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David Fonseca: "Só somos adultos a partir dos 40. Demoramos muito tempo a entender o mundo"

"Radiante Estrela Cadente" é o segundo álbum que o músico compõe e grava em português. Em entrevista explica porquê, fala sobre a tranquilidade que encontrou, os "haters", serigrafia e ponto cruz.

Andreia Costa
text
Francisco Romão Pereira
photography

David Fonseca é “um artista que está a tentar”. A descrição é do próprio, curta e precisa, substituindo a lista de todos os feitos que podíamos usar neste texto introdutório. Sente que se referem a um morto cada vez que se enumeram discos, anos de carreira e sucessos para falar de um músico — e também deste músico em particular. Por isso, tentemos ser breves, até porque é difícil, por esta altura, não saber quem ele é.

Depois de ter marcado uma geração com os Silence 4, conta com uma carreira a solo com mais de 20 anos e edita, a 5 de novembro, Radiante Estrela Cadente, o segundo disco em português. Esteve três anos a trabalhar nestas canções, gravou muita coisa na arrecadação do prédio onde vive, em Lisboa, e ensaia agora para o que lhe dá mais gozo: tocar ao vivo. Há concertos a 21 de novembro, na Super Bock Arena, no Porto, e a 28 de novembro, no Sagres Campo Pequeno, em Lisboa.

O tédio foi, desde miúdo, o incentivo para fazer experiências, da música à fotografia, e todos os anos elabora listas de coisas novas que quer começar. Segue-se o ponto cruz, uma atividade que que pode ajudar a desligar-lhe o caos constante que tem na cabeça — ou assim acredita o “artista que está a tentar”. Mas, isso, só lá para 2027.

https://open.spotify.com/intl-pt/album/4Iaib4CWqAkVmTt6e3cpre?si=yISQJJP3RwmUVKtqFwdUzA

Radiante Estrela Cadente é um disco inteiramente em português. Porquê?
Quando fazemos música durante muito tempo há um problema, que é manter a vontade para que tudo o que estamos a fazer tenha um certo caráter de novidade. Fazer um disco em português, para mim, é como fazer o difícil segundo disco [tinha apenas um álbum em português no currículo, Futuro Eu (2015)]. Cheguei a uma altura na minha vida em que achei que fazer um disco em inglês era fácil, era mais um. E fazer um disco em português ia ser um desafio de novo, bastante difícil. Foi mais um desafio individual do que outra coisa qualquer.

Geralmente, havia uma máquina de escrever que o acompanhava quando estava a trabalhar num disco novo, era assim que escrevia. Aconteceu o mesmo?
Sim, usei mais do que uma até, acompanham-me nestas loucuras da criação. Este disco que até já foram dois, porque o primeiro rascunho foi para o lixo. Podia ter sete canções feitas e pensar “não é isto”. Deitei tudo fora e comecei do zero.

Não guarda para mais tarde?
Não, nem nunca mais as ouvi. As canções são fruto de uma coisa que me está a acontecer agora, que vejo agora. Este processo acabou por ser muito longo.

O que é muito longo?
Três anos. Fiz este disco um bocadinho em todo o lado, em várias alturas. Houve canções que começaram em sound checks, outras de férias em Peniche, outras em minha casa ou na arrecadação.

Na arrecadação?
Sim, literalmente na arrecadação. Tenho um estúdio em casa, mas às vezes não gosto muito dele, sinto que me oferece demasiadas opções. Montei um estúdio B na arrecadação, onde mal caibo, mas que me faz lembrar como era fazer música quando comecei. Não tenho lá quase nada, a não ser uma guitarra, um microfone e um teclado. É fechado e escuro, mas gosto daquilo. Tenho lâmpadas e fotos por todo o lado e um poster da Madonna.

Há uns anos, numa entrevista que lhe fiz, falou de um poster da Madonna que tinha por cima da cama quando tinha uns 16 anos. É o mesmo?
Exatamente. Emoldurei-o, está todo bonito.

A arrecadação é uma espécie de cápsula do tempo para o passado, é isso? Era lá que estavam guardadas cassetes antigas que redescobriu agora?
Quando estava na arrecadação e não tinha ideia nenhuma, remexia em caixas. Estavam lá umas cassetes que não tinham nada escrito. Comecei a pô-las no rádio e ali estavam canções que fiz com 15, 16 anos.

"Nunca sonhei ser músico, aquilo não era uma estrada para um sítio. Pelo contrário, não significava nada, era diversão pura. Há coisas que devemos guardar como diversão pura. Até estraguei um bocadinho a música porque passou a implicar muitas outras coisas. Mas espero guardar entusiasmo."

