(c) 2023 am|dev

(A) :: "O meu sonho tornou-se realidade, estou no clube do meu coração." Paulo Fonseca fala pela primeira vez como treinador do Sporting

"O meu sonho tornou-se realidade, estou no clube do meu coração." Paulo Fonseca fala pela primeira vez como treinador do Sporting

Menos de 24 horas depois da vitória frente ao Shakhtar Donetsk, o Sporting apresentou Paulo Fonseca em Alvalade. Treinador diz estar a concretizar "um sonho", Varandas explicou saída de Rui Borges.

Mariana Fernandes
text

Chegou na terça, foi apresentado na quarta. Um dia depois de aterrar no Aeroporto Humberto Delgado, em Lisboa, Paulo Fonseca foi apresentado como o novo treinador do Sporting no Estádio José Alvalade — e com a certeza de que, mais do que ouvir o que tinha para dizer, os adeptos leoninos queriam perceber as explicações de Frederico Varandas sobre a mudança de equipa técnica.

No Business Hub do Estádio José Alvalade e não junto à porta 10A, o mítico local que recebeu as apresentações de Ruben Amorim, João Pereira e Rui Borges, Paulo Fonseca foi apresentado a uma hora pouco expectável — 20h, mesmo em cima do apito inicial do FC Porto-Nápoles para a Liga dos Campeões no Dragão, fugindo ao típico horário leonino das 19h06 para assinalar o ano de fundação do clube. Antes de o treinador tomar a palavra, porém, Frederico Varandas deu as justificações que tinha prometido no início da semana no aeroporto, à partida para Londres, antes do jogo contra o Shakhtar Donetsk.

https://x.com/SportingCP/status/2118071810935673039

“A minha primeira palavra vai para o mister Rui Borges e a sua equipa técnica. Agradecer por estes quase dois anos de um excelente trabalho em prol do clube. A segunda palavra vai para Tiago Fernandes e a sua equipa técnica, para o profissionalismo com que encararam e desempenharam esta ingrata missão de em pouco tempo dirigir a equipa, com pouca preparação, como tiveram de fazer”, começou por dizer, elencando depois todos os feitos de Rui Borges em Alvalade, entre a conquista do bicampeonato e a dobradinha com a Taça de Portugal, para além dos quartos de final da Liga dos Campeões, antes de explicar a decisão de mudar de treinador.

“Porquê esta decisão agora e não há um mês ou três ou quatro? De forma muito resumida. Há cerca de um mês, no final de setembro e num evento da Federação Portuguesa de Futebol, perguntaram-me porque é que não despedia Rui Borges, com três empates e a perda de seis pontos. A nossa análise era muito simples: não tomamos decisões exclusivamente por resultados, não são os resultados em si que ditam decisões e para nós, como disse, esse início de Campeonato, essa perda de pontos, deveu-se a fatores extraordinários como autogolos e fatores que não controlamos. O Sporting foi superior a todos os adversários e merecia ter vencido esses jogos”, acrescentou.

“Recentemente tivemos uma semana que ficou marcada por duas derrotas em casa, contra LASK e Académico de Viseu. Ao contrário da perda de pontos desse período que acabei de descrever, o Sporting não foi superior aos seus adversários. E isso, não só as derrotas como a própria gestão interna dessas derrotas, levou-me a tomar a decisão de não continuarmos o ciclo de Rui Borges. Foi a nossa decisão. Não tenho problemas em assumir. Mas decidi, avaliando a confiança que precisava de ter no projeto e defendendo os interesses do clube”, sentenciou.

https://observador.pt/2026/11/04/a-confirmacao-do-que-ja-todos-sabiam-paulo-fonseca-vai-ser-o-novo-treinador-do-sporting/

Por fim, antes de responder às perguntas dos jornalistas, o presidente leonino abordou naturalmente a contratação de Paulo Fonseca. “Conheço-o há mais de um ano, fomos falando sobre o que é futebol e há, entre nós, uma conexão, na forma de estar e de ser. Também posso revelar que tinha o sonho de trabalhar com ele. Mas ele sempre foi claro, não queria voltar a Portugal. Ficou sempre muito claro que queria continuar no top 5 europeu. Nunca mostrou a mínima abertura para voltar”, revelou.

