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Provocador e de esquerda. Quem é Abdul el-Sayed, o primeiro senador muçulmano que pode dividir democratas?

Rejeita assumir-se como socialista, mas é de esquerda. Abdul El-Sayed polarizou campanha, mas conquistou lugar no Senado no Michigan. Progressistas democratas tomam nota e centristas inquietam-se.

José Carlos Duarte
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Quando venceu a corrida para o Senado esta terça-feira, Abdul El-Sayed não deixou de lado a sua faceta mais provocadora. “JD, habibi, existe esta ironia deliciosa no facto de que estás constitucionalmente obrigado a dar-me posse em janeiro. Donald, sei que tens dificuldades com o meu nome, então, depois de o JD me dar posse em janeiro, podes simplesmente chamar-me senador”, ridicularizou o recém-eleito senador pelo estado do Michigan. O médico de 42 anos, filho de egípcios e pertencente à ala mais progressista dos democratas, foi um dos principais alvos dos republicanos nestas intercalares. Porém, a estratégia falhou: Abdul El-Sayed converteu-se num dos grandes vencedores da noite desta terça-feira.

Em vez de adotar um tom institucional e cordial, Abdul El-Sayed prefere enfrentar os adversários políticos com um tom ácido, irónico e confrontacional. Combina essa postura com políticas progressistas e bem à esquerda, adotando um discurso com marcas populistas. Por exemplo, defende um serviço de saúde público universal, deseja abolir o ICE (o Serviço de Imigração e Controlo de Fronteiras dos Estados Unidos) e acabar com toda a ajuda militar a Israel.

Abdul El-Sayed corporiza um novo movimento no Partido Democrata: rostos novos, progressistas e oriundos de grupos normalmente marginalizados na política norte-americana. No caso do médico, é muçulmano, tendo sido aliás o primeiro eleito dessa religião para o Senado dos EUA. Mais à esquerda, foi apoiado por figuras influentes do movimento progressista, como a congressista Alexandria Ocasio-Cortez, o senador Bernie Sanders e o mayor nova-iorquino Zohran Mamdani, com quem é frequentemente comparado por também ser muçulmano. Este novo grupo domina também as redes sociais e consegue mobilizar eleitores mais afastados das urnas.

Nascido nos subúrbios de Detroit, El-Sayed — casado e pai de duas filhas — conseguiu afirmar-se politicamente numa zona urbana marcada pelo multiculturalismo e composta por uma forte comunidade de filhos de imigrantes. Nestas regiões, a mensagem dos republicanos mais conservadores é naturalmente rejeitada. Porém, Abdul El-Sayed foi além disso: conseguiu cativar um eleitorado mais amplo ao denunciar o aumento do custo de vida e os custos e impactos negativos da guerra do Irão.

O filho de pais egípcios que foi médico graças à religião

Os pais nasceram numa das maiores cidades do Egito: Alexandria. O pai, Mohamed El-Sayed, imigrou para os Estados Unidos para tirar o doutoramento numa universidade de Detroit, acompanhado pela mulher na altura, Fatten El-Komy, que trabalhava como enfermeira no Egito e que encontrou emprego nos EUA. O casal divorciou-se quando Abdul tinha três anos e este passou a viver com o pai e a madrasta, Jacqueline El-Sayed, ambos engenheiros mecânicos.

Nascido no seio da classe média, teve um percurso escolar brilhante: tirava notas excelentes e destacava-se como atleta, tendo sido capitão das equipas de wrestling, futebol americano e lacrosse. Na Universidade do Michigan, conjugou Biologia e Ciência Política e foi admitido na prestigiada sociedade académica Phi Beta Kappa. O orador da sua cerimónia de graduação foi o antigo Presidente norte-americano Bill Clinton, que o incentivou a seguir uma carreira na política.

Abdul El-Sayed lembrou, numa entrevista, que apreciou o conselho de Bill Clinton, mas respondeu-lhe com frontalidade e pragmatismo: “Já viu o meu primeiro nome?” O recém-eleito senador concluiu a licenciatura em 2007 — seis anos após o 11 de Setembro —, numa altura em que existiam vários preconceitos contra os muçulmanos nos Estados Unidos, o que tornava uma carreira política nacional praticamente inviável.

A aposta na carreira passou, em primeira instância, pela Medicina. Ainda enquanto estudante, liderou uma missão médica no Peru, onde ajudou a abrir uma clínica gratuita. Rumou depois ao Reino Unido para estudar na Universidade de Oxford com uma bolsa de estudo, onde concluiu o doutoramento em Epidemiologia, obtendo mais tarde o título de médico pela Universidade de Columbia. A religião — muçulmana sunita — teve um grande impacto na escolha da profissão, como Abdul El-Sayed confessou ao invocar o Corão: “A minha religião ensina-me que quem salva uma vida é como se salvasse toda a humanidade. Lembro-me de ler esse versículo com o meu pai quando era miúdo.”