Originais?
Sim. São todas horrendas, mas há uma de que gosto particularmente, chama-se Um Dia Vamos Todos Morrer e tem a marcha fúnebre lá pelo meio. Ri-me muito, mas lembro-me de gravar aquelas cassetes no quarto da casa dos meus pais. Lembro-me do meu ânimo, do entusiasmo de fazer aquilo e perceber isso nas cassetes foi uma coisa maravilhosa. Hoje sinto exatamente a mesma coisa quando estou a gravar algo pela primeira vez e fiquei feliz de reconhecer aquilo, porque o entusiasmo, no geral, é das coisas mais rápidas a morrer quando crescemos.

O entusiasmo era apenas diversão, sem grandes objetivos?
Nunca sonhei ser músico, aquilo não era uma estrada para um sítio. Pelo contrário, não significava nada, era diversão pura. Há coisas que devemos guardar como diversão pura. Até estraguei um bocadinho a música porque passou a implicar muitas outras coisas. Mas espero guardar entusiasmo.

A capa deste disco também nasceu desse entusiasmo quase infantil?
Comprei uma máquina fotográfica de crianças que imprime umas fotos a preto e branco, tipo fatura. Das melhores máquinas que já vi na minha vida, porque é barata e dá para experimentar. Comecei a fazer retratos dos meus amigos. Ninguém gostou e eu adorei exatamente porque faz toda a gente extremamente feia. Depois fotografei detalhes, uma cara, uma orelha, um olho e comecei a juntar tudo e a fazer aquilo a que chamei “os meus pequenos monstrinhos”. Soube que tinha ali a capa [o vinil tem uma parte interior completamente diferente que faz lembrar O Principezinho, uma criança]. Tenho 53 anos e estou algures entre as duas coisas.

Há ansiedade nos dias que antecedem o lançamento de um disco ou já só quer passar à fase seguinte?
Zero ansiedade, só quero que ele saia. Gravo o disco praticamente sozinho, neste só participaram dois músicos, o baterista Sérgio Nascimento e o baixista Nuno Simões. Quantas horas, dias, semanas, é que é preciso ouvir essas canções para gravar todos os instrumentos? Obviamente que já deito este disco pelos olhos. Já só quero que ele chegue a outro sítio, que é o palco. Agora temos aquela fase terrível que é a promoção. Antigamente sentavamo-nos à secretária, com os media tradicionais, a falar de música. Hoje as coisas são muito mais focadas nas pessoas do que no trabalho que fazem, tenho de falar de mim próprio em podcasts, é completamente diferente. Às vezes até fico surpreendido quando falam do disco.

As pessoas também querem conhecer a pessoa que faz a música de que gostam? 
Gosto de ter a liberdade de não ter nada para dizer. Às vezes não quero ter opinião, não sinto que seja útil, mas para promover o disco tenho de ter, tenho de dizer o que acho sobre o que está a acontecer ou o que eu faria. Sinto que temos de ter uma opinião e que temos de manifestá-la.

Sente essa pressão?
Não é pressão. Não sinto pressão em quase nada na minha vida, foi um botão que desliguei há uns anos, mas acho que hoje somos todos muito engajados por uma espécie de algoritmo constante onde temos que reagir constantemente a qualquer coisa. Tenho uma frase no disco que é “todos os dias temos vestes para rasgar” e é isso que sinto, que todos os dias somos obrigados a indignar-nos com alguma coisa. Se não, parece que não estamos a ver os outros e não é verdade: estamos a ver. Não sou obrigado a reagir ou a agir da forma como o algoritmo quer que eu faça, recuso muito isso. Aliás, se não tivesse esta profissão, não teria qualquer rede social. Tenho amigos que não têm redes e tenho uma certa inveja porque eles não fazem ideia do que se passa aqui [nas redes sociais] e acho que têm razão. Só que eu tenho que, de alguma forma, dizer às pessoas que vou tocar algures, que os bilhetes já estão à venda, que o meu disco saiu.

Mas usa as redes de uma forma muito pensada e até sarcástica.
Tento fazer das redes sociais uma coisa mais positiva. Tenho muitos vídeos a andar de bicicleta ou a fazer serigrafias.

Também faz montagens colocando-se no centro de notícias geralmente irrelevantes, com artistas estrangeiros. 
Vejo o mundo desta forma. O mundo em geral, as canções, tudo o que faço, é como se estivesse a montar coisas em cartolina e papel. É assim que vejo tudo, muito pouco sofisticado.

Essa forma de ver o mundo está espelhada neste disco.
Sim, no vídeo do Amor sem Pressa, que é todo feito com cartão. Acho que essa simplicidade, de ver como o mundo pode ser desmontado, pode ser engraçada. Tal como os comentários da internet podem ser uma coisa engraçada, aquilo não é uma coisa séria, não é a vida real, portanto quando ponho as pessoas a abrir e a fechar a boca à la Monty Python, dá-me vontade de rir.