“Após o jogo com o Académico de Viseu, no dia seguinte, falei com ele com um conteúdo diferente. Lancei o desafio de assumir a liderança e, nos dias seguintes, percebi uma abertura por parte de Paulo Fonseca, mesmo que embrionária. Tendo tomado a decisão, após o Académico de Viseu, de mudar de treinador, jamais a tomaria sem ter a certeza de que teria um treinador desta valia. É um treinador cujo currículo fala por ele. Tem craveira e dimensão europeia, ganhou vários títulos e é um orgulho podermos atrair um treinador como ele”, atirou.

Respondendo a algumas perguntas dos jornalistas, Frederico Varandas começou por abordar o mercado, garantindo que a revolução do plantel foi feita “100% em consonância” com a equipa técnica, lembrando que “não foi opcional”, foi “sim ou sim”, e por Rui Borges até teria sido maior. Mais à frente, sobre se falou com o então treinador sobre o facto de ter o lugar em risco, o presidente leonino defendeu-se. “Sei que Rui Borges sabe disto: não vai passar por um clube que o tratou com a dignidade que o tratámos aqui. A seguir ao jogo do Casa Pia disse-lhe tudo. É uma pessoa perspicaz. Percebeu, a seguir ao jogo com o Académico de Viseu, mesmo sem falarmos, que algo se ia passar”, garantiu.

https://x.com/SportingCP/status/2118098240906412283

“Durante ano e meio era questionado sobre por que o mantinha e agora perguntam-me porque é que o despedi. O Sporting de Rui Borges sempre foi dominador, superior aos seus adversários. Numa semana, tivemos dois jogos onde não fomos e a gestão interna foi determinante na minha decisão. Os pormenores ficam entre mim e o mister Rui Borges”, vincou. Por fim, nas últimas perguntas, Frederico Varandas assumiu ainda a responsabilidade pelo momento desportivo do clube.

“O presidente do Sporting é responsável por tudo o que se passou aqui desde 2018. Agora avalie o que era o Sporting antes e o que é agora. Na segunda-feira, após o Académico de Viseu, lancei o convite a Paulo Fonseca. A seguir ao jogo do Casa Pia não tinha o treinador fechado. O Sporting está acima de tudo e achei que manter Rui Borges era o melhor para vencer o Casa Pia. Li sobre faltas de respeito… O único sítio, ou melhor, as únicas pessoas que o trataram com respeito, desde 2024, fomos nós. A começar pela imprensa. Chega a ser caricato ouvir que ele foi tratado com falta de respeito. O único local onde ele foi tratado com respeito e dignidade foi aqui. Rui Borges, hoje, está triste, mas não está revoltado nem magoado com o presidente do Sporting. Defendi-o como nunca ninguém o fez”, explicou.

Por fim, revelou ainda o que se passou para Rui Borges decidir nem sequer orientar a equipa esta terça-feira, em Londres, contra o Shakhtar Donetsk. “Coloquei em cima da mesa dois cenários: ‘quer interromper o ciclo ou quer ir a Londres?’. Eu queria muito que fosse, porque queria que tivesse mais uma página de ouro no Sporting, o treinador do Sporting com mais vitórias na Champions. Desafiei-o. Não declinou. Disse que não estava para aí virado, pensou umas horas e disse que não. A verdade é uma: temos nove pontos de atraso para o FC Porto, quatro para o Benfica, obviamente que estamos a falar de uma luta a três. É fácil a missão? Não. Mas faltam muitas jornadas. Sabemos bem a qualidade daquele plantel, o que quer, e temos muita, muita confiança na qualidade técnica desta equipa”, garantindo que “ficaria muito surpreendido” se Paulo Fonseca saísse até ao fim do seu mandato, em 2030.

