(c) 2023 am|dev

(A) :: Nuno Valentim, o valor do património e a arquitetura do Porto: "Não há exceções, qualquer edifício é uma oportunidade para fazer habitação"

Nuno Valentim, o valor do património e a arquitetura do Porto: "Não há exceções, qualquer edifício é uma oportunidade para fazer habitação"

O projeto de restauro da Quinta de Crasto, em Vila do Conde, assinado por Nuno Valentim, venceu o Prémio Gulbenkian Património. Falámos com o arquiteto sobre habitação, turismo e o futuro das cidades.

Carina Fonseca
text
David Oliveira
photography

A fachada do palacete da Quinta de Crasto, em Vairão, uma zona rural no concelho de Vila do Conde, surge imponente, na sua história de séculos. Dificilmente se adivinha que atrás daqueles muros está um moderno centro de investigação, focado na biodiversidade e na transferência de conhecimento. Tão moderno, que acolhe o único laboratório de ADN antigo do país, altamente especializado e cheio de particularidades: além de funcionar num antigo sequeiro, é transparente; quem estiver no exterior pode ver os cientistas trabalhar, devidamente equipados para lidar com amostras de ADN muito degradadas (imagine-se um osso de dinossauro, por exemplo), que têm de ser totalmente isoladas de contaminação com ADN moderno.

Esta propriedade agrícola do século XIX, que funcionava também como residência senhorial, é agora a sede da Associação Biopolis, fruto de um projeto de reabilitação assinado pelo arquiteto Nuno Valentim. Uma intervenção que acaba de conquistar o Prémio Gulbenkian Património – Maria Tereza e Vasco Vilalva 2026, entregue nesta terça-feira. A provar que “estas estruturas não têm de ser todas dedicadas ao turismo”, defende Valentim, arquiteto responsável por outras requalificações de peso, do Mercado do Bolhão ao Jardim Botânico do Porto. Na esplanada multicolorida que ocupa a antiga eira, rodeados por jardins, silos e um espigueiro, conversamos sobre temas tão diversos como o restauro vencedor, o estado da arquitetura em Portugal ou a crise da habitação.

Nasceu no Porto, em 1971. O que queria ser quando era criança?
Imaginava-me astronauta. Depois andei indeciso entre Engenharia e Arquitetura. Mas houve um professor de Desenho, no 9.º ano, que mudou a minha vida, através de um diário visual que nos instigava a fazer. Comecei a imaginar-me bem a desenhar e a estar no exterior. E depois cresci no meio de desenhos e projetos, porque o meu pai era engenheiro civil, mas fazia muitos projetos de arquitetura, também. Cresci na Baixa do Porto, no escritório dele, na Rua do Bolhão, sem saber que um dia viria a recuperar o [Mercado do] Bolhão.

Por que é que esse professor foi tão importante?
O professor Nuno Abreu, pintor, foi muito importante porque fazia-nos a olhar a realidade de uma forma bela, a reconhecer a beleza na realidade e a representá-la. Tive, logo a seguir, outra professora absolutamente extraordinária de Desenho: a Luísa Marinho Leite, cunhada do Siza, que também me marcou imenso. Começou a ser muito claro que o caminho era por aí. Acho que o meu pai também achou alguma graça em ter um filho arquiteto. De tal forma achou graça que, de repente, nós, os três irmãos, somos arquitetos. A minha irmã é assistente social.

Acaba de ganhar o Prémio Gulbenkian Património – Maria Tereza e Vasco Vilalva 2026, que “distingue a qualidade do restauro da Quinta de Crasto”, inaugurada no ano passado, e a relevância da Associação Biopolis, que a reabilitou e a usa como sede. Qual é o significado deste prémio?
Além de ter sido convidado para reabilitar o Bolhão, este é o maior prémio nacional ligado à reabilitação do património. Não consigo dissociar este prémio do seu valor cultural, ou seja, do reconhecimento do contributo para a cultura e para o património que o projeto pode dar. E uso a palavra projeto intencionalmente, enquanto possibilidade nova de futuro, de esperança, de melhoria da qualidade de vida, da paisagem e do país onde vivemos. Uma espécie de reforço da nossa identidade e um esforço de preservar essa identidade sem recusar, também, a sua atualização e a sua transformação. Por isso, é uma distinção enorme, que transcende muito o valor pecuniário – que é também algo de assinalar, e muito invulgar. Valor esse que permite ser utilizado na divulgação do que aqui fizemos, na comunicação, na partilha, e mitigar, de alguma maneira, o momento difícil que vivemos na arquitetura, nas questões da cultura e da recuperação e do projeto em geral. É muito bom receber este reconhecimento.

Qual é o valor do prémio?
O valor é de 50 mil euros. É muito curioso, porque a Fundação Gulbenkian pergunta-nos à cabeça, quando fazemos a candidatura, como queremos dividir o prémio, e para nós é muito óbvio, independentemente de estarmos a liderar a candidatura, que o prémio tem de ser dividido em partes iguais. Porque não há boa arquitetura sem bons donos de obra, não há arquitetura sem decisão política. Aliás, “Decisão Política, Decisão Arquitetónica” é o título sobre o qual, normalmente, apresento o Bolhão. E acho que aqui isto não seria possível se não fosse a visão do Nuno Ferrand [diretor da Associação Biopolis, cientista e professor da Universidade do Porto] e a sua ambição, o seu sonho. O Nuno não para, dispara em todos os sentidos. Estamos envolvidos em muitas frentes, umas que vamos concretizando, outras que não. Mas é maravilhoso poder estar ao lado de alguém que tem esta visão, que confia muito em nós para a corporização dessas visões e desses sonhos. E que, sendo um cientista da cabeça aos pés, é também alguém com um respeito enorme pelas outras disciplinas, para lá da sua Biologia.