Mas não deixa de ser uma crítica.
Uma crítica à forma como as pessoas estão presentes nesta rede, sim. Tenho vindo a reparar ao longo dos anos na forma como repetidamente as pessoas reagem quase exclusivamente àquilo que é negativo. Por exemplo, quando uma pessoa recebe um prémio e uma das primeiras coisas que diz é “isto é para todas as pessoas que não acreditavam em mim”. Ou seja, há um discurso que está subjacente, que é dedicado à parte negativa das coisas. Mas porque é que eu devia pensar nas pessoas que não me apoiaram num momento feliz? Há uma denominação que acho maravilhosa, os haters. São pessoas parvas, mas pessoas parvas eu conheci a minha vida inteira, focar a energia nisso é estranhíssimo.

Anda de bicicleta, faz serigrafia, fotografia, mas quando está a compor obriga-se a estar sentado, em frente a uma página branca. Continua a ser esse o método?
Sim, é um horror, mas gosto de lá estar.

Não arranja desculpas ou outras coisas mais urgentes para fazer?
Sempre, na primeira hora e meia. Foi uma tática que aprendi com um dos membros dos Monty Python, a primeira hora e meia é para fingir que estamos a trabalhar. Penso na conta da luz, lembro-me de uma coisa que não tem nada a ver com aquilo, etc. Tudo isso tem um nome, chama-se preguiça e é igual para todos. Mas gosto desse sítio porque não sei para onde as coisas vão. Pode não acontecer nada, pode acontecer tudo. A maior parte das vezes, as coisas não funcionam. Diria que a cada 20 canções, há meia dúzia que correm bem. Tenho dias e dias e semanas em que não aceito uma única coisa que faço. Os compositores mais jovens estão muito maravilhados com o que fazem. Porquê? Porque foram eles que fizeram.

Também já foi assim?
Claramente. Tem a ver com a vaidade da adolescência, da juventude, acho essa energia boa. Mas quando cheguei aos 25, 26 anos comecei a odiar tudo o que fazia. No segundo disco dos Silence 4, já odiava tudo, tornei-me demasiado crítico com aquilo que estava a fazer.

"Senti-me literalmente invencível porque percebi que tenho o poder de fazer qualquer coisa. As coisas tornam-se cada vez mais claras. Claro que descobri também aos 40 que o corpo não reage da mesma forma, já não consigo andar aos pinotes no palco como antes, mas de resto sinto que é tudo melhor e mais divertido. É mais fácil mandar as pessoas à merda e as coisas não me incomodam metade do que incomodavam, não me exalto com nada."

Quando se odeia tudo, quais são as canções que sobrevivem?
As que são efetivamente especiais. Quando lanço um disco, acredito mesmo que todas as canções do disco são ótimas, fico extremamente orgulhoso delas.

Quando está a compor, tem uma perceção visual de como o videoclip vai ser, como vai ser a capa?
Até acho que é ao contrário. Antes da letra e da música, já sei onde é que a canção se passa, já sei quem são os intervenientes, já sei o que é que os levou até ali, é como um filme na minha cabeça. Um dos temas deste disco nasceu de um riff que gravei num sound check. Estava a brincar com a guitarra, fiz uma coisa de que gostei e gravei. Quando cheguei a casa, fui ouvir e transformei essa linha de guitarra numa voz. E a voz cantava. Mal a voz cantou, a canção ficou feita. Sei onde é este sítio, sei que energia específica é esta, etc. Chama-se Ideal Romântico e, não querendo particularizar, é uma história que vejo há muito tempo e sobre a qual quero escrever há muito. Tem a ver com o facto de quase todas as pessoas terem um ideal romântico, construído geralmente à sua imagem. O ideal romântico não é nada mais do que um espelho. Acho estranho, mas divertido, procurar-se um gémeo.

A ideia de espelho está presente noutro tema, Espelho Meu.
Falo muito sobre a forma como nos vemos, como achamos que somos, o que procuramos efetivamente. Ouço constantemente as pessoas dizerem que não gostaram de determinada pessoa porque ela não “ticks all the boxes” [cumpre todos os requisitos]. Intriga-me que as pessoas pensem assim, que haja uma lista. “Não gostas de verde? Então é para riscar.” Somos pessoas de listas. Mas atenção, isto é uma questão acima dos 30 anos.

Porquê acima dos 30?
Abaixo dos 30 há uma inocência enorme sobre as relações, sobre o futuro e o “para sempre”. O que é que um miúdo de 20 anos sabe? Nada, e ainda bem.

Há uma certa inconsequência também?
Em tudo, adoro. Adoro uma pessoa jovem e inconsequente, acho as coisas inconsequentes extremamente necessárias, é aí que está a base dos sonhos.

Vê isso nos seus filhos?
Uma tem 21, o outro tem 18 — o de oito meses não conta para esta equação. Às vezes dizem coisas com as quais não concordo, mas compreendo. Aliás, estou sempre a empurrar nesse sentido. Devem ser muito mais radicais do que estão a ser. Estão numa fase de extrema liberdade, é quando uma pessoa faz literalmente o que lhe apetece. Tudo o que é inadequado na juventude deve ser feito agora. Têm a sorte de, para já, ser irrelevante ganharem mil ou zero, têm de aproveitar isso porque na vida adulta haverá outras condicionantes.