https://x.com/SportingCP/status/2118100235243360577

Logo a seguir, foi a vez de Paulo Fonseca tomar a palavra. “Em primeiro lugar, agradecer ao presidente e à estrutura pela confiança depositada em mim, na minha equipa técnica e no meu trabalho. Regresso a Portugal 10 anos depois. Após passar por grandes equipas, diferentes Campeonatos… Como o presidente disse, tive sempre a preocupação de estar no top 5, e nos últimos sete anos estive no top 5 na Europa. E isso deveu-se à minha preocupação com o meu crescimento. A verdade é que tive sempre em mente continuar nos melhores Campeonatos, a defrontar os melhores treinadores, jogadores, por forma a chegar hoje aqui melhor preparado. E a verdade, confesso, é que acho que estou no momento certo para ser treinador do Sporting. É o momento em que me sinto melhor preparado para enfrentar este desafio”, começou por dizer.

“Sou profissional, mas não posso deixar de dizer que este clube sempre foi especial para mim. Sou adepto desde criança. Cresci a vibrar com o Jordão, o Manuel Fernandes, depois com o Carlos Xavier, Litos, Mário Jorge, Balakov, Douglas… E obviamente que isso pesou imenso no momento em que o presidente me endereçou o convite. Há sonhos que se tornam realidade. E o meu sonho tornou-se realidade. Estou no clube do meu coração”, completou o treinador, que já deu o primeiro treino durante a tarde na Academia de Alcochete.

“Uma coisa que me atraiu e motivou bastante é a qualidade deste jovem plantel. Estou extremamente motivado para trabalhar com jovens de qualidade em quem acredito imenso. Tenho a certeza de que vamos construir coisas especiais para o Sporting todos juntos. Estou plenamente consciente de que é um momento importante para o Sporting. Aquilo que posso dizer é que estou extremamente empenhado e motivado em representar este enorme clube, com uma enorme história, onde os nossos adeptos revelam uma paixão única. Num clube diferente. Sim, o Sporting é um clube diferente. Tenho a noção de que tenho uma tarefa que é extremamente motivadora. Construir uma equipa que jogue um futebol que orgulhe todos os sportinguistas. Sou um adepto do bom futebol e aquilo que prometo é grande dedicação, muito trabalho. Para que sempre que os sportinguistas observem a nossa equipa se sintam orgulhosos. E com a consciência de que fizemos sempre tudo para ganhar”, defendeu, deixando ainda “uma palavra de apreço” a Rui Borges.

https://x.com/CabineSport/status/2118077376324333704

Mais à frente, Paulo Fonseca garantiu estar “consciente do momento” dos leões. “A minha preocupação neste momento é conhecer a fundo os jogadores. Uma coisa é o que vemos, outra é trabalhar diariamente com eles. E grande preocupação em fazer progredir a equipa, melhorar. Obviamente com as minhas ideias. E não estou a dizer que são melhores ou piores do que as do mister Rui Borges, são diferentes. Estou totalmente empenhado em fazer perceber aos jogadores aquilo que quero que eles executem. Acredito que isso vai levar-nos a ser uma equipa mais forte. E que possa entrar em todos os jogos com um único objetivo: vencer”, acrescentou.

Em resposta aos jornalistas, Paulo Fonseca lembrou que “é difícil dizer que não” quando existe a “possibilidade de concretizar um sonho”. E eu senti, como já disse, que este era o momento ideal. É o momento em que me sinto mais preparado para estar à altura das exigências de um clube como o Sporting. Naturalmente, as pessoas em Portugal recordam-se muito daquilo que foi o meu trajeto cá. Saí para o estrangeiro com a clara ambição de progredir e evoluir. Tive a preocupação de estar nos melhores Campeonatos, embora, e confesso, tenha tido muitos convites para a Arábia, para o Brasil… Mas o meu objetivo sempre foi continuar no top 5 para me preparar para este momento”, atirou.

