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A conquista das duas câmaras do Congresso norte-americano pelos democratas, além de ser um duro golpe político para Donald Trump, deverá limitar a capacidade do Presidente americano para avançar com a sua agenda económica nos dois últimos anos de mandato, afirmam os economistas nas primeiras reações aos resultados da noite eleitoral. Embora mantenha poderes executivos importantes, incluindo o veto presidencial que já tinha ameaçado usar com frequência, a autoridade sobre as tarifas e o controlo da política externa, Trump terá agora de enfrentar uma oposição capaz de bloquear iniciativas legislativas e condicionar as negociações orçamentais, numa fase em que as contas públicas dos EUA estão numa situação cada vez mais preocupante.
Para já, a primeira reação dos mercados financeiros pode resumir-se da seguinte forma: contratos futuros dos índices bolsistas em queda ligeira (S&P 500 caem 0,3% e os do Nasdaq descem 0,4%), fazendo antecipar uma abertura moderadamente negativa dos mercados acionistas, e o dólar também perde algum terreno face às principais divisas rivais. Os futuros bolsistas, embora continuem em queda ligeira, recuperaram de uma descida que chegou a superar os 2%, quando se começou a perceber a magnitude da vitória que os democratas iriam ter.
Os economistas consultados pelo Observador convergem na previsão de um período de maior bloqueio político, embora divirjam na avaliação das consequências económicas. Holger Schmieding, do Berenberg Bank, antecipa um abrandamento do crescimento americano para cerca de 1,5% em 2028 e, por consequência, um menor contributo dos EUA para o crescimento global, por força da provável ausência de novos estímulos orçamentais e da previsível desaceleração do investimento em inteligência artificial. Por outro lado, a política de restrição da imigração levada a cabo por Trump poderá limitar, ainda mais, o crescimento.
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John Plassard, da gestora suíça Cité Gestion, admite que o impacto da vitória democrata poderá ser menos negativo para os mercados financeiros do que aquilo que intuitivamente se poderá vaticinar. Uma menor capacidade de Trump para aumentar a despesa pública ou aprovar cortes orçamentais sem financiamento poderá reduzir as necessidades de emissão de dívida e tranquilizar os investidores em obrigações – o que tem sido um fator que tem induzido alguma instabilidade nos mercados mundiais.
As taxas de juro das obrigações norte-americanas estão, para já, a baixar dois pontos-base, uma descida ligeira, para 4,94% no prazo de referência a 10 anos, segundo a Bloomberg. O volume negociado, porém, é baixo e não permite tirar grandes conclusões sobre o rumo do mercado obrigacionista na primeira sessão após a vitória dos democratas.
Se, por um lado, a ausência de novos estímulos orçamentais poderá penalizar o crescimento, por outro, poderá aliviar a pressão sobre a dívida pública americana e, por aí, beneficiar o mercado obrigacionista, defende John Plassard. O analista adverte, contudo, que “um Congresso controlado pelos democratas não oferece absolutamente nenhuma garantia de redução do défice” e, perante um risco de um novo shutdown (paralisação dos serviços públicos), “o risco de bloqueio nas negociações orçamentais poderá aumentar a volatilidade dos mercados”.
Donald Trump terá, agora, de lidar com um Congresso totalmente controlado pela oposição, enquanto os EUA enfrentam uma inflação persistente, tensões energéticas e custos de financiamento público historicamente elevados. Para os mercados financeiros, a questão não é simplesmente quais as reformas que serão bloqueadas, mas se esta nova configuração política poderá alterar as perspetivas orçamentais, os juros da dívida e os lucros das empresas”, afirma John Plassard.
Também um relatório da Optimize Investment Partners, assinado pelo conselheiro Steen Jakobsen, aponta para um cenário de “impasse, não reversão“. Os democratas ganham capacidade para bloquear iniciativas, investigar a administração e condicionar o financiamento, mas Trump mantém instrumentos importantes de poder. “Os democratas ganham o poder de dizer não, de fazer perguntas e de empatar“, sintetiza o economista.