Não estarão já condicionados pelo que se passa à volta? O custo de vida, os ordenados, a crise na habitação?
Claro, é uma coisa que me preocupa muito porque sou de uma geração em que os pais impingiam a ideia que de que havia duas coisas importantes na vida: tirar um curso superior e ter casa própria. Posso dizer que com o sucesso dos Silence 4, a primeira coisa que fiz foi comprar uma casa. Não só tive um golpe de sorte, como não vivia neste mercado. Hoje, nem com o que ganhava no período de maior sucesso dos Silence 4 conseguiria comprar uma casa. Parto do princípio que os meus filhos vão viver comigo durante muito, muito tempo, o que é um princípio errado. Ainda assim, tento dizer-lhes para não pensarem muito nisso, para já. Se não, não vivem. Estão numa fase que é uma espécie de pós-adolescência.

https://www.youtube.com/watch?v=ivbis_znsUU

Ou pré-adultos.
Pré-adultos é até aos 40. Só somos adultos a partir dos 40. Demoramos muito tempo a entender o mundo em geral. Andei aos trambolhões, de alguma forma. Mas depois dos 40 parece que tudo é melhor, o mundo, as pessoas, as possibilidades.

Notou uma verdadeira mudança aos 40 anos?
Comecei a tornar-me a pessoa que sou realmente. Para o melhor e para o pior, sou esta pessoa. Senti-me literalmente invencível porque percebi que tenho o poder de fazer qualquer coisa. As coisas tornam-se cada vez mais claras. Claro que descobri também aos 40 que o corpo não reage da mesma forma, já não consigo andar aos pinotes no palco como antes, mas de resto sinto que é tudo melhor e mais divertido. É mais fácil mandar as pessoas à merda e as coisas não me incomodam metade do que incomodavam, não me exalto com nada. Gosto das opiniões dos outros e gosto quando são contrárias às minhas para que possamos discuti-las e muitas vezes nem sequer concordar. Caminho no sentido de compreender o mundo melhor, mas ele parece estar cada vez mais dividido. Se emito uma opinião, sou obrigado a estar num dos lados de uma barreira. Mas sou uma pessoa livre, ainda por cima sou artista, não me enquadrem.

E se está de um lado, está automaticamente contra o outro?
Há quem ache isso. Há poucos dias manifestei a minha estupefação em relação à forma como os miúdos foram tratados pela polícia na manifestação [pelo direito à habitação], algo que acho que devia ser natural para todos. Houve uma pessoa que me mandou logo uma mensagem a dizer que já não ia ao meu concerto porque eu não era a pessoa que ela pensava que eu era. E eu pensei: “Ainda bem, espero incomodá-la muito mais”. Também espero, honestamente, que mude de ideias, vá ao concerto e que entenda que uma coisa não tem nada a ver com outra. Não consigo ligar as duas coisas, mas as pessoas ligam. Há cada vez mais esta ideia dos cancelamentos, que acho um absurdo.

Não pensa duas vezes antes de publicar algo no Instagram? Às vezes uma vírgula fora do sítio é suficiente para começar uma polémica.
Não penso, desativo simplesmente os comentários. Por um motivo muito simples: as pessoas acham que aquilo é um espaço público, mas não é, continua a ser a minha página. Voltamos aos haters, sei quem são, também vão aos concertos.

Vão a um concerto de alguém de quem não gostam?
Sim, uma das minhas histórias preferidas aconteceu num concerto onde tinha mesmo à frente dois metaleiros, com crachás, roupa preta e cabelo comprido, que estiveram hora e meia de braços levantados a empunhar um pirete em cada mão. Adorei-os, a energia e a força de vontade que é preciso para estar um concerto inteiro assim? Aqueles putos podiam ser meus amigos e não sabem. Noutra ocasião tive um senhor que aproveitava todas as pausas entre músicas para me insultar. “És um merdas, não serves para nada.”

"Em palco sou o super-herói, o mundo é meu, sinto-me uma espécie de gabarolas da aldeia. E às vezes há uma ou outra coisa que falha e adoro, é o sítio onde gosto mais de estar. Não morro de amores se estiver tudo perfeitinho, quero muito desmontar aquilo à frente das pessoas. No palco, sinto que aquelas canções ganham uma dimensão extra-terrena e passam a ser aquilo que as pessoas acreditam que é."