Portanto, o prémio vai ser repartido.
A Gulbenkian perguntou-nos como é que queríamos dividir o prémio, e nós dissemos: naturalmente, em partes iguais, entre a Biopolis e o nosso ateliê.

Disse que a arquitetura e as artes estavam a atravessar um período difícil. Porquê?
Vou focar-me na arquitetura. Porque o nosso Estado demitiu-se de ter qualquer critério de qualidade na escolha dos projetistas e dos projetos que vão transformar o seu maior bem, que é a paisagem, o território, o património construído e natural. O Estado contrata pelo preço mais baixo, sistematicamente. E recusa critérios de qualidade naquilo em que devia ter uma postura exemplar, que é a escolha dos melhores projetos, das melhores visões, das melhores estratégias para o que transforma definitivamente as nossas vidas, que é o nosso espaço construído e o nosso espaço natural. Por isso, é muito interessante que o Prémio Vasco Vilalva reconheça precisamente os privados – só podemos ter acesso a este prémio se houver uma vertente privada; a Biopolis é uma associação privada, apesar de ter de se reger pela contratação pública. Neste momento, infelizmente, são os privados que estão a dar a nota de qualidade no que se vai fazendo de melhor na arquitetura, neste país. Por outro lado, a arquitetura, ao contrário das artes, perdeu uma referência: por força de uma diretiva europeia, deixou de existir uma tabela de honorários. E o nosso trabalho está totalmente desregulado. Até aos anos 1980, havia uma tabela de cálculo de honorários pela qual nos regíamos, e agora não existe. A situação é catastrófica. Estamos numa posição privilegiada e nem nos podemos queixar, porque praticamos honorários justos e que, na nossa opinião, permitem cobrar o tempo que dedicamos. A maior parte dos colegas está numa situação difícil. A arquitetura não é uma prioridade para o Estado. E há paradoxos difíceis explicar. A tabela de honorários antiga previa, por exemplo, que a habitação social tivesse um agravamento de custos honorários, por força da dificuldade acrescida que era fazer habitação social. Dimensionar e fazer boa habitação social é um exercício muito mais difícil do que fazer habitação corrente sem qualquer limitação de custos para a classe média ou para a classe alta.

"Total prioridade à habitação pública. Que pode ter muitos matizes, não é necessariamente habitação social. É habitação social; é habitação a rendas controladas; é convencer os empresários a voltar a fazer bairros operários, para fixarem os seus funcionários; é trabalhar com as cooperativas e fomentar as cooperativas de habitação; é prolongar programas de rendas apoiadas, como o “Porto com Sentido”, que é um programa notável, exemplar. Portanto, é só continuar."

Pela questão da contenção?
Da contenção, da exiguidade, de fazer o máximo com o mínimo. E a tabela estava maravilhosamente bem construída. Por exemplo, um trabalho de reabilitação tinha um acréscimo de 20% aos honorários, um trabalho de restauro tinha um acréscimo de 30% aos honorários. A habitação social estava na categoria três, a categoria mais exigente, enquanto a habitação corrente estava na categoria dois.

As tabelas de honorários foram anuladas por decisão…?
Uma diretiva europeia obrigou todos os países europeus, por força da lei da concorrência, a anular essas tabelas. Porque é que a Ordem [dos Arquitetos] está inibida de recomendar um valor/hora do que deve ser o trabalho do arquiteto? Até como formação e serviço público. Como é que isto não existe? Nos últimos relatórios do pagamento do Estado aos arquitetos, os valores andam na casa de 1 ou 2% do valor da obra, enquanto os imobiliários ganham 4 ou 5% do valor das vendas, num processo de venda feito sobre uma valorização que o projeto de arquitetura fez. Isto está tudo ao contrário. Quando digo arquitetos, é arquitetos, engenheiros e paisagistas, são todos os projetistas. Há aqui um problema enorme, que estou muito empenhado em tornar público. Ainda agora, no grupo de trabalho para o Centro Histórico do Porto, de que fiz parte, uma das recomendações – e não tenho qualquer problema em reconhecer o meu contributo e a minha autoria de uma delas – é que, se querem que o Porto preserve o seu estatuto de [Património Mundial classificado pela] UNESCO, a Câmara Municipal tem de dar o exemplo. E não pode fazer concursos monofator preço. Por muito, até, que as equipas convidadas lhe garantam a qualidade, não está a avaliar propostas circunstanciadas ou metodologias para aquele lugar; está a contratar pelo preço mais baixo. Não pode. O valor cultural daquela circunstância sobrepõe-se a tudo. Como é que a Câmara se demite de avaliar propostas, metodologias, para uma circunstância de valor cultural acrescido, porque confia que o mercado vai funcionar e que as equipas que convidou têm qualidade?

Qual é o risco de trabalhar assim?
Não estarmos, nem a escolher os melhores, nem a escolher as melhores propostas e o melhor pensamento para o futuro. Estamos a perder oportunidades. Ainda por cima, o custo está na obra, não está no projeto. Acho que o Bolhão é o sucesso que é, e, no limite, está a ser vítima do sucesso que é, porque fugiu, de alguma maneira, a toda esta lógica. E o estado de emergência em que o Bolhão se encontrava fez com que [o ex-presidente da Câmara Municipal] Rui Moreira tivesse de convidar um arquiteto para integrar uma equipa municipal que levou para a frente o projeto. Portanto, não esteve sob este filtro da escolha do preço mais baixo. A Câmara já tinha montado também uma equipa extraordinária de acompanhamento humano, e de conhecimento humano, dos comerciantes existentes, e estava absolutamente empenhada em manter essa realidade humana.

