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Os rankings e o Ensino Artístico Especializado



A contribuição do Ensino Artístico Especializado para a educação ultrapassa largamente os resultados académicos ou a formação daqueles que um dia poderão seguir uma carreira artística.

Carlos Pinto da Costa
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Voltaram a ser publicados os rankings das escolas, construídos a partir dos resultados das provas e exames nacionais de 2025. Mais uma vez, as escolas do Ensino Artístico Especializado, públicas e privadas, surgem em lugares de destaque. No ensino secundário, a Academia de Música de Santa Cecília, em Lisboa, ocupa o 4.º lugar da classificação geral, enquanto a Escola Artística do Conservatório de Música do Porto lidera entre as escolas públicas. Nas provas do 6.º ano, a Escola de Música São Teotónio, em Coimbra, alcança o 5.º lugar, e o Conservatório de Música Calouste Gulbenkian de Braga surge em 8.º, sendo a escola pública mais bem classificada. No 9.º ano, este conservatório ocupa também o primeiro lugar entre as escolas públicas, prolongando, pelo terceiro ano consecutivo, a liderança das escolas artísticas neste setor.

Estes resultados levam a uma discussão que já conhecemos: a influência da aprendizagem musical no desenvolvimento intelectual e no sucesso escolar das crianças e dos jovens. Multiplicam-se as referências aos benefícios da música para o cérebro, à disciplina exigida pela aprendizagem de um instrumento e à ideia de que os alunos que estudam música têm melhores resultados nas restantes disciplinas.

Quem trabalha há muitos anos no Ensino Artístico Especializado reconhece muito do que está por trás destas afirmações. A prática musical exige concentração, persistência, organização e hábitos de trabalho que acompanham os alunos ao longo do seu percurso escolar. Parece-me difícil aceitar que uma criança que desenvolve estas capacidades durante vários anos não possa beneficiar delas quando estuda Matemática, Português ou qualquer outra área do conhecimento.

Em 2020, Giovanni Sala e Fernand Gobet publicaram uma análise de 54 estudos experimentais, envolvendo cerca de sete mil crianças, que encontrou efeitos praticamente nulos da formação musical nas capacidades cognitivas gerais e no desempenho académico, quando considerados os estudos com metodologias mais rigorosas. No entanto, investigações posteriores têm identificado benefícios em funções executivas específicas, como o controlo inibitório e a memória de trabalho, embora a dimensão desses efeitos continue a ser discutida.

Não está, assim, demonstrado que aprender música melhore automaticamente as notas a Matemática. Mas também seria redutor concluir que os processos desenvolvidos durante uma formação musical cuidada não podem contribuir para outras aprendizagens. Aprender um instrumento implica desenvolver métodos de trabalho que dificilmente ficam confinados à música. Uma criança aprende a identificar problemas, a dividi-los em partes, a estabelecer objetivos, a repetir de forma consciente, a avaliar resultados e a corrigir procedimentos. Aprende que a dificuldade nem sempre se resolve com uma resposta imediata e que o progresso exige tempo e paciência. São ferramentas intelectuais que podem ser utilizadas noutras áreas, sobretudo quando a própria educação ajuda os alunos a reconhecer essa possibilidade.

Em 2013, a OCDE publicou uma extensa revisão sobre o impacto da educação artística, assinada por Ellen Winner, Thalia Goldstein e Stéphan Vincent-Lancrin. O estudo analisou os possíveis efeitos das artes sobre outras aprendizagens, sublinhando a necessidade de distinguir associações estatísticas de relações causais demonstradas. Mas deixou, também, a ideia particularmente importante de que a educação artística tem valor educativo próprio, independentemente dos benefícios que possa produzir noutras disciplinas.

Olhemos para o que acontece numa escola de ensino artístico especializado. Uma criança de 10 anos que frequenta o ensino articulado de música tem aulas de instrumento, formação musical e prática de conjunto. Precisa de estudar em casa, organizar o seu tempo e assumir responsabilidade pelo trabalho que apresenta semanalmente. Uma passagem musical pode exigir semanas de estudo até ser executada com segurança. Tocar em público exige preparação e capacidade para gerir a ansiedade. Numa orquestra, cada aluno tem de ouvir os colegas, ajustar a sua intervenção e contribuir para um resultado coletivo.

Ainda, há uma dimensão particularmente interessante em todo este processo: o aluno precisa de desenvolver critérios próprios de qualidade, não bastando executar corretamente as notas. É necessário compreender a obra que está a ser tocada, construir uma interpretação, encontrar soluções expressivas e justificar escolhas. As respostas não são únicas e o professor tem de criar condições para que o aluno pense artisticamente, para além de dominar tecnicamente o instrumento.

A dança e o teatro desenvolvem processos igualmente exigentes, em que o corpo, a emoção, a memória e o pensamento são trabalhados de forma integrada. São aprendizagens que exigem continuidade e profundidade, e cujos resultados ultrapassam a aquisição de conhecimentos técnicos.

É, por isso, que defendo que a formação artística deve ocupar na educação um lugar tão sério como aquele que atribuímos às restantes disciplinas. O seu valor não depende de conseguir melhorar uma classificação a Português ou a Matemática, embora possa contribuir para a forma como essas aprendizagens são desenvolvidas. A educação artística trabalha dimensões da inteligência, da sensibilidade e da experiência humana que merecem atenção por si mesmas.

