insultos e acusações de ser um “assassino”, algo que ouviu ainda em campo e vindo da bancada, mas a verdade é que as consequências do acidente podem ir além das naturais sanções desportivas com jogos de suspensão.
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O Grupo de Homicídios da Polícia Nacional de Santa Cruz de Tenerife já abriu uma investigação ao caso, sendo que o objetivo é esclarecer o que aconteceu em campo, mas também o que decorreu a partir do momento em que Jesús de Miguel foi transportado de ambulância para os cuidados intensivos do Hospital Universitário de Nossa Senhora da Candelaria, onde acabou por morrer.
Ainda assim, os especialistas em Direito Desportivo e Penal que estão a opinar sobre o tema nos jornais espanhóis defendem que não é óbvia a possibilidade de Jesús Owono ser acusado de homicídio por negligência. Desde logo porque existem fronteiras entre um erro de avaliação técnica e a prática de um crime de homicídio: a lei espanhola rege-se pela doutrina do “risco permitido”, ou seja, qualquer jogador quando entra num relvado aceita implicitamente que está sujeito a contactos físicos intensos ou decisões intempestivas que podem resultar em lesões graves.
Na verdade, os tribunais de Espanha têm defendido que apenas condutas manifestamente dolosas, como agressões intencionais e desfasadas da disputa natural da bola ou atos de violência gratuita desvinculados do jogo, podem levar a esfera disciplinar desportiva para a jurisdição civil e criminal. E aqui, naturalmente, a autópsia do Instituto de Medicina Legal será crucial, já que vai determinar clinicamente a causa da morte e o nexo de causalidade entre o choque e a paragem cardiorrespiratória.
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