É preciso algum jogo de cintura para lidar com essas situações?
Não acho. Como é que uma pessoa leva o insulto de uma pessoa que não conhece de lado nenhum a peito? Como é que isso é um ato lógico? Quando fizemos os concertos dos Silence 4, houve um meet & greet. Às tantas, há uma rapariga que diz assim ao marido: “Diz-lhe, diz-lhe agora”. Quando estas coisas acontecem, há uma parte de mim que fervilha logo. Pensei: “Ui, isto vai ser tão bom”. Ele fica muito sério, faz uma pausa e diz: “Não te curto nada, não gosto da tua música, não gosto da tua postura”. Eu perguntei porque é que ele estava ali. Ele disse que tinha sido por vontade da mulher. Perguntei-lhe que nota é que dava. “Um quatro em dez, não foi assim tão mau.” Isto é muito mais engraçado do que triste. Como é que as pessoas ficam tão chateadas com os haters? É a melhor coisa que há. Voltamos à inconsequência da juventude que devíamos guardar para tudo, o facto de não darmos tanta importância a certas coisas. Porque, com a vida adulta chega a outra fase, onde tudo é mais racional.

As pessoas ficam mais cínicas?
Ficam, mas também ficam um bocadinho mais burras. O algoritmo do Tinder, de todas as redes de encontros, tem muita culpa. Resumem o encontro com uma pessoa a uma lista. “Tem um cão na foto, então é porque gosta de animais.” Há uma racionalização dos relacionamentos que me escapa e eu pergunto: “Uma pessoa não pode relacionar-se com qualquer pessoa”? Mas literalmente com qualquer pessoa, de qualquer extrato social, de qualquer gosto. Nunca supus que para um relacionamento amoroso, amigável, seja o que for, tivesse de recorrer a uma lista com determinadas características.

Talvez as pessoas, quando chegam a uma idade, já não tenham paciência para fazer certas cedências ou podem também saber melhor o que querem.
Mas aceitar que só queremos estar com pessoas que concordem connosco não é um caminho para a solidão? É algo que me intriga, e falo disso em algumas letras. Intriga-me que as pessoas queiram olhar para o mundo por um funil. E, atenção, venho de uma aldeia chamada Marrazes [em Leiria], a minha história é desenhada para ver o mundo por um funil. De onde eu venho havia o café central, os bombeiros e ao domingo ia-se à missa e à catequese, venho de um sítio muito conservador. Em miúdo, não entendia muito bem quando as pessoas à minha volta diziam: “Vamos fazer uma coisa espetacular, vamos a Lisboa”. Como assim? Eu não quero ir a Lisboa, quero ir a Nova Iorque, quero ir à Austrália, quero ir ao Japão.

Numa das idas ao cinema, em miúdo, viu um filme do Spike Lee que lhe abriu horizontes, sabia que tinha de sair de Marrazes. Tomada essa consciência, pensou num plano para isso? Foi a ida para a faculdade de Belas Artes, em Lisboa?
Depois de ver esse filme, saí logo dali, ou seja, saí em todos os sentidos. Como é que hei-de explicar? Sempre tive a sensação de que isso aconteceria, não tinha de fazer nenhum plano. Não dizia: “Um dia vou fazer isto, vai acontecer aquilo”. Simplesmente já estava nesse caminho, já me sentia cidadão do mundo mesmo estando ali e essa perspetiva muda tudo. Não estou a pensar que esta coisa serve este sítio. Não, se ela serve este sítio, ela serve qualquer sítio. Quando fazia as fotografias de um catálogo de moda, quando fazia uma exposição no Mercado de Sant’Ana em Leiria, aquilo era bom para ali e para todo o lado. Portanto, não acho que isso se construa, não tenho um objetivo. Aliás, até espero nunca ter nenhum objetivo. Qual é o objetivo de fazer um espetáculo? Não faço ideia, espero que seja não estar em casa.

E estar disponível para descobrir coisas novas?
Completamente. Olhamos para o mundo que queremos ter. Se eu conhecer uma pessoa que gosta de danças de salão, que vai dançar todos os domingos, eu posso não gostar, mas vou recusar já? Não conhecendo, não fazendo ideia do que é? Se calhar até é um atrativo maior para conhecer esta pessoa. “Então leva-me a esse tipo de lugar para eu ver, ou desajeitadamente tentar fazer, para perceber o que é.” Tenha a certeza absoluta, sem dúvida nenhuma, de que esta forma é mais divertida do que a outra. Ao longo da minha vida percebi que estar junto das pessoas é das melhores coisas, por isso é que gosto de tocar ao vivo.

Mas nem sempre foi assim.
Não, eu era muito tímido e era muito complicado para mim. Agora, não é só subir ao palco e descer, é conhecer as pessoas, é ir ao estádio ou a feiras, que adoro, porque vou dar uma volta à feira.

É fácil circular?
Ninguém liga nenhuma a praticamente nenhuma pessoa conhecida em Portugal, que isso seja claro. Deve haver cinco pessoas em Portugal que não podem ir a sítios.