Esta questão ganha uma dimensão maior quando olhamos para as capacidades que a sociedade vai exigir às próximas gerações. O relatório Future of Jobs 2025, do Fórum Económico Mundial, estima que 39% das competências atualmente utilizadas no trabalho se transformarão ou ficarão desatualizadas até 2030. As competências tecnológicas estão entre as que mais rapidamente ganham importância, mas o pensamento criativo, a resiliência, a flexibilidade e a curiosidade também surgem entre as capacidades cuja procura deverá aumentar.

Percebe-se por quê. A inteligência artificial já consegue produzir textos, analisar documentos, escrever código e executar, em segundos, tarefas que até há pouco tempo exigiam muitas horas de trabalho humano. Se uma máquina consegue produzir rapidamente uma resposta tecnicamente competente, o que passa a distinguir o trabalho de uma pessoa? A capacidade para formular boas perguntas, interpretar contextos, avaliar propostas, tomar decisões e criar soluções que não resultam apenas da aplicação de procedimentos conhecidos. Muito do que acontece num ensaio musical exige precisamente este tipo de exercício mental.

Entrando agora num domínio que é sobretudo o da minha convicção pessoal, se as máquinas vão realizar uma parte crescente das tarefas que hoje ocupam o nosso tempo, talvez devamos perguntar onde continuará a residir o valor daquilo que fazemos enquanto seres humanos. Acredito que uma parte importante dessa resposta estará nas atividades que desenvolvemos pelo prazer, pelo desafio e pelo significado humano que lhes atribuímos.

O xadrez é um exemplo particularmente interessante para caracterizar o meu ponto de vista. Em 1997, o computador Deep Blue venceu Garry Kasparov, então campeão mundial. Hoje, programas acessíveis num telemóvel conseguem jogar melhor do que os melhores jogadores do planeta. Poderíamos imaginar que isso retiraria interesse à competição humana, mas aconteceu o contrário. A plataforma Chess.com ultrapassou os 200 milhões de membros em 2025 e as pessoas continuam a querer jogar e a acompanhar competições entre jogadores humanos. Interessa-lhes o talento, a preparação, a capacidade de decidir sob pressão e até a possibilidade de errar.

Na arte e no desporto encontramos a mesma valorização da experiência humana. Admiramos o atleta que ultrapassa os seus limites e o músico que, “vulnerável”, se apresenta diante do público. O resultado importa, mas também a experiência de alguém que se emociona, que arrisca, que pode falhar e que constrói, naquele momento, algo irrepetível. A tecnologia pode reproduzir resultados e até superar capacidades humanas, mas isso não elimina o valor que atribuímos à pessoa que os realiza.

Acredito, por isso, que a criação artística, o desporto, a curiosidade intelectual, a capacidade de apreciar o belo e o prazer de participar em experiências culturais e coletivas terão uma importância crescente na forma como organizamos a nossa vida.

Neste sentido, que preparação estaremos a dar às novas gerações para uma sociedade em que muitas das tarefas atuais poderão ser realizadas por máquinas e em que o pensamento próprio, a criatividade, a sensibilidade e a experiência humana poderão adquirir um valor ainda maior?
Se queremos preparar crianças e jovens para esse futuro, precisamos de dar à aprendizagem artística, à atividade física e ao desporto o mesmo cuidado e exigência que dedicamos às aprendizagens tradicionalmente consideradas centrais. Devem ser dimensões integrantes de uma educação equilibrada, capaz de desenvolver diferentes capacidades humanas.

As escolas do Ensino Artístico Especializado desenvolvem este trabalho há décadas, através de percursos de formação exigentes e continuados, acompanhando milhares de crianças e jovens ao longo de uma parte significativa da sua escolaridade. Os resultados que agora voltam a surgir nos rankings são motivo de satisfação, mas mostram apenas uma pequena parte daquilo que estas escolas fazem e, sobretudo, do que os seus alunos aprendem. A sua contribuição para a educação ultrapassa largamente os resultados académicos ou a formação daqueles que um dia poderão seguir uma carreira artística.

Naturalmente, o Ensino Artístico Especializado não tem de ser o percurso de todas as crianças. É uma formação que exige interesse, aptidão e disponibilidade para um trabalho aprofundado. Mas há muitos alunos que gostariam de o frequentar e não encontram essa oportunidade. Para todos os outros, existe uma necessidade, igualmente importante, de garantir o acesso a uma educação artística de qualidade, com continuidade e exigência, através de diferentes modelos de aprendizagem, integrados no percurso escolar.

É também aqui que as escolas do Ensino Artístico Especializado têm muito para contribuir. O conhecimento pedagógico e artístico que acumularam, a experiência dos seus professores e a capacidade de desenvolver projetos educativos podem e devem chegar a um universo muito mais alargado de crianças e jovens. A qualidade da formação artística não deve ficar limitada aos alunos que escolhem um percurso especializado, deve fazer parte de uma visão mais abrangente da educação, em que a música, a dança e o teatro ocupem um lugar compatível com a importância que lhes reconhecemos no desenvolvimento humano.