Quando a nostalgia chega no momento certo, é quase mágica. Não é escapismo nem negação do presente, é crença num otimismo que por vezes parece esquecido: às vezes, o que é preciso é dançar. A noite desta terça-feira na MEO Arena foi uma daquelas em que a nostalgia acertou. O mais recente álbum de originais do grupo, Danse Macabre, é de 2023, mas é à década de 80 que a multidão que acorre aos concertos quer ir — para recordar ou para descobrir. E na quinta passagem por Portugal, os Duran Duran deram uma lição pop, própria de uma banda que ajudou a definir as regras desse mesmo jogo. Nada mais simples.
Estão mais velhos, eles e quem os vê, os miúdos de outrora agora na meia-idade, ali reunidos para recordar outros tempos ou para afirmar que aquelas canções também servem de banda sonora para hoje. Ali estavam também os que não conheceram esta rapaziada no passado, os que herdaram o gosto ou que o descobriram mais recentemente, porque a influência dos Duran Duran não desapareceu e não é apenas coisa do passado. Responsáveis por êxitos espalhados ao longo de mais de quatro décadas, e ainda que muitas vezes apresentados como “banda do meu tempo”, os ingleses mostraram que continua ser impossível fugir de Hungry Like the Wolf, Save a Prayer, Wild Boys ou Girls on Film.


As anteriores passagens pelo território nacional (a última foi há quatro anos no Rock in Rio) cimentaram a existência de um público português fiel ao grupo de Birmingham. Quem foi agora à MEO Arena não foi diferente: alguns rostos jovens, um ou outro apontamento de espectadores estrangeiros, a grande maioria quarenta e cinquentões, os fãs de sempre. Na antecâmara, a banda tinha prometido “um espetáculo para todos os sentidos”. Todos menos o sentido de pontualidade, com o concerto a começar atrasado e o público a fazer notar depressa a sua impaciência.
Pelas 21h30, com alguns assobios à mistura, a MEO Arena lá escureceu, os holofotes verdes no palco revelando uma a uma as silhuetas dos membros da banda. Simon Le Bon, por último claro, entrou de rompante com Is There Something I Should Know, single de 1983 – “you’re about as easy as nuclear war”, um verso com mais de quarenta anos e no entanto tão atual. Não sendo exatamente a mesma, a voz continua lá, o mesmo carisma e expressividade que o tempo, felizmente, não apagou. Atrás do vocalista, a projeção de vídeo repartia-se em painéis de banda desenhada, retratando os músicos nos tempos áureos da fama e da juventude.
O desdobramento de êxitos seguiu rápido na parte inicial: o punk dançável de Wild Boys, com dedo de Nile Rogers, a grandiosidade de A View to Kill, tema-chave do homónimo filme de James Bond, ou uma Hungry Like the Wolf precedida de um bem-humorado Le Bon a instruir o público a uivar, em sintonia com o tema que revelou os Duran Duran ao público norte-americano e consagrou a banda como um dos exemplares máximos da “Geração MTV”.


Depois do arranque a todo o gás, seguiu-se um necessário abrandamento com passagens por Super Lonely Freak, tema do recente disco Danse Macabre (2023) – perfeitamente à vontade entre os clássicos no alinhamento, ainda que o público compreensivelmente não acompanhasse ao mesmo ritmo – e por versões de Evil Woman, dos Electric Light Orchestra e do hino funk Super Freak de Rick James. A seguir, tempo para The Reflex, um dos maiores êxitos da banda, pop futurista que não perdeu validade nem nervo.
Depois de um breve interlúdio com uma versão encurtada de Only in Dreams, de 2015, e do B-side de 1986 Winter Marches On, veio um dos momentos da noite. “Acreditamos que o mundo vai ser melhor amanhã, depois do período negro que atravessamos”, afirmou Le Bon, pedindo aos presentes para pensar naqueles “para quem a vida não é fácil, que lutam pela paz e pela felicidade… que lutam por um mundo normal”. Eis então Ordinary World, momento político sem o ser, momento para os casais e para o slow dancing ao som de uma balada soft rock definidora do início dos 90.
Come Undone, do mesmo período, bom exemplo da capacidade da banda se ir readaptando aos tempos e às mudanças de gosto. E o clássico Notorious, as teclas intermitentes de Nick Rhodes a darem guia de marcha para a dança, mantiveram a toada. E mesmo o desvio por temas menos conhecidos, como o recente Free to Love (que dá o nome à atual digressão), de novo uma colaboração com o guitarrista dos Chic, iam gerando interesse pela produção audiovisual que acompanhava a atuação – uma ode aos programas musicais de estúdio dos anos 70, completo com bailarinos, transições coloridas e a estética vintage do período.


A energia manteve-se em alta quando chegou a vez de escutar Planet Earth – ainda que aqui se deva notar um certo cunho de inteligência artificial às imagens na superimposição audiovisual (Nick Rhodes, responsável pela imagética dos concertos, já admitiu alguma utilização da tecnologia neste domínio). Nada que detivesse as quase 20 mil pessoas na MEO Arena, claro, todas de pé para a parte final: White Lines, a toada rock do tema de 2004 (Reach Up for the) Sunrise (mais uma vez há que destacar pela positiva a voz de John Le Bon, ainda a nível alto aos 68 anos); e, finalmente, o maior coro da noite para Girls on Film, com a banda a pedir sorrisos ao público para “ficar bem na fotografia”, interpelada a meio por uma aparição de Psycho Killer, dos Talking Heads, em jeito de medley.
Para a encore, a incontornável Save a Prayer, com as lanternas dos telemóveis da MEO Arena ao alto. “Parece uma pequena galáxia”, resumiu o vocalista, satisfeito com o cenário, antes de deixar o público a cantar sozinho o refrão; e o synth de Rio, single do segundo e homónimo álbum de 1982 e uma favorita dos fãs. Na projeção de despedida, um carro rumo a um por-do-sol néon, como nos filmes mais pop.