Acabou de ser lançado o concurso para a reabilitação do Palácio de São João Novo, o futuro Museu do Porto. Teoricamente, é um concurso de prévia qualificação, ou seja, uma pessoa tem de ter um currículo que permita aceder a este concurso. A primeira fase é uma triagem exigente, que vai selecionar um conjunto de concorrentes. Mas, para a segunda fase, os concorrentes não precisam de fazer nada, apenas uma proposta de preço. Vão, com esses concorrentes pré-selecionados, escolher a proposta mais barata para o Palácio São João Novo, a futura Casa do Museu do Porto, sem avaliar uma ideia, uma metodologia, um princípio de intervenção. Como é possível?

O seu gabinete está nessa corrida?
O meu gabinete está na corrida, nem que seja para criar o incómodo de, na segunda fase, a Câmara ter de nos preterir, porque vamos, seguramente, ser os mais caros. Ao mesmo tempo, a mesma Câmara que faz isto fez um concurso extraordinário, que foi o concurso para o Bairro Duque de Saldanha. Há 20 anos que eu não fazia um concurso público. Vi o edital e disse: temos de ir a isto, tem honorários justos, um edital exemplar de conhecimento e de programa do edifício, um programa social, o arquiteto que é o mesmo autor do Bolhão [Correia da Silva], cinco prémios para as equipas concorrentes… Um concurso anónimo, um júri notável, de pessoas competentíssimas, ou seja, tudo bem feito. Nem queria acreditar e disse: sim senhor, este temos de fazer. Não há hipótese. E ganhámos.

Qual é a sua visão para esse bairro?
Alguém escreveu que aquele bairro é uma ilha na vertical, um bairro todo em galeria, são galerias sobrepostas, ruas sobrepostas, que alimentam as várias unidades habitacionais numa ferradura. É um edifício notável, que tem uma história muito grande no Bonfim. Os festejos de São João dentro do bairro são míticos, toda a gente ia lá. Tem 124 famílias a viver, algumas em condições muito difíceis, [em] casas muitíssimo pequenas, algumas delas semi enterradas. A Câmara quer, e bem, prescindir dessas enterradas, porque estão com imensos problemas.

Não têm condições?
Não têm qualquer condição. A Câmara não se importou de perder o número de frações em favor do crescimento e da melhoria dos apartamentos. Isto pode parecer um paradoxo no tempo em que vivemos, em que faltam tantas casas, mas é de uma enorme coragem estar focada na melhoria da condição de vida daquelas famílias. Suprimindo as tais construções enterradas, colocando elevadores, porque o bairro não é acessível, aumentando as frações e voltando a redignificar o edifício, passamos para 80 e tal frações. A Câmara está convencida, ou por força do envelhecimento, ou por força de se ter encontrado outras alternativas, enquanto as pessoas se deslocam, de que se vai conseguir, nestas 80 e tal frações, dar resposta a todos os que quiserem lá ficar.

Estamos a falar de habitação pública.
Habitação pública social. A dimensão ambiental do concurso é também notável. Respeitava o antigo índice ambiental que estava a ser implementado e que, entretanto, foi interrompido. Fomos percebendo, ao longo do concurso, que o edifício não aguentava ampliações para responder às frações que estávamos a suprimir, aguentava mal as ampliações e as próteses, já estava no seu limite de capacidade construtiva. Fomos depurando, limpando e chegando a uma forma muito ancorada nos limites pré-existentes e muito respeitadora da métrica e da herança, mas também altamente transformadora da sua vida interior. Acho que conseguimos um meio termo muito interessante entre a qualidade e a dignidade e a identidade original do edifício e a transformação necessária e a melhoria.

Quando começam as obras?
Ainda estamos no início. O que fizemos foi uma espécie de masterplan.

Enquanto decorrer a intervenção, as pessoas vão ser realojadas?
São dois blocos, portanto, é relativamente fácil fasear. Enquanto se faz a obra num bloco, o outro pode permanecer, e essas pessoas têm de ser realojadas. A Domus Social tem um património imenso, o Porto é um dos maiores senhorios do país. A Domus tinha muito claro aquilo que os habitantes pediam. O programa também foi feito com base nesse conhecimento de todas as exigências e pedidos que os moradores fizeram. As frações são muito pequenas, todos queriam apropriar-se da galeria, e não é possível, porque isso é retirar a sua identidade original. Daí a Câmara admitir que houvesse perda de fogos, por força de encontrarmos esse espaço complementar, que fizemos dentro.

Tem acompanhado os protestos face à crise da habitação?
Sim. Ainda ontem partilhei um poema maravilhoso, do poeta popular Zé Gigas, sobre as tendas na Praça de Dom João I. É uma espécie de metáfora, a tenda como metáfora triste da situação em que o país está. Tenho acompanhado com preocupação.

Entende que estes protestos são legítimos?
Sim, totalmente legítimos. Há muito tempo que falo publicamente disto. Ainda agora, no [festival literário] Babell, fui convidado para fazer uma “aula” sobre a arquitetura do Porto em 90 minutos. Além de ter dedicado muito tempo àquilo que é o património edificado social do Porto, das ilhas ao Plano do Barredo, de 1969, de [Fernando] Távora, passando pelo CRUARB [Comissariado para a Renovação Urbana da Área Ribeira/Barredo], passando pela Fundação do Centro Histórico, pelo SAAL [Serviço de Apoio Ambulatório Local], bairros sociais, bairros operários, cooperativas… O Porto tem uma história de património edificado social notável, diverso, para vários estratos e várias origens. Como é possível não estarmos a olhar para isso, e não estarmos a continuar e ter as betoneiras ligadas em todas essas frentes? É só continuar o que já está feito.

