(c) 2023 am|dev

(A) :: Ébola. Médico diz que é pouco provável estirpe Bundibugyo chegar a Portugal

Ébola. Médico diz que é pouco provável estirpe Bundibugyo chegar a Portugal

Portugal prepara-se para estas eventuais situações da atual estirpe de Ébola, sendo que o problema prende-se mais com o perfil de pessoa potencialmente infetada e tipo de cuidados que possa vir a ter.

Agência Lusa
text

O médico português Jaime Nina considerou à Lusa que existe possibilidade de a atual estirpe de Ébola que está a afetar a África Central chegar a Portugal, mas é pouco provável que isso aconteça.

“É possível. Não é provável. Ainda que haja uma comunidade portuguesa muito grande, talvez mais de 100 mil pessoas no Congo, eles estão no Congo Ocidental. Portanto, perto de Kinshasa (a capital), até por afinidades com Angola”, justificou, em entrevista à Lusa.

Segundo o especialista, “há, pelo menos no papel, um sistema de encaminhamento dos casos. Em Lisboa, se for adulto, vai para o Hospital Curry Cabral, se for criança, vai para a Estefânia, que têm serviços de isolamento estrito”.

Para o médico, Portugal prepara-se para estas eventuais situações, sendo que o problema prende-se mais com o perfil de pessoa potencialmente infetada e o tipo de cuidados que esta possa vir a ter.

Jaime Nina explicou que o Ébola é “uma família de vírus” e, até ao momento, “estão descritas seis espécies de Ébola“, que “são muito próximas de outros dois vírus, nomeadamente o Marburgo, que originou um grande surto no Norte de Angola há cerca de 20 anos”.

Segundo o especialista em infeciologia e medicina tropical, estes vírus estão presentes em animais, particularmente morcegos, e são uma zoonose, ou seja, infeção que se transmite ao ser humano.

A transmissão direta entre morcegos e humanos é rara, acrescentou, pois há pouco contacto entre si, por isso, o que, por norma, acontece é uma rede de contágios. Por exemplo: do morcego para um macaco e de um macaco para um humano.

Além disso, o Ébola tem a particularidade de se poder transmitir mesmo após a morte e, segundo o professor jubilado do Instituto de Higiene e Medicina Tropical da Universidade NOVA de Lisboa (IHMT-NOVA), um dos eventos em África onde há grandes contágios são os enterros.

Apesar de não ser uma prática homogénea em todo o continente, em “muitas das etnias (africanas) é típico as pessoas despedirem-se do morto com um beijo. Ou com contactos muito próximos”, referiu.

“Claro que se o morto estiver há uma semana já não está contagioso, mas se for no próprio dia ou no dia seguinte à morte, ele pode estar contagioso e muitas vezes está”, acrescentou.

A República Democrática do Congo (RDCongo), nação vizinha de Angola, e epicentro, pelo menos desde maio, de uma epidemia de Ébola pela variante Bundibugyo já tinha registado mais de 10.000 infeções e perto de 5.000 mortos.

Sobre o que se sabe sobre esta estirpe, para a qual não há ainda vacina, Jaime Nina respondeu que “aparentemente, este já é o terceiro surto de Bundibugyo, ainda que de longe o maior. Aparentemente é muito semelhante no período de incubação, no quadro clínico, na taxa de mortalidade – ou seja, o número de mortes a dividir pelo número de casos – das outras”.

O epicentro desta epidemia foi declarado em Ituri, no leste da RDCongo, precisamente uma zona assolada por outras doenças, como a cólera, a malária, o Monkeypox, mas também por conflitos armados que duram há dezenas de anos.

Considerando que esta pode ser uma crise dentro de outra crise, alertou para o possível negligenciamento de outras doenças e recordou um episódio passado: “Por exemplo, na experiência da África Ocidental, os Médicos Sem Fronteiras, em 2014, fizeram um estudo na Guiné-Conacri e na Serra Leoa, onde a maior causa de morte em ambos os países, no pico da epidemia, não foi o Ébola, foi a malária”.