Um dos setores mais expostos à mudança política será o da inteligência artificial. Os três analistas identificam riscos associados ao aumento da regulação e aos investimentos em centros de dados. Plassard destaca um provável maior escrutínio sobre o consumo de eletricidade e água por parte desse setor tecnológico, enquanto a análise da Optimize antecipa que as restrições poderão começar sobretudo ao nível estadual, antes de começarem a verter-se em leis federais, aumentando os custos e os prazos de construção das infraestruturas.
Ainda assim, os fabricantes de semicondutores e os fornecedores de equipamentos tecnológicos poderão continuar a beneficiar da elevada procura estrutural associada à expansão da IA, antecipam os analistas. John Plassard, em particular, diz que a principal questão será perceber quais as empresas que conseguem financiar os seus investimentos através da atividade operacional e quais dependem mais dos mercados de dívida ou de novas emissões de ações. As empresas com balanços sólidos, receitas recorrentes e capacidade de gerar liquidez deverão estar mais bem posicionadas, admite o especialista.
Steen Jakobsen, ligado à Optimize Investment Partners, destaca outros setores que podem sentir um impacto mais positivo ou mais negativo deste resultado. Um daqueles onde prevê um impacto positivo é o da Saúde, sendo previsível que os democratas tentem reverter os cortes no sistema de saúde Medicaid. Para o setor da Defesa, porém, o impacto será “misto ou negativo”.
Guerra e preços da energia. Trump sob pressão para reabrir Estreito de Ormuz
A guerra com o Irão e os preços da energia, que terão contribuído decisivamente para o desaire eleitoral do Partido Republicano, são outro dos fatores destacados pelos economistas. Cerca de 74% disseram, numa sondagem à boca das urnas, que a guerra com o Irão foi um fator crucial ou importante para a forma como votaram.
Os eleitores reprovaram, diz Holger Schmieding, a “tendência autoritária de Trump para o capitalismo de compadrio“, mostrando que os “pesos e contrapesos do sistema norte-americano, afinal, até funcionam”.
Neste contexto, o economista do Berenberg Bank prevê que a pressão política extra poderá levar Trump a procurar um acordo com Teerão que permita reabrir o Estreito de Ormuz. O banco alemão prevê que o Brent desça para 75 dólares por barril no final de 2027 e para uma média de 65 dólares em 2028, bem abaixo dos níveis atuais. A Optimize também considera que a derrota eleitoral poderá aumentar os incentivos para uma solução negociada, embora Trump mantenha o controlo das decisões militares.
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Apesar dos riscos, Plassard rejeita que a vitória democrata seja necessariamente negativa para as bolsas americanas: “O primeiro erro seria interpretar esta vitória democrata como um sinal automático para vender ações americanas“.
Historicamente, as ações americanas tendem a valorizar-se nos 12 meses seguintes às eleições intercalares, destaca o economista suíço. Desde 1982, o S&P 500 subiu quase sempre durante esse período, sendo 2002 a principal exceção na amostra analisada. John Plassard sublinha que os mercados reagem sobretudo à evolução das perspetivas económicas e nota que a composição política do Congresso terá tido influência variável, ao longo da história, com muitos outros fatores a entrar em jogo em cada momento.
Para Holger Schmieding, o principal fator que poderá aumentar a aversão ao risco nos mercados está ligado à geopolítica. “Como alguém que procura incessantemente atenção, sem uma estratégia consistente a longo prazo, Trump pode ficar ainda mais ansioso por se aventurar em situações geopolíticas perigosas”, diz o economista.
Para Schmieding, tornou-se agora “muito provável que o Congresso não lhe conceda fundos para uma campanha dispendiosa semelhante à guerra com o Irão – mas Cuba talvez deva preocupar-se”, destaca. “Provavelmente, teremos de nos preparar para um ruído significativo na política externa nos dois últimos anos da presidência de Trump“, avisa o economista.