Essa convivência é uma coisa com a qual nem sempre se sentiu confortável. Como é que isso mudou?
A idade fez-me olhar para as coisas de uma forma diferente, talvez mais aberta. E outra coisa, sem dúvida nenhuma, teve a ver com a minha mulher, porque ela é exatamente essa pessoa naturalmente, tem facilidade no relacionamento com o outro. Apercebi-me que o mundo era dez vezes melhor e dou por mim às vezes em situações que nem sei como lá fui parar.

Quando está em palco agora consegue realmente aproveitar e perceber tudo o que se passa à volta ou a concentração não deixa?
Em palco sou o super-herói, o mundo é meu, sinto-me uma espécie de gabarolas da aldeia. E às vezes há uma ou outra coisa que falha e adoro, é o sítio onde gosto mais de estar. Não morro de amores se estiver tudo perfeitinho, quero muito desmontar aquilo à frente das pessoas. No palco, sinto que aquelas canções ganham uma dimensão extra-terrena e passam a ser aquilo que as pessoas acreditam que é. E passo a ser o astro da pop, o rock’n’roller, o cínico, o parvo. Caio, digo os disparates que quiser, o microfone é meu, mando calar pessoas. Sinto que há uma energia extremamente positiva quando estamos a fazer aquilo, mesmo quando as coisas correm mal, não há mal nenhum. É uma aventura e quero que as pessoas embarquem nessa aventura comigo.

A timidez desaparece?
Fica totalmente à porta, não tenho inibição nenhuma, aquilo é uma performance. Os meus espetáculos estão mais próximos de uma performance, não tenho apenas interesse de cantar uma canção, falar sobre ela e fazê-lo N vezes. Percebo esses músicos, mas não sou essa pessoa.

"A realidade é que a maior parte das pessoas ouve música nova até aos 30 anos. E depois repete. O tempo é pouco, não há disponibilidade para descobrir coisas novas e recorre-se ao familiar, ao que nos dá conforto. O significado de uma coisa boa já está inserido naquelas canções. Portanto, quando a pessoa quer ter um bom momento, vai buscar essa canção. Mas não tenho essa relação com a música."

Gosta da imprevisibilidade de um concerto, mas em 2025 houve uma série de espetáculos específicos que tiveram de ser muito bem alinhavados, aqueles que assinalaram os 25 anos dos Silence 4. Mais de duas décadas depois, como foi voltar àquelas canções?
As canções são sobre um fenómeno, uma coisa que nos aconteceu e que as pessoas, muito inadvertida e estranhamente, tomaram como parte de si, de uma maneira absurda que acontece, do meu ponto de vista, uma vez na vida. Antes tocávamos as canções, agora estamos a tocar êxitos, de uma ponta à outra, canções que fazem parte integrante da vida real das pessoas. É uma sensação muito difícil de explicar, mas aqui entra aquele chavão de que as músicas já não são nossas, são das pessoas. A Borrow não é sobre aquilo que me fez escrevê-la, agora é sobre as pessoas estarem ali todas juntas, aos saltos. Tive relatos de pessoas que choraram de uma ponta à outra do concerto. Tem a ver com uma coisa que honestamente a mim me diz pouco, mas que é o fenómeno da nostalgia, as pessoas gostam de recordar o melhor do passado e as canções têm esse poder. As pessoas voltam àquelas férias, àquela amizade, àquele amor.

Não sente nostalgia, mas há certos temas que o transportam para um momento específico, não?
A realidade é que a maior parte das pessoas ouve música nova até aos 30 anos. E depois repete. O tempo é pouco, não há disponibilidade para descobrir coisas novas e recorre-se ao familiar, ao que nos dá conforto. O significado de uma coisa boa já está inserido naquelas canções. Portanto, quando a pessoa quer ter um bom momento, vai buscar essa canção. Mas não tenho essa relação com a música.

De onde vem essa música nova que descobre?
É o que algoritmo me manda, aquilo que o YouTube me oferece, aquilo que o meu amigo me manda, mas desde que seja novo. Às vezes chego a meio do instrumental e vejo que não é para mim — próxima. Mas, de vez em quando, ouço uma que adoro e essa, sim, ouço repetidamente até à próxima que descobrir. Tive um desgosto de amor horrível aos 19 anos, daqueles que achamos que nunca mais vamos recuperar. É importante aprendermos cedo a entender as emoções como a rejeição, mas nessa altura não via isso. Uma das recordações que tenho é de estar deitado no quarto em casa dos meus pais. Lembro-me do cheiro a alcatifa, da cor da alcatifa, e eu a ouvir uma música dos Smashing Pumpkins em repeat durante dias e noites.

Qual era a canção?
Nem me lembro. Sei que, na altura, nem era bem a letra que me tocava mais, era a forma como a guitarra tocava e eu tinha uma espécie de encontro, uma melancolia, uma tristeza, com a voz dele. Quando escrevo uma canção sobre uma coisa similar, não consigo reviver, mas consigo revisitar a sensação facilmente. Tenho uma certa inveja de não me emocionar, mas ao mesmo tempo, se assim fosse, como é que tocava a My Friends sem me desmanchar?