No entanto, o gosto pela política nunca ficou esquecido. Desde que iniciou a carreira como epidemiologista, assumiu cargos públicos na gestão da saúde pública no Michigan. Em 2018, candidatou-se nas primárias a governador do estado, contando com o apoio de figuras da ala progressista e dos democratas-socialistas, como Bernie Sanders e Alexandria Ocasio-Cortez. Porém, acabou por ser derrotado nas primárias por Gretchen Whitmer.

"A minha religião ensina-me que quem salva uma vida é como se salvasse toda a humanidade. Lembro-me de ler esse versículo com o meu pai quando era miúdo."
Abdul El-Sayed, candidato eleito para o Senado

Tendo em conta a sua profissão, defendeu sempre uma forte aposta na saúde pública, bem como uma tributação mais elevada para os mais ricos. Contudo, rejeitou sempre o rótulo de “socialista”. “Acredito que o capitalismo tem de ser regulado. Acredito que os bilionários deveriam pagar a sua parte para que as nossas crianças possam ir para boas escolas. Não é assim tão radical”, destacou. Aliás, nunca pertenceu aos Socialistas Democráticos da América (DSA), a organização posicionada mais à esquerda do Partido Democrata, preferindo manter-se autónomo.

Apoiar a Irmandade Muçulmana? As polémicas de Abdul El-Sayed

O background de Abdul El-Sayed sempre foi alvo de duras críticas por parte dos seus oponentes políticos. Enquanto muçulmano, o senador eleito manteve uma posição abertamente crítica em relação à guerra na Faixa de Gaza, acusando o governo israelita de perpetrar um “genocídio” e de impor um regime de “apartheid” nos territórios palestinianos. Os adversários usaram essa postura para tentar relacioná-lo com organizações radicais, nomeadamente a Irmandade Muçulmana.

No Egito, a Irmandade Muçulmana — movimento próximo do Hamas — manteve-se sempre popular: em 2012, na sequência da Primavera Árabe e após a queda do Presidente Hosni Mubarak, o grupo chegou mesmo ao poder, acabando mais tarde por ser deposto pelo atual Presidente, Abdel Fattah el-Sisi. A mãe de Abdul El-Sayed terá mantido ligações no passado à Agência de Ajuda Islâmica Americana (IARA), classificada pelas autoridades norte-americanas como uma organização terrorista e que terá funcionado como um dos tentáculos da Irmandade.

Durante toda a campanha eleitoral, estas alegadas ligações familiares à Irmandade Muçulmana foram sempre questionadas. E Abdul El-Sayed fez sempre questão de garantir que “nunca foi” membro da organização radical egípcia. Questionado sobre as ligações da mãe, o médico explicou que não foi criado por ela, mas sim pelo pai e pela madrasta: “Eu nunca tive essas conversas com a minha mãe. Não fui criado por ela”.

Nas redes sociais, também surgiram informações de que o senador eleito teria dito que os Estados Unidos “tinham merecido” o 11 de Setembro. Contudo, quem fez essa afirmação foi Hasan Piker, um conhecido influencer progressista de quem Abdul El-Sayed é próximo. Confrontado sobre se subscrevia essas declarações, o médico demarcou-se e caracterizou-as como “estúpidas”.

Outro dos traços frequentemente apontados a Abdul El-Sayed é a arrogância. Donald Trump já o classificou dessa forma, mas essa perceção é até transversal em alguns setores do Partido Democrata. A forma confiante, assertiva e por vezes confrontacional como fala valeu-lhe esse rótulo. Ainda esta terça-feira, logo após votar, envolveu-se numa troca de palavras com um jornalista da Sky News.

https://twitter.com/SkyNews/status/2117766605572645068

Esse estilo, juntamente com algumas das suas políticas (principalmente em relação a Israel), incomoda alguns democratas mais ao centro. No Partido Democrata, veem-se com alguma apreensão algumas medidas da candidatura de Abdul El-Sayed. A maior parte dos correligionários, ainda assim, aceitou a sua nomeação após a vitória das primárias e tentaram apoiá-lo. Uma das poucas exceções? A sua antiga rival nas primárias para o Senado.

A apenas 48 horas das intercalares, no domingo, a democrata Haley Stevens decidiu retirar o apoio ao seu antigo adversário nas primárias e endossar o candidato republicano, Mike Rogers. Num vídeo no X, assinalou que Abdul El-Sayed não a queria na campanha do Partido Democrata: “Devia afastar-me”. “Ele tinha razão. Eu vou votar no Mike Rogers para o Senado. Eu não pertenço à campanha de Abdul El-Sayed”. “As pessoas do Michigan não valorizam o ódio, que é o que está a ser transmitido pelo candidato democrata”, sinalizou.

https://x.com/haleyformi/status/2116945962706862397?a=HF73UkzqzPKqG5IKLYE&s=48

Na origem da rutura, terá estado a forma como Abdul El-Sayed lidou com a questão de Israel.

