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(A) :: As esquerdas são as suas piores inimigas

As esquerdas são as suas piores inimigas

Hoje, a posição de José Luís Carneiro no PS está mais frágil do estava antes das manifestações. E a liderança das esquerdas revolucionárias pelo PCP e pelo Bloco pode estar ameaçada. 

João Marques de Almeida
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É difícil de entender as celebrações das esquerdas sobre a decisão da juíza Ana de Campos. A sentença do tribunal ajuda o governo a resolver um problema. A partir de agora, a polícia deixa de intervir (a não ser que haja casos de violência, apesar de tudo improváveis). Em primeiro lugar, porque deve respeitar uma decisão judicial. Depois, porque a própria juíza decidiu que após a meia-noite os protestos devem ser não só totalmente pacíficos como absolutamente silenciosos. Sem intervenção policial, não há confusão com os manifestantes. Sem confusões, as televisões vão deixar de se interessar pelos protestos. E se as televisões não aparecerem, as manifestações não existem.

Em segundo lugar, ao colocar um limite temporal, a decisão do Tribunal Administrativo de Lisboa limita a pressão dos manifestantes para o governo deixar cair a lei do arrendamento. Por isso, foi estabelecida uma data, com uma certa arbitrariedade, que coincide com o fim da discussão do orçamento. Ora, a discussão na especialidade da lei do arrendamento só começará depois da aprovação do orçamento.

Julgo que a maioria dos portuguesess percebeu muito bem as motivações políticas dos protestos (um bom serviço prestado pelas televisões). São grupos de extrema-esquerda que se opõem à democracia liberal e representativa, e à economia de mercado. São grupos que desejam uma revolução socialista; e têm todo o direito, mas uma enorme maioria dos portugueses é contra, e há mais de 50 anos. Foi isso que a maioria dos portugueses viu. E isso vai muito além da habitação. Houve ainda um ponto que não me escapou. Muitos dos manifestantes identificam-se como ambientalistas, mas não se portam como tal. O lixo que os acampamentos deixam é uma vergonha e uma falta de respeito pelo espaço público.

Mas há igualmente outros pontos políticos relevantes. Ao contrário do que dão a entender, o PCP e até o Bloco e o Livre preocupam-se muito com estes protestos. Nestas manifestações podem aparecer novos líderes das extremas-esquerdas. Os actuais movimentos da esquerda radical querem substituir partidos como o PCP, que estão associados a derrotas históricas. Também querem ter mais sucesso político do que o Bloco, reduzido a um deputado. Hoje, o rosto dos protestos é Renata Cambra, não é Mariana Mortágua. Tal como o Livre ultrapassou o Bloco e o PCP, pode aparecer destas manifestações um novo partido que deixe para trás o PCP, o Bloco e o Livre. Não tenho qualquer dúvida que os líderes destes três partidos estão preocupados.

Finalmente, estas manifestações mostraram mais uma vez as profundas divisões no interior do PS. De um lado, estão militantes como Ascenso Simões e Fernando Medina ou Francisco Assis. Do outro lado, estão os activistas como Pedro Nuno Santos e Pedro Delgado Alves. José Luís Carneiro está no meio. Pensa como os primeiros, mas não o pode dizer por causa das pressões da ala esquerdista do partido. PNS percebeu que estas manifestações permitiam recuperar a ideia da “geringonça”. Naturalmente, PNS acha que é quem está em melhores condições de liderar uma nova “geringonça”. PNS nunca perdeu o desejo de voltar a liderar o PS. Quer aproveitar as manifestações como uma rampa de lançamento para o regresso à liderança do seu partido. Hoje, a posição de José Luís Carneiro no PS está mais frágil do que estava antes das manifestações. E a liderança das esquerdas revolucionárias pelo PCP e pelo Bloco pode estar ameaçada.