Tinham noção do impacto que os concertos dos Silence 4 teriam?
Honestamente, sim, tinha real noção de que as pessoas que estão agora nos 40 ou 50 anos tinham sido tão impactadas porque continuam a falar muito das canções. Entendo o impacto que sobretudo o primeiro disco teve porque me lembro de irmos tocar, olhar para a frente e ver miúdos de 14, 15 anos a chorar. Eu tinha 25, 26 anos, já não era um miúdo, conseguia olhar para aquilo com discernimento.

https://www.youtube.com/watch?v=nGuTtBfsyqg&list=RDnGuTtBfsyqg&start_radio=1

Quando é lançado um disco, segue-se alguma dúvida em relação ao futuro? Será que haverá mais ideias para discos?
Sempre que uma ideia morre, penso que amanhã vem outra. Não acho que haja nenhuma ideia suficientemente interessante que a gente não possa enterrar ali. Se eu fizer uma coisa florescer, é uma ideia. Mas se eu a matar, também é uma ideia. A importância das coisas é que tem de ser sempre relativizada. Como é que as ideias param? Acho isso meio absurdo. Se paro de pensar, então é a morte. Não acho que a idade me traga menos ideias, pode trazer-me mais preguiça.

Mas ainda não está nesse ponto. É fotógrafo, faz cerâmica, serigrafia, está a preparar exposições. 
Vivo numa utopia constante e uma das maiores utopias que tenho é fazer a lista do final do ano, ou do início do ano, tanto faz. Quando no final do ano vou verificar a lista, vejo que nem 20% das coisas fiz. O que é que aconteceu a estas ideias todas? Muitas transitam para o ano seguinte e acrescento mais umas quantas. Todos os anos é assim. Se alguma vez vou fazer tudo? Não. Se vou continuar a escrever a lista? Vou. Se vou morrer com 90% das coisas por fazer? Vou. Aceitei. Sinto um grande prazer em ter ideias, não necessariamente em concretizá-las. Há uma específica que tem passado de ano para ano.

Qual é?
Ponto cruz. Tenho um fascínio por aquilo, faz-me lembrar o ZX Spectrum. Comecei a imaginar como é que seria fazer fotografias e retratos em ponto cruz. Tenho um kit que a minha mulher tão gentilmente me ofereceu no Natal e é das melhores coisas que recebi. É uma daquelas coisas que eu ainda tenho a esperança de vir a aprender a fazer, tal como a renda de bilros que a minha avó fazia. Falava comigo enquanto passava 30 bilros de um lado para o outro e eu via a renda a aparecer, era mágico.

São boas atividades para a mente se desligar do caos.
Gosto da serigrafia por isso, é um ato de repetição, mas também de concentração. Até gosto de fazer serigrafia em silêncio, sem música. Grande parte de ser adulto e de crescer é identificar com clareza as coisas que gostamos de fazer. Não sei explicar, mas a primeira vez que fiz serigrafia, soube que era para mim. Comecei a fazer projetos cada vez mais complexos e agora faço em casa. Mas tive de parar há uns oito meses.

Porquê?
Porque nunca mais acabava o disco. Senti que nunca mais ia fazer música, que só ia fazer serigrafia. Entro nesse mundo e desapareço, desligo-me do caos.

Fazer um disco é um processo caótico?
É um caos desorganizado, nem sequer é organizado. Faço uma lista no início do dia com as tarefas: fazer a capa, acabar o arranjo de cordas da música X. Às vezes, muito relutantemente, escrevo lá: fazer um reel para o Instagram. Fico doente quando escrevo isso. Até tenho ideias, mas não gosto de perder tempo com aquilo. Faço, mas contrariado.

Não sabe lidar com elogios, muito menos aqueles que servem como texto introdutório para descrevê-lo. Ajude-me então a começar este texto, como é que se apresenta o David Fonseca?
Sou um artista, não tenho medo desse rótulo. Sou um artista que está a tentar. Todo o artista com o trabalho cá fora corre um risco tremendo, o de as pessoas olharem para aquilo e dizerem “grande merda”. Mas isso faz parte da coragem de ser um artista. Há sempre alguém que acha que o que faço é uma merda e encaro isso como divertido. Quando o meu segundo álbum, Our Hearts Will Beat as One (2005), saiu, houve um jornal que lhe deu 10/10 e outro que lhe deu 1/10. Honestamente, achei que estavam os dois errados. Não era assim tão bom, nem era assim tão mau. Não levo isso a peito. Retiro o prazer do ato de fazer um projeto. A partir do momento em que está à venda, o meu prazer desaparece, não me afeta o que as pessoas dizem.