O que defende para fazer face a este problema da habitação?
Total prioridade à habitação pública. Que pode ter muitos matizes, não é necessariamente habitação social. É habitação social; é habitação a rendas controladas; é convencer os empresários a voltar a fazer bairros operários, para fixarem os seus funcionários; é trabalhar com as cooperativas e fomentar as cooperativas de habitação; é prolongar programas de rendas apoiadas, como o “Porto com Sentido”, que é um programa notável, exemplar. Portanto, é só continuar. E vejo com preocupação o governo da cidade a não saber posicionar-se e continuar, com base, eventualmente, em promessas eleitorais e alguns fretes que terá feito de discurso… Mas simpatizo e confio no nosso presidente da Câmara [Pedro Duarte]. Conheci há poucos dias, a propósito do Bairro Duque de Saldanha, a nossa vereadora da Habitação [Gabriela Queiroz], e vi-a sinceramente preocupada e empenhada neste assunto. Não vejo ainda é uma espécie de resposta integrada para esta questão. Vejo também um vereador de Urbanismo muito ativo e preocupado com o assunto, desde logo o grande provocador deste grupo do Centro Histórico, que foi o Jorge Sobrado. Mas, assim como há um grupo de trabalho para o Centro Histórico, devia haver um grupo de trabalho urgente para mitigar o momento que vivemos.

"O nosso Estado demitiu-se de ter qualquer critério de qualidade na escolha dos projetistas e dos projetos que vão transformar o seu maior bem, que é a paisagem, o território, o património construído e natural. O Estado contrata pelo preço mais baixo, sistematicamente. E recusa critérios de qualidade naquilo em que devia ter uma postura exemplar, que é a escolha dos melhores projetos, das melhores visões, das melhores estratégias para o que transforma definitivamente as nossas vidas, que é o nosso espaço construído e o nosso espaço natural."

O que está a falhar?
Por um lado, vejo reféns de um discurso eleitoralista de não densificação da cidade, quando não estamos a falar necessariamente de densificação, estamos a falar em continuar a aproveitar vazios urbanos que necessitam de ser tratados. Vejo-o também refém de alguma promessa eleitoral. Vejo esta medida da gratuidade dos transportes como prematura, sendo total adepto [dela], porque esse dinheiro deveria estar a ser utilizado na habitação, que é a nossa urgência, e na consolidação da rede de transportes que existe. Infelizmente, não nos podemos dar ao luxo de perder esses 30 milhões anuais.

Então, havia coisas a fazer primeiro?
Claro. Seria preciso aproveitar esses fundos para consolidar e aumentar a rede e para investir na habitação, que é a nossa prioridade maior. E aí, sim, cumprir uma promessa de Pedro Duarte, que é olhar para os edifícios devolutos enquanto oportunidade de habitação. Não há exceções, todo e qualquer edifício é uma oportunidade para fazer habitação. Ao contrário do que diz Mário Ferreira, naquele post infeliz que fez, recentemente, sobre o edifício que tem em Miragaia. Estivemos a trabalhar no Quartel do Ouro no ano passado, como hipótese para fazer nova habitação; já estivemos a trabalhar no Quartel Monte Pedral; já estivemos a trabalhar no vazio sob a Ponte D. Luís, em Santa Clara, com hipótese de fazer mais. Tudo é uma oportunidade para fazer nova habitação. Não podemos estar reféns de qualquer ideologia, porque os mitos habituais – ai, o betão, ai, a construção em altura, quer dizer…

Entende que há muitos edifícios que estão desaproveitados, desocupados e que poderiam ser usados?
Claro que sim. Ainda agora saiu a notícia de que a Igreja está a disponibilizar… Toda esta conversa à volta do Seminário da Sé… Porque não encontrar formas de alojamento? Sei que o projetista previu desde o início a hipótese de ser uma hospedaria monástica, mas se calhar há outra revisão que se pode dar para ser um espaço de apoio, residências de outro tipo, estudantil, ou… para não se perder esta oportunidade de fazer mais. Isto é multitático. Mas obriga a que a decisão política seja instruída neste conhecimento muito panorâmico, de várias frentes, muito aberto, muito participado, de diagnóstico sincero, desprendido de fretes ideológicos, muito assente na realidade. Já agora, não concordo com o presidente [da Câmara] quando diz que as pessoas têm que se convencer de que o antigo Mercado do Bolhão morreu. Fizemos tudo para que o antigo Mercado não morresse.

A sua ideia para o Bolhão era preservar as características originais?
Não é a minha ideia, é a ideia da cidade, do presidente Rui Moreira e do governo da cidade. A ideia do governo da cidade é invulgarmente corajosa: manter o mercado de frescos municipal na esfera municipal, sem fretes a grandes superfícies, como estava previsto anteriormente.