El-Sayed venceu. E pode abrir um novo capítulo para os democratas

Independentemente das tensões que surgiram entre os mais centristas, certo é que Abdul El-Sayed venceu as eleições para o Senado. Obteve 2,5 milhões de votos, correspondentes a 53% da votação, enquanto o rival Mike Rogers se ficou pelos 45%. A vitória do médico foi particularmente expressiva em redor da cidade de Detroit, onde obteve 71% dos votos.

A campanha foi bastante dura. Mike Rogers acusou-o de ser “arrogante” e de “se preocupar mais com Gaza do que com Israel”. Abdul El-Sayed foi também alvo de várias críticas do Presidente norte-americano, que ridicularizou o seu nome: tanto lhe chamou “Mohammed”, como “Abdul Ramadão”. E rotulou-o inclusivamente como um “jihadista”. Para os republicanos do movimento Make America Great Again (MAGA), o recém-eleito senador era um alvo fácil — e também uma oportunidade para polarizar o discurso, mobilizando os eleitores conservadores no Michigan.

Nas presidenciais, o Michigan costuma ser um swing state — onde tanto vencem os democratas como os republicanos. Em 2024, Donald Trump venceu no estado, quatro anos após Joe Biden ter garantido o colégio eleitoral. Já nas eleições para o Senado em 2026, Abdul El-Sayed optou por responder na mesma moeda aos republicanos: atacou Donald Trump, Mike Rogers e vários membros da administração. Para o médico, o fogo combate-se com fogo.

Às vezes, pisava a linha. Chegou a ridicularizar o secretário da Defesa, Pete Hegseth, por ser “péssimo nos desportos” quando era estudante. Chamou-o ainda de “mini bully estúpido”, sendo Donald Trump um “bully estúpido” e o vice-Presidente um “graxista”. Através destes insultos e até de alguma troça, Abdul El-Sayed soube capitalizar a impopularidade de muitos norte-americanos com a administração Trump.

https://twitter.com/Eddie_Mugoh/status/2115643488767455713

Em simultâneo, apostou num discurso focado no custo de vida, um assunto que está a inquietar muitos norte-americanos. Fez dos bilionários outro dos alvos nos seus discursos e culpou Donald Trump pela subida do preço dos combustíveis e pela inflação. O lema da campanha de Abdul El-Sayed era simples: “Tirar o dinheiro da política, colocar dinheiro no bolso das pessoas e aprovar a Medicare [seguro de saúde] para todos”. Mesmo sendo apenas um senador e incapaz de garantir essas políticas por si só, o médico usou um estilo populista e deu voz à revolta que muitos habitantes do Michigan sentem pela situação económica do país.

A estratégia foi propositada, admitiu o médico em entrevista. “As pessoas estão realmente furiosas, muito, muito furiosas. Não confiam nos democratas porque não acreditam que os democratas vão realmente lutar pelas coisas pelas quais dizem lutar”, assinalou Abdul El-Sayed. No Partido Democrata, os mais centristas ainda acreditam que há algum tipo de cooperação possível com a administração Trump. Para o senador recém-eleito, não há — e o confronto é o estilo escolhido.

Como escreve o New York Times, os progressistas democratas quiseram testar “a política de esquerda musculada” nas urnas no Michigan. Para os centristas e mais moderados (mesmo aqueles que o apoiaram), “foi um risco”. Ainda assim, o risco compensou. E isso pode transformar-se num problema para o establishment do Partido Democrata, que recusa este tipo de discurso e prefere uma abordagem mais conciliadora e medidas menos radicais.

"As pessoas estão realmente furiosas, muito, muito furiosas. Não confiam nos democratas porque não acreditam que os democratas vão realmente lutar pelas coisas pelas quais dizem lutar."
Abdul El-Sayed

Apesar de todas as facções internas, o Partido Democrata manteve-se praticamente unido durante a campanha e após a vitória nas intercalares. No entanto, a experiência de Abdul El-Sayed pode ser replicada noutras eleições — e, quem sabe, nas presidenciais marcadas para 2028. Os centristas e moderados podem ver outros candidatos idênticos a surgir e o partido começar a ser dominado pelos mais progressistas, pelo discurso e pelos temas em discussão.

A tensão é visível no Partido Democrata: os jovens das grandes cidades e as minorias étnicas identificam-se com discursos mais progressistas e de esquerda, como o de Abdul El-Sayed. Porém, esta abordagem corre o risco de afastar potenciais eleitores, especialmente em estados mais conservadores, onde uma postura mais centrista resulta melhor.

Abdul El-Sayed mostrou que uma voz progressista e bem confrontacional pode vencer num swing state — os mais progressistas vão apontar notas sobre a estratégia que escolheu. Ainda que tenha beneficiado da impopularidade de Donald Trump, o senador eleito soube como cativar os eleitores cansados do aumento do custo de vida. No Senado, o médico filho de pais egípcios já prometeu conservar o mesmo estilo combativo.