"No outro dia estava a montar uns cabos no estúdio e o meu filho perguntou-me como é que tinha aprendido aquilo. A resposta é que foi com tempo, o tempo é preciso para tudo. Perdi muito tempo a perguntar coisas, a ver os outros fazerem. Naquele jogo dos três desejos, o meu primeiro seria não ter de dormir."

Depois da morte de Jorge Palma, num post que escreveu sobre ele, falava “da forma inconformada de estar no mundo” que ele tinha. Essa definição também pode ser aplicada ao David?
Eu sou como uma criança numa loja de brinquedos, sou curioso. O Jorge tinha a característica de que mais gosto nos artistas que é a curiosidade e a ideia de se mandar para um sítio desconfortável. O Jorge tinha uma certa costela de bon vivant, navegava pela vida.

Viveu tudo intensamente.
Muito intensamente. Eu não tenho essa intensidade. Sinto que, para as pessoas como o Jorge, as coisas aconteciam, tinham um lado místico. Nunca me aconteceu olhar para algo e ficar inspirado. Tenho de pensar sobre as coisas, desmontá-las. Estou até mais perto da desmontagem sistemática do mundo que um humorista faz do que aquela que uma pessoa meio mística faz. As pessoas místicas têm as emoções, as sensações, os prazeres. Eu estou sempre a pensar porque é que aquela pessoa age assim, pensa assim.

É muito cansativo isso, não?
Claro. Desde que aqui estamos já vi pelo menos três coisas que registei. Quando há falta de ideias, basta ir para o metro e observar. As pessoas são muito interessantes e o mundo é difícil. A minha mulher está a estudar outra vez e no outro dia disse-me que teve uma aula inteira sobre profundidade. Ficamos a falar sobre isso, as pessoas passam a grande maioria da vida à superfície. A profundidade é algo muito difícil de alcançar.

Também é preciso tempo para lá chegar.
Tempo que ninguém tem, que ninguém dá. No outro dia estava a montar uns cabos no estúdio e o meu filho perguntou-me como é que tinha aprendido aquilo. A resposta é que foi com tempo, o tempo é preciso para tudo. Perdi muito tempo a perguntar coisas, a ver os outros fazerem. Naquele jogo dos três desejos, o meu primeiro seria não ter de dormir.

Quantas horas dorme?
Cinco, mas fico de rastos. Depois durmo oito ou nove horas três dias seguidos e fico ainda mais de rastos. É uma das coisas que o corpo de 50 e tal anos nos diz, que temos de dormir mais. Eu vou, mas contrariado. Vejo filmes horríveis e assim o meu cérebro vai desligando. Vejo dez minutos de cada vez, tem de ser assim. Porque, se vou para a cama e desligo tudo, então é que não durmo.

Faz listas de coisas a fazer?
Pior, monto projetos inteiros. Quando um hobby está instalado, começo a arranjar um estratagema para que cresça. Vou fazer uma exposição deste hobby, vou pegar este hobby e fazer a capa do disco com ele. Depois tenho de arranjar outro hobby. E depois tenho de trabalhar para manter o hobby vivo. Começo a ramificar, é um horror. Chegou uma máquina a minha casa e já estou a imaginar que venha a ser o meu novo hobby.

O que é?
É uma coisa estúpida, uma máquina que vi na internet que faz scans de paredes. Tive uma ideia que acho genial, só que aquilo agora chegou a minha casa e eu tenho mil coisas para fazer, tenho um disco para lançar. Por isso, guardei-a numa gaveta.

E consegue controlar a impaciência?
Uso o truque que usei quando deixei de fumar. Fumei muitos anos e, de um dia para o outro, decidi deixar. Comprei um maço de tabaco, deixei-o numa gaveta a que tenho acesso todos os dias e, sempre que sentia uma ansiedade muito grande, abria a gaveta, tirava o maço, tirava um cigarro, cheirava, punha-o na boca, mas conseguia não fumar. Voltava a pô-lo gaveta e a fechá-la. Não aconselho a ninguém, é uma tentação horrível, mas é a forma como a minha cabeça funciona. De vez em quando deito o maço fora, porque ganha bolor, mas compro um novo. A escolha de voltar a fumar está sempre em aberto, a escolha de não o fazer é minha.

O mesmo com a máquina de scans?
Igual, a ideia é estar no controlo. Tenho mil projetos ao mesmo tempo, guardo o prazer de um dia vir a fazer este ou outro. Ou então morro e não faço. E não há problema com isso.

Só isso?
Eu sei exatamente como é a morte, sabemos como é. Já adormeci muitas vezes, já tive sedações por anestesia geral. Da primeira vez disseram-me para contar do dez até ao um e eu adormeci no oito. Da segunda vez estava naquela expetativa e adormeci no número três. Estamos ali a pensar se vai ser no oito, se vai ser no dois, e não sabemos, não controlamos. Há qualquer coisa de maravilhoso nisto, não vale a pena preocupar-me tanto porque não controlo nada.