O que estava previsto?
A história é longa. O nosso projeto é o quarto projeto para o Bolhão, em 30 anos. E todos esses projetos correspondem a visões e ideias diferentes de mercado e de cidade. Uma delas, a segunda, a da TramCroNe, criou uma revolta popular e uma plataforma cívica, porque aquilo era, objetivamente, um shopping center e uma loucura. Até habitação tinha, torres. Revolta popular, o Bolhão é nosso, muito bem. O Dr. Rui Rio, à semelhança do Túnel de Ceuta, passa o assunto quente que tem nas mãos para a Direção Regional da Cultura. A proposta da Direção Regional de Cultura, entre 2009 e 2013, era voltar a cobrir integralmente o Bolhão, à semelhança do Les Halles, em Paris, e de outros mercados cobertos. Sabemos que isso é meio caminho andado para uma grande superfície se instalar. E o Dr. Rui Moreira, quando ganha, começa a encetar uma negociação que durou um ano, com a DRCN, para retirar a cobertura ao Bolhão e o estacionamento, já que havia muito e isso era contra uma política de progressiva retirada de carros da cidade. Isto pode ser discutível: como é que se faz um mercado sem ter estacionamento por baixo? Fui falar com a DRCN e o meu colega a perguntar-lhe porque é que não aceitava retirar a cobertura e o estacionamento, e ele disse: o Mercado, se não for coberto e com estacionamento por baixo, não funciona. Eu disse que discordava. Se for para ser o mercado de frescos municipal, o mercado pode ser, em grande parte, descoberto, manter-se fiel ao que é, e ter apenas uma cave logística. O Bolhão estava num estado inqualificável. Não posso descrever o que vi.

Em que aspeto?
A nível de total falta de higiene, falta de condições, indignidade, sobrevivência dos comerciantes. Uma coisa desumana, mesmo, uma vergonha total. Em parte, percebe-se o que Pedro Duarte diz, que o Mercado antigo morreu. Porque, de facto, o Mercado antigo, essa falta de dignidade, graças a Deus, foi resolvida. Agora, traços identitários, humanos e arquitetónicos, fizemos tudo para os preservar. Por isso que custa muito ouvir que o Mercado antigo morreu. Porque os comerciantes estão lá. Fez-se um esforço sobrehumano para manter todos os comerciantes. Eles continuam com rendas baixíssimas. Aliás, esse é um foco das atuais tensões. Todos os comerciantes históricos foram mantidos sem aumento de rendas, são dois terços, e são a alma do Bolhão. Mas o Bolhão também é feito daquela qualidade arquitetónica, daquele ambiente, daquela atmosfera única no mundo. Aquele skyline Beaux-Arts é uma coisa única. E o Bolhão continua a ter um interesse internacional enquanto ensaio de terceira via entre tentar conciliar interesse público e turistificação.

Usou esse termo e ia perguntar-lhe, justamente, como é que responde às críticas sobre a turistificação do Mercado do Bolhão.
Vamos pôr-nos à porta a impedir que os turistas entrem? Não quer visitar os mercados nas cidades onde vai? Eu quero, é a primeira coisa que faço. Fartei-me de visitar mercados, e agora tenho esse hobby instalado. Alguém vai perder a hipótese de ir ver um dos mercados mais belos do mundo, que é o Mercado do Bolhão? Há alguma dúvida de que o Bolhão é um dos mercados mais belos do mundo? E agora, como se faz? É um mercado aberto a todos, ou não é aberto a todos? Muita gente do Porto continua a fazer as suas compras lá. Há uma economia local de que as pessoas não se apercebem. Muitas bancas de frutas, legumes, etc., fazem abastecimentos a muitas mercearias e restaurantes à volta. Sei que as bancas de legumes e frutas fazem 70% das vendas para fora. O Bolhão é uma espécie de mercado abastecedor. Agora, está, como sempre esteve, cheio de tensões internas. Ou seja, os comerciantes entre eles nunca se deram bem, e continuam. Há comerciantes, sobretudo do exterior, e que não têm histórico no Bolhão, que querem tomar conta da gestão do mercado e, por isso, criam uma série de problemas, e têm uma atitude surreal de pressão sobre a gestão, de acusação permanente e de bloqueio, até, de funcionamento. A Câmara tem ali um desafio enorme, de retomar a relação com os cidadãos do Porto, num ambiente que não é muito favorável a isso, porque, infelizmente, há cada vez menos gente a viver no centro da cidade. O problema é muito complexo. Temos de ser muito criativos e continuar o projeto a nível da gestão. Os restaurantes e as mercearias que se abastecem no Bolhão têm de estar identificados, têm de ter acesso privilegiado a locais de carga e descarga. As pessoas que compram no Bolhão, que tipo de benefício ou de privilégio podem ter, não só ali, mas noutras infraestruturas da cidade?

Esse trabalho não está acabado.
Está totalmente em aberto. Estou muito confiante de que esta nova gestora, por quem tenho imensa admiração, a Susana Bettencourt…. Já a Francisca Carneiro tinha começado um trabalho muito interessante no Bolhão, que, infelizmente, foi interrompido; e acho que agora a Susana Bettencourt é absolutamente fundamental, também, para corrigir alguns erros que se fizeram na gestão, nomeadamente, ter permitido que nas bancas se confeccionasse comida. Vejo com bons olhos toda esta gestão de não colocar mesas e cadeiras, para não transformar aquilo numa praça da restauração. Uma coisa extraordinária no Bolhão é que as galerias são extensão do espaço público, estão disponíveis para eventos e para apropriações várias. Não programar, muitas vezes, é programar. Deixar o espaço preparado para. O Bolhão deixou a galeria como espaço público de apropriação, e transformou os talhos em restaurantes que estariam obrigados, pelo regulamento, a abastecer-se em 30% das suas compras internamente. Acho que temos uma obra exemplar a nível de decisão política e de decisão arquitetónica. Estamos com um desafio imenso de gestão. Já para não dizer que estão a pensar pôr um custo de utilização dos quartos de banho, porque o Bolhão, nos melhores dias, tinha cinco mil pessoas, e agora tem 30 mil. Estão em permanente arranjo dos quartos de banho.

