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PS entra na reunião de habitação com Montenegro "sem linhas vermelhas". Mas quer acabar com renda moderada de 2.300 euros

Na véspera da reunião com Montenegro, PS destaca cinco medidas na habitação — e garante que contas públicas não serão afectadas. Quer isenção de mais-valias na venda de segunda casa até 300 mil euros.

Rita Tavares
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O PS vai entrar na residência oficial do primeiro-ministro para a reunião da habitação “sem linhas vermelhas” e com “espírito aberto”. A garantia foi dada pelo vice-presidente da bancada parlamentar António Mendonça Mendes, que destacou as cinco principais medidas que o partido vai colocar em cima da mesa negocial. Os socialistas querem acabar com o valor de referência, de 2.300 euros, de “renda moderada” para o acesso a benefícios fiscais e querem isenção de mais-valias na venda de uma segunda casa, mas com uma limitação: só se o valor de venda for até 300 mil euros.

Estas foram as principais novidades dos detalhes apresentados esta quarta-feira depois de uma reunião da direção da bancada parlamentar do PS com o líder do partido, na sede socialista em Lisboa. António Mendonça Mendes destacou cinco medidas entre as propostas que o PS tem para a habitação, que “protegem a vulnerabilidade, ajudam a equilibrar e dar garantia ao mercado relativamente ao arrendamento” e que “promovem a colocação de casas no mercado”, garantiu.

Uma das principais medidas do PS passa por acabar com a “renda moderada” de 2.300 euros, “que inflaciona seguramente os preços”, considerou o deputado na conferência de imprensa desta manhã. O PS quer que os benefícios fiscais no arrendamento voltem a depender de critérios de acessibilidade das rendas e não apenas de um tecto nacional com um valor “só compatível com alguém que não viva na realidade do país”, atirou Mendonça Mendes.

Em causa está o incentivo que permite aos senhorios beneficiarem de uma taxa autónoma de IRS de 10% nos contratos de arrendamento com rendas até 2.300 euros. No programa de arrendamento acessível, criado em 2019, para ter isenção de IRS, o senhorio tinha de praticar uma renda abaixo do valor de referência da casa e respeitar os limites definidos pelo concelho. A renda também tinha de ser compatível com os rendimentos da família. O PS quer precisamente “voltar para a lógica da renda acessível em termos de benefícios”, explicou o deputado Mendonça Mendes.

Ainda no arrendamento, o PS já disse que quer que o Governo arquive as alterações à lei que está a negociar com o Chega e que comece a negociar do zero, com a proposta socialista como base. Os socialistas opõem-se à eliminação dos limites às cauções e às rendas antecipadas e defendem a criação de uma garantia pública para um seguro de renda acessível.

“Para nós é muito importante que a nova lei das rendas não crie mais instabilidade. Não exija às pessoas entregarem mais cauções, não exija às pessoas entregarem mais rendas antecipadas”, afirmou o deputado socialista. Defendeu também um travão ao aumento das rendas, tendo como limite a “inflação mais 2%”. “Vamo-nos bater pela justeza destes argumentos”, avisou o deputado socialista.

Quanto à garantia pública nos contratos de arrendamento, apresentou-a como uma forma de “proteger os inquilinos que estão em situação de vulnerabilidade, mas também proteger aqueles que se dispõem a colocar o seu património e têm o direito à sua remuneração.”

O PS propõe ainda uma moratória até 31 de dezembro de 2027, para os contratos de arrendamento que terminam até ao final deste ano. Ao primeiro-ministro, os socialistas vão propor que a medida avance de imediato, para ainda proteger esses contratos antes de terminarem. Caso o Governo não aceite, o PS apresentará um projeto de lei autónomo, explicou ao Observador fonte do partido. Para os contratos que expirarem no próximo ano, o PS vai avançar com uma proposta de alteração ao Orçamento do Estado que vai no mesmo sentido.

Já a proposta sobre a isenção de mais-valias na venda de casas, com que o PS também avançará, já não é uma novidade, mas o deputado socialista adiantou detalhes. O benefício só se aplicará à venda de segundas habitações que se encontrem em “zonas de pressão urbanística” (áreas delimitadas pelos municípios como aquelas em que há dificuldade no acesso à habitação) e cujo preço de venda não ultrapasse os 300 mil euros. A casa tem também de se destinar a morada permanente do novo proprietário.

Outra novidade adiantada foi sobre a forma de financiamento das câmaras na cedência de património habitacional do IHRU. Segundo o deputado, as câmaras teriam os meios financeiros necessários à requalificação daquele património através de um fundo financiado pela banca comercial nacional e garantido pelo Estado. O PS quer que o Estado “passe para os municípios a gestão desse parque habitacional do IHRU, para que os municípios, em proximidade com as populações, possam disponibilizar de forma mais rápida e mais célere as casas à população”, afirmou António Mendonça Mendes.

O socialista garantiu que o PS vai para a negociação “sem linhas vermelhas” e que vai “de espírito aberto, mas é muito importante que o Governo perceba que 2.300 euros de renda não é uma renda moderada em lado nenhum em Portugal”, voltou a afirmar o deputado quando confrontado pelos jornalistas com as condições que coloca para a negociação que começa esta quinta-feira.

Sobre o impacto destas medidas que propõe nas contas públicas, o socialista diz que existe uma contabilização feita, mas não adiantou o valor. Apenas afirmou que “quanto mais as medidas custarem, mais eficazes elas são, porque mais casas colocam no mercado”, defendendo que o momento é para “não regatear esforços para colocar mais casas no mercado. E por isso, se uma medida custar muito dinheiro, significa que essa medida experimentou a disponibilização de casas acessíveis para a classe média no mercado. E isso é algo que deve ser prioridade de todos.” Apenas garante que “as contas certas vão manter-se. Em tudo o que depender do PS, o saldo orçamental pode sair exatamente como está. É uma questão de escolhas”, afirmou ainda.

Quanto às medidas que já existem e que foram tomadas pelo Governo e que o PS já criticou por terem “aquecido o mercado”, como as isenções fiscais na compra de casa por jovens, os socialistas não admitem intervir para as retirar. “Penso que chegou o momento de o Governo perceber que as medidas que tomou, ainda que pudessem ter uma boa intenção, tiveram muitas vezes efeitos contraproducentes”, afirmou Mendonça Mendes, empurrando a decisão para o Executivo.

A reunião de José Luís Carneiro com o primeiro-ministro será esta quinta-feira ao final da tarde, tal como acontecerá também com o líder do Chega, o outro partido que foi chamado a São Bento para falar sobre medodas para a habitação. Os outros partidos com representação parlamentar vão reunir-se no Parlamento, na próxima sexta-feira com os ministros das Finanças, das Infraestruturas e dos Assuntos Parlamentares.

https://observador.pt/2026/11/03/se-estiver-de-boa-fe-e-possivel-carneiro-admite-acordo-nas-rendas-apos-montenegro-convocar-ps-para-reuniao/