Por fim, apesar dos nove pontos de distância que o Sporting já tem para o FC Porto, Paulo Fonseca lembrou que “no futebol não há impossíveis”. “Mas devo dizer que estou muito mais focado no processo, na evolução da equipa e nas respostas às nossas ideias e propostas. E dizer também que o tempo não é muito. O tempo para treinar, preparar… Vamos tentar preparar da melhor forma a equipa, para sermos muito ambiciosos no próximo sábado”, terminou, deixando ainda a certeza de que telefonou a Rui Borges, algo que não aconteceu no AC Milan com… Sérgio Conceição.

https://observador.pt/especiais/o-central-inspirado-em-quinito-e-jj-o-sonho-do-pacos-e-o-falhanco-do-fc-porto-a-fuga-de-kiev-paulo-fonseca-o-novo-zorro-do-sporting/

“Claro que houve um telefonema. Foi na altura em que começaram a sair essas notícias de que o Rui tinha recusado o meu telefonema. Ontem tive o prazer de falar com ele. Uma conversa muito aberta e honesta, entre dois treinadores que entendem, sem qualquer tipo de hipocrisia, estes momentos. E a verdade é que estive bastante tempo à conversa com o Rui. Uma conversa super agradável, de respeito, grande admiração, como já confessei noutras alturas. Às vezes, criam-se problemas onde as coisas são perfeitamente normais. Até lhe posso contar uma história. Eu estava no AC Milan e estava a disputar um jogo com a Roma e o treinador que me veio suceder já estava contratado. Tive de tirar as minhas coisas à pressa no dia a seguir porque o novo treinador queria entrar. E a verdade é que não recebi nenhum telefonema a seguir a isso… Mas acreditem que nem tinha de o fazer. As coisas são assim. Eu não levei a mal. As coisas são assim. E nós devemos, sem qualquer tipo de hipocrisia, perceber que este tipo de processos é assim. É natural”, concluiu.

Paulo Fonseca assinou até 2030 e os leões vão então pagar cinco milhões de euros aos franceses, que acabaram por abater uma dívida aos portugueses que dizia respeito às mais-valias da venda de Afonso Moreira, jogador formado em Alcochete, ao Bayer Leverkusen. Fica com um salário de cerca de três milhões de euros anuais e muda-se com toda a equipa técnica, incluindo o adjunto Paulo Ferreira, antigo internacional português que foi campeão europeu no FC Porto, e também o preparador físico Paulo Mourão, o treinador de guarda-redes António Ferreira e o analista Nélson Duarte.

Aos 53 anos, Paulo Fonseca regressa a Portugal uma década depois de ter deixado o país, na sequência da saída do Sp. Braga. O treinador natural de Nampula, Moçambique, começou por treinar os juniores do Estrela da Amadora, clube onde terminou a carreira de jogador, passando depois por 1.º Dezembro, Odivelas, Pinhalnovense e Desp. Aves antes de chegar à Primeira Liga à boleia do P. Ferreira. Na Mata Real, foi o responsável pela melhor temporada da história dos pacenses, com um terceiro lugar que garantiu a inédita qualificação para a Liga dos Campeões.

Mudou-se depois para o FC Porto, onde foi despedido antes do final da temporada de estreia e ainda conquistou uma Supertaça Cândido de Oliveira, e regressou ao P. Ferreira. Seguiram-se então os minhotos, onde venceu a primeira Taça de Portugal do clube em 50 anos, e começaram as aventuras além-fronteiras: Shakhtar Donetsk, onde alcançou a dobradinha nos três anos que passou na Ucrânia, Roma, onde foi despedido e substituído por José Mourinho, Lille, AC Milan e finalmente o Lyon, onde estava desde janeiro de 2025.

Estreia-se já no próximo sábado, em Alvalade, contra o Moreirense e na 11.ª jornada da Primeira Liga. As duas semanas seguintes são de paragem para os compromissos das seleções nacionais, mas o recomeço é de dificuldade acrescida: depois da receção ao União da Serra na quarta ronda da Taça de Portugal, segue-se o Manchester United, na Liga dos Campeões, o FC Porto no Dragão, no Campeonato, e a Roma, novamente na Liga dos Campeões, com um jogo contra o Marítimo também para o Campeonato pelo meio.