Voltando à Quinta de Crasto: o júri destacou “a excepcional qualidade patrimonial dos restauros do edificado, tanto do palácio como dos equipamentos agrícolas”. Quando viu a propriedade em bruto, qual foi a primeira coisa que lhe passou pela cabeça?
Desde logo, esta praça muito orgânica onde estamos, esta eira… Os cobertos são estruturas vernaculares invulgarmente belas. E adoro esta organicidade, à falta de melhor termo, esta diversidade de expressões arquitetónicas, e de tempos, e de camadas: materiais, pavimentos, áreas cobertas, áreas descobertas… Acho isto de uma riqueza enorme. Não era uma ruína, mas estava arruinado, e muito degradado. Estava aqui também todo o potencial e a qualidade construtiva e arquitetónica. Uma coisa que caracteriza a nossa forma de trabalhar é esforçarmo-nos por não ter ideias antes do tempo, partir para os projetos numa espécie de abertura total à compreensão, ao diagnóstico, à leitura da realidade enquanto matéria fundamental para formar as ideias. O Papa Francisco usava uma expressão muito interessante, um texto lindíssimo, uma encíclica, em que instigava as pessoas a não sobrepor as ideias à realidade. Outra coisa que ele dizia é: ler a realidade enquanto poliedro, com muitas faces, e não enquanto esfera. Portanto, não ceder à tentação de retirar as várias faces da realidade. É um texto filosófico, sobretudo, mas muito atento à compreensão humana, muito arquitetónico, e muito fiel à nossa forma de atuar: no fundo, permitir à realidade que nos dê as ideias.

"O nosso Estado demitiu-se de ter qualquer critério de qualidade na escolha dos projetistas e dos projetos que vão transformar o seu maior bem, que é a paisagem, o território, o património construído e natural. O Estado contrata pelo preço mais baixo, sistematicamente. E recusa critérios de qualidade naquilo em que devia ter uma postura exemplar, que é a escolha dos melhores projetos, das melhores visões, das melhores estratégias para o que transforma definitivamente as nossas vidas, que é o nosso espaço construído e o nosso espaço natural."

Nesta reabilitação, procurou ter especial cuidado com a preservação da história, das memórias que aqui estão?
Acabámos de dar uma volta pelo edifício. Acho que se vai percebendo essa vontade de dar a ler os tempos, as sequências, o que se passou, os usos, os reusos também, em diálogo com esses tempos, mas nunca sendo acríticos relativamente a essa herança. Ou seja, com a consciência de que, muitas vezes, podemos fazer melhor do que o que cá estava. Nunca sendo reféns de um passado ou patrimonialistas, no pior sentido da palavra. Sempre olhando para esses valores enquanto possibilidade do futuro, mas também nunca perdendo uma oportunidade de mostrar este caminho que nos levou até aqui, que estamos a continuar. O tal continuar inovando, citando o professor Fernando Távora, no seu plano para a Ribeira/Barredo, de 1969.

Quais foram os maiores desafios que encontrou aqui? Por exemplo, estamos a falar do primeiro laboratório de ADN antigo do país.
O laboratório de ADN antigo foi quase um projeto dentro do projeto. Nós quase preparámos o invólucro para depois, internamente, ter outra discussão. Até para permitir que todo o outro projeto andasse, tivemos de autonomizar esta discussão e este projeto, porque o número de consultores, a exigência técnica… Acho que vai ser muito interessante ver as pessoas de escafandro lá dentro, a trabalhar, a investigar, de um lado para o outro, sentados nesta eira. Ver pessoas de escafandro num sequeiro é assim uma imagem (risos)…

Essa transparência não é habitual; pelo que nos disseram, este tipo de laboratório costuma estar em caves.
Sim, isto é tudo o contrário. Ao mesmo tempo, é muito inesperado, mas muito interessante, enquanto testemunho desta ideia de transformar na continuidade. Já tinha feito uma coisa um bocado surreal, há 20 anos, que foi uma pequena indústria têxtil dentro de um palacete, na rua José Falcão, no centro do Porto. Adoro este tipo de contraste, e adoro outra coisa que se sente aqui e noutras obras nossas: este ténue limite de onde é que termina o que cá estava e onde começa o trabalho do arquiteto? Onde está a fronteira entre o que permanece e o que foi transformado? Adoro essa dificuldade de perceber onde é que a mão do arquiteto andou, sem prejuízo de sentirmos que isto está altamente transformado.

Esta intervenção envolveu profissionais de várias áreas: arquitetos, paisagistas, engenheiros, designers gráficos, conservadores, restauradores, cientistas e mais. Como foi conciliar estas diferentes sensibilidades?
Desde logo, internamente, isso é uma coisa que caracteriza o nosso ateliê. Nunca faço nada sozinho, nunca sou o autor, sou sempre coautor. Sou apenas o porta-voz, faço sapateado nas cerimónias. Na primeira visita, logo, veio cá connosco o professor Paulo Farinha Marques, paisagista. Tínhamos a noção que isto era, inevitavelmente, um trabalho de reenquadramento paisagístico. Veio o professor Aníbal Costa, estruturalista, o grande expert da recuperação das estruturas existentes. E o professor Vasco Freitas, o grande especialista nacional da física das construções e da reabilitação. O arquiteto é o maestro por natureza. Mas tenho a sorte de estar tão bem rodeado, tecnicamente… Isto é a prova de que aquelas tensões entre engenharia e arquitetura são mentira. O melhor que pode acontecer aos arquitetos e aos engenheiros é trabalharem com gente competente, desde o mais cedo possível. A ideia foi muito construída, alicerçada num programa, porque o Nuno Ferrand, biólogo, estava sempre connosco. A sua equipa próxima também. O arquiteto apenas observa, faz a síntese e cruza com a leitura estratificada e culta que tem de fazer da realidade. Só isso.

