(c) 2023 am|dev

(A) :: "A Bola Negra": um filme feito de excessos

"A Bola Negra": um filme feito de excessos

Javier Calvi e Javier Ambrossi realizaram "A Bola Negra", um filme "queer" passado em três épocas diferentes e cujo fio condutor é uma peça perdida de Lorca. Eurico de Barros dá-lhe duas estrelas.

Eurico de Barros
text

Há não só uma, mas várias bolas negras neste filme dos espanhóis Javier Calvi e Javier Ambrossi. A bola simbólica do título da peça de teatro homónima e inacabada de Federico García Lorca (só existem quatro páginas), que é central à intriga do filme, e os realizadores ficcionam como completa, mas perdida, durante a Guerra Civil; e as bolas que em 1932, um dos três tempos da fita e no qual se expõe a história da dita peça, impedem, numa votação por maioria, a entrada do jovem e dandy Carlos (Milo Quifes), pertencente a uma família abastada e considerada de Granada, no mais selecto clube desta cidade, por correrem rumores de que ele é homossexual.

[Veja o “trailer” de “A Bola Negra”:]

https://www.youtube.com/watch?v=7UZVupCH6xc

O segundo tempo de A Bola Negra decorre em 1937, durante a Guerra Civil, envolvendo Sebástian (o músico e cantor Guitarricadelafuente), um jovem que sobreviveu ao massacre da sua aldeia, por aviões italianos enganados no alvo, e foi integrado nas tropas nacionalistas; e que, numa daquelas coincidências forçadas mesmo para obras que tomam liberdades narrativas e biográficas justificadas pelo enredo, é destacado para vigiar um prisioneiro de guerra republicano ferido, Rafael Rodríguez Rapun (Miguel Bernardeau). Este, ao contrário do ficcional Sebástian, existiu mesmo, jogou futebol e foi actor na companhia teatral de Lorca, La Barraca, e amante dele, e acabou fuzilado. Rafael apresenta a poesia do autor a Sebástian, e este apaixona-se por ele.

O terceiro tempo da fita passa-se em 2017. Alberto (Carlos González ), um jovem historiador gay que está na Grécia a fazer pesquisas para um trabalho, e que juntamente com a mãe, com a qual está há muito incompatibilizado, foi abandonado pelo pai quando era pequeno, recebe a notícia da morte do avô paterno, que lhe deixou uma herança, tendo que se deslocar ao interior de Espanha e contactar um advogado para saber de que se trata. Irá então ter ali uma revelação única e saber coisas que ignorava sobre a história da sua família, e a ligam à peça perdida.

[Veja uma entrevista com Guitarricadelafuente e Miguel Bernardeau:]

https://www.youtube.com/watch?v=t-g840PkHgY

Tendo os irmãos Almodóvar entre os produtores, e um argumento assinado pelos dois realizadores e por Alberto Conejero, inspirado na peça deste La Piedra Oscura, e na obra incompleta de Lorca que lhe dá o título, A Bola Negra ganhou o Prémio de Realização no Festival de Cannes. A fita empunha explicitamente o estandarte queer e explora, entre o solene, o arrebatado e o intimista, temas como a intolerância, a repressão social e o auto-silenciamento da homossexualidade, em especial na Espanha dos anos 30 em sangrenta convulsão fratricida, e os custos e consequências de a querer manifestar e viver livre e abertamente, face à incompreensão e condenação da sociedade. Chamando à colação para o efeito, e de novo com muita – ou até demasiada – licença, a figura de García Lorca.

[Veja uma sequência do filme:]

https://www.youtube.com/watch?v=PHd_D7UCfPE

Javier Calvi e Javier Ambrossi rodaram um filme todo ele em excesso. Excesso emocional, ao apontarem por sistema ao efeito melodramático-“poético” (ver apenas a sequência em que o moribundo Carlos fala com a neve nas montanhas); excesso de empolamento visual e sonoro, no caso dos espectadores não entenderem bem o que lhes estão a contar; excesso narrativo, através do emaranhado enredo, sempre a saltitar entre o presente e o passado; excesso demonstrativo, nos diálogos muito explicados e nas situações “esticadas” ou repisadas para lá do necessário; e excesso de zelo, pelo vitimismo insistentemente sublinhado e enfatizado das personagens, e no mais que óbvio simbolismo de sofrimento (as referências a São Sebastião). A Bola Negra abusa da hipérbole enquanto ignora a existência da elipse, e arrasta-se por mais de duas horas e meia.

Ante interpretações masculinas medianas ou indiferentes, Penélope Cruz cai do céu aos trambolhões numa cupletista itinerante, Nené, que atua para uma plateia a abarrotar de soldados nacionalistas aluados, um dos raros momentos mais conseguidos da fita; Glenn Close faz, em 2017, uma académica americana perita em Lorca, que assevera com toda a seriedade que, antes dela, no livro que veio apresentar, nunca em Espanha se havia escrito sobre a homossexualidade do autor; e no papel da mãe negligente e drogada de Alberto, Lola Duenãs parece ter transitado directamente de um filme de Pedro Almodóvar para este. A Bola Negra quer-se relevante e intenso, lírico e grandiloquente, mas fica-se por ser programático e prolixo, sentimentalão e inchado.