Qual é a sua ligação a este sítio? É investigador aqui, também?
Sim, esta relação com o Nuno Ferrand vem desde 2010, com o Jardim Botânico do Porto e com a Galeria da Biodiversidade. O professor Nuno Ferrand convenceu-me, e convenceu o diretor da Faculdade de Arquitetura, a dedicar parte do meu tempo, enquanto professor associado da Faculdade, à Biopolis. A partir desta experiência e desta relação, nasceu o Biopolis Environmental Design Office, já criado por mim. Diria que, se este projeto tivesse aparecido neste momento, já não seria feito no meu ateliê, mas no Biopolis Design Office, que está alojado na Faculdade de Arquitetura e na Biopolis.

O seu nome está ligado a vários projetos de reabilitação urbana no Porto, entre eles, o Jardim Botânico ou os Albergues Noturnos. Se pudesse mudar alguma coisa, em termos arquitetónicos, na cidade, o que faria? Mandava abaixo alguma coisa?
Sou bastante adepto do lema dos Lacaton & Vassal e do Frédéric Druot, “Não Demolirás”; e de em tudo estar uma oportunidade de reintegração da matéria existente. Mas a verdade é que as demolições podem ter uma outra vida, os restos das demolições também. Portanto, isto é uma forma de dar continuidade. E não me falta vontade de, eventualmente, corrigir e demolir uma ou outra coisa fora do sítio, sobretudo dos anos 80.

O quê?
Uma ou outra coisa na proximidade da Foz Velha, que magoa bastante essa área classificada; uma ou outra coisa também no centro histórico. Mas o Porto tem sabido, na generalidade, preservar o essencial do caráter identitário. Preocupa-me a falta de qualidade e a desqualificação de algumas intervenções recentes. Preocupa-me a falta de diálogo entre a Câmara Municipal, a Direção Regional da Cultura ou a CCDR Norte. Ou seja, está toda a gente entrincheirada nos seus pareceres e não há diálogo, não pode ser. Se houver algumas coisas a mudar, elas estão claramente enunciadas nas recomendações do nosso grupo de trabalho. O Porto tem desafios enormes. Não sou político, mas parece-me claro que um governo da cidade tenha de ter um tripé muito evidente de atenção: habitação, nos termos que lhe enunciei, por sua vez, muito ligada a outro pé deste tripé, que é a identidade versus turistificação. E um terceiro, mobilidade, que é, também ela, proximidade. E na mobilidade incluo os espaços verdes de proximidade, o espaço público. Isto, para mim, é um programa de governo da cidade. E gostaria muito de dar o meu contributo relativamente a estes temas. Acho que o Porto tem este desafio triplo. A cola disto tudo é a cultura. E o governo de Rui Moreira fez isto muito bem, recentrando as decisões políticas com uma política cultural muito forte e assertiva, uma verdadeira revolução. Tivemos 12 anos de uma verdadeira revolução cultural na cidade, em contraponto a uma inexistência total. E é muito interessante estarmos a festejar os 25 anos da Porto 2001, Capital da Cultura, a festejar os 30 anos da classificação do Centro Histórico. Pelo que ouço dizer, o Porto está à bica de perder a classificação da UNESCO. É dado como um péssimo exemplo internacional de más práticas de preservação patrimonial.

Como se pode evitar a perda da classificação da UNESCO?
Há quem defenda que era o melhor que podia acontecer ao Porto, porque ter a classificação UNESCO é meio caminho andado para a disneyficação. Começa quase a transformar-se num parque temático. Isto é um processo europeu. Qual é a vontade que temos, neste momento, de ir à Ribeira? Como se contraria isto? Espero não vir a dizer isso do Bolhão. É um desafio grande. Como é que não se perde a classificação? Demonstrando ao ICOMOS [International Council on Monuments and Sites / Conselho Internacional de Monumentos e Sítios] e às entidades, e à UNESCO, que temos uma política atenta às populações. Porque era fundamental manter os restos de população local que existem, ou fazer regressar comunidades que garantam alguma identidade, o que, neste momento, só vemos a acontecer em zonas como o Bonfim ou mais periféricas.

Aqui, a questão da habitação também seria essencial.
É fundamental. Mais uma vez, o tripé cultura, identidade, habitação.

O seu ateliê fica no Foco – Parque Residencial da Boavista…
A mais bela construção moderna do Porto.

É um marco do modernismo na cidade.
Maravilhoso. Adoro o Foco. Sou suspeito.

Mas esse complexo, que previa habitação, escritórios, cinema… está ao abandono, não é? O cinema fechou… Entristece-o vê-lo assim?
Não me entristece, destrói-me. Passo lá todos os dias, cresci ali, usei a piscina, o hotel, o cinema, portanto, aquilo é uma dor de alma. O projeto vai avançar, vai ser tudo reconvertido em habitação. Os autores do projeto são um ateliê competente. Tenho pena que não seja um ateliê do Porto. Isto é o nosso bairrismo, também. Mas acho que aquilo merecia um projeto grande de reforço de identidade local. O Foco tem dois de índice de construção, ao contrário do resto da cidade, que tem um. O Foco é o exemplo de que a densidade, quando bem desenhada e bem enquadrada paisagisticamente, não é um problema. Toda a gente quer morar no Foco. Não há apartamentos disponíveis. E, apesar da degradação do hotel, adoro trabalhar no Foco. Ainda por cima, cresci ali.

Sobre as pontes do Porto, já está em construção a Ferreirinha, há de haver também a ponte rodoferroviária, em alta velocidade, e já se fala numa ponte pedonal e ciclável entre as ribeiras do Porto e de Gaia.
As cidades que perderam a classificação UNESCO perderam-na por causa de pontes. Porque foram desenhadas de forma absolutamente insensível ao valor patrimonial identificado pela UNESCO.

"Parece-me claro que um governo da cidade tenha de ter um tripé muito evidente de atenção: habitação, nos termos que lhe enunciei, por sua vez, muito ligada a outro pé deste tripé, que é a identidade versus turistificação. E um terceiro, mobilidade, que é, também ela, proximidade. E na mobilidade incluo os espaços verdes de proximidade, o espaço público. Isto, para mim, é um programa de governo da cidade. E gostaria muito de dar o meu contributo relativamente a estes temas."

São pontes a mais?
Ligações e pontes nunca são de mais. A sua inserção e a sua localização é que mereciam um debate, participação, critério, que não tem havido. A localização da nova ponte, na minha opinião, é totalmente errada.

A Ponte da Ferreirinha?
Sim. A localização devia ser muito mais a jusante, devia ser mais a poente, e devia ser mais baixa. Toda a gente que atravessou a Ponte da Arrábida conhece os ventos e o desconforto que aquilo cria; a ideia de que ela tem a mesma altura para não perturbar a ponte da Arrábida é um total disparate. A dificuldade de fazer inserção e de fazer aquele vão é muito maior. Aquilo foi um frete a Gaia e ao Arrábida Shopping. Havia propostas que perderam o concurso muito mais interessantes, e que corrigiam o tiro, e o júri e a Metro não quiseram ouvir ninguém nessas outras propostas. E não foram minhas.

Tem havido também queixas dos moradores, relativamente ao barulho.
Isso é uma inevitabilidade de viver em cidade. É como os alojamentos locais que se queixam da Banda Marcial da Foz [do Douro], porque acabam os ensaios às onze da noite, tipos que fazem um papel absolutamente único na comunidade. Barulho tenho sempre, aqui. É como aparecer um edifício à frente da minha casa. É parte da condição de viver em cidade. Ou a diabolização das torres. As torres podem ser a melhor maneira de evitar a dispersão da construção. Depende do sítio e do impacto que tem. Mais uma vez, o Foco é um bom exemplo. Não chateiam nada, as torres do Foco. Pelo contrário, permitiram libertar aquele jardim maravilhoso.

O seu percurso na reabilitação urbana vai além do Porto. Olhando para trás, qual é o projeto de que se orgulha mais?
Orgulho-me mais dos projetos que ainda não fiz. E estou a fazer uma revolução, um projeto maravilhoso, em Leiria: estou a reconverter a Rodoviária do Lis, um projeto de 1950 do Camilo Korrodi, num bairro habitacional. Estou, pela primeira vez na vida, a desenhar uma rua no interior da nave da Rodoviária do Lis. É um projeto que vai transformar o centro de Leiria. É uma coisa única no mundo. Estou muito contente com esse projeto.

Já está em marcha?
Já. Entregámos o projeto de execução. Vai começar a ser construída em breve. Um projeto incrível, que vai mudar o centro de Leiria e que prova que é possível dar novos usos a programas. As outras propostas finalistas demoliam o edifício, faziam um shopping e um hotel, e nós ganhámos preservando o edifício e fazendo habitação.

Esse é o projeto que o está a entusiasmar mais, neste momento?
Sim. E também a sede da Fundação Santander, na Rua do Ouro, em Lisboa. Um edifício do Ventura Terra absolutamente extraordinário. Um privilégio enorme. Ganhámos um concurso limitado, por convite, para fazer a sede da Fundação Santander. Vai ser uma bomba. E vai permitir também reprogramar o centro de Lisboa, e colocar outros programas no centro de Lisboa, que não apenas os dedicados ao turista. É um programa maravilhoso, educativo, social, cultural. Convidei os Oito a fazer este projeto, são um ateliê muito interessante. Estou muito contente por estarmos a fazer juntos este projeto.

Há algum espaço que sonhasse reabilitar?
Sonhei durante muito tempo reabilitar o Foco, o hotel. Muito tempo. Adorava fazê-lo. E gostava muito de continuar este projeto com o Nuno Ferrand e de reabilitar o Aquário da Foz, a Estação Augusto Nobre, em cima do mar. É um sítio muito especial. Gostava muito de repor um pedaço de história e, finalmente, completar o percurso do Solà-Morales que, neste sítio, nunca foi completado. O percurso que ele, no Porto 2001, refez à cota baixa, junto ao mar, que ficou truncado na zona do Aquário. Já agora, sobre os projetos… Falei de Leiria, do Santander, mas há outro projeto maravilhoso, de que estou a gostar imenso: estamos a desenhar o núcleo central temporário do Museu do Porto, na Alfândega, com museologia de Joel Cleto e Susana Faro. Projeto expositivo nosso e dos R2, que também participaram, aqui, na sinalética. E está a dar-nos imenso gozo. Partimos de uma ideia de reutilização das estantes da Biblioteca Municipal do Porto que iam para o lixo. Vamos reutilizá-las dentro deste espaço e as estantes vão ser, também elas, os dispositivos expositivos. Mais do que olhar para trás, gosto de olhar para os projetos maravilhosos que temos em mãos; e gostava muito de ajudar o governo da cidade nestes desafios enormes que tem pela frente. Temos uma escola de arquitetura notável, arquitetos competentíssimos, pensadores da cidade competentíssimos, e o Porto tem um património de pensamento e de liberdade. O grande património do Porto é o pensamento livre, que não podemos desperdiçar. Estou a citar também o nosso vereador da Cultura [Jorge Sobrado], que dizia que o grande património da cidade é a liberdade.