(c) 2023 am|dev

(A) :: Ma bisteren: a Europa não pode esquecer as nossas comunidades ciganas

Ma bisteren: a Europa não pode esquecer as nossas comunidades ciganas

Uma União da Igualdade deve ser sentida em todas as casas, do centro das cidades ao bairro mais distante. Muitos ciganos não a sentem. O anticiganismo continua a fazer parte do dia a dia.

Hadja Lahbib
text

Em Lety u Písku, no sul da Boémia, estão gravados num círculo de pedra 1294 nomes. Pertencem a famílias ciganas e sinti ali encarceradas sob o regime nazi. Pelo menos 335 pessoas morreram no campo. Centenas de outras foram enviadas para Auschwitz.

Quando lá estive no mês passado para homenagear as vítimas, li os nomes de crianças que nunca chegaram à idade escolar. Junto às sepulturas, uma pedra mais antiga tem gravadas duas palavras em romani: Ma bisteren. Não esqueçam.

«O povo esquecido da Europa.» É assim que os ciganos são frequentemente chamados. No entanto, são cerca de 10 a 12 milhões, mais do que a população de muitos países da UE, e a sua história é muitas vezes ignorada. A sua língua ainda é falada desde os Balcãs até ao Báltico, e o seu património vivo de música e dança, de contos e de artesanato tornou-se parte integrante da própria Europa.

Os ciganos sofreram também séculos de perseguição e de assimilação forçada, até ao capítulo mais negro de todos: o genocídio de que foram alvo durante o nazismo. Lety está entre as suas cicatrizes. Lembramos para que nunca mais volte a acontecer.

Uma União da Igualdade deve ser sentida em todas as casas, do centro das cidades ao bairro mais distante. Muitos ciganos não a sentem. O anticiganismo continua a fazer parte do dia a dia.

Desde o meu primeiro dia como Comissária, o meu objetivo é simples: que cada europeu encontre uma porta aberta e a possa atravessar. Para muitos ciganos, essa porta continua entreaberta. É a entrevista de emprego a que nunca se segue um telefonema. O apartamento que, de repente, já está «arrendado» quando o senhorio ouve um nome. A criança enviada para uma sala separada antes de alguém ter visto do que ela é capaz. Estas barreiras não deixam marcas que se possam fotografar, mas os danos duram uma vida inteira.

No seu Quadro Estratégico para os Ciganos, a UE fixou metas claras para 2030: acabar com a discriminação e a pobreza e garantir um acesso justo à educação, ao emprego, aos cuidados de saúde e à habitação. Esta semana, publicamos o nosso terceiro relatório sobre o caminho já percorrido.

Há progressos. Hoje, mais crianças ciganas começam o dia numa creche ou num jardim de infância. Isto é importante, porque a desvantagem começa cedo e cresce como uma bola de neve. Um bom começo pode mudar uma vida inteira. A maioria das metas de emprego poderá ser alcançada até 2030, mas os progressos são desiguais. Em vários países, as crianças ciganas continuam a estudar em salas separadas, por vezes em escolas separadas. Demasiadas famílias vivem ainda na pobreza, amontoadas em casas sobrelotadas.

A mudança está a acontecer, mas não suficientemente depressa. A Comissão Europeia pode definir o rumo e financiar o trabalho. Mas a verdadeira mudança acontece quando um presidente de câmara aprova um plano de habitação ou um diretor de escola abre a porta de uma sala de aula.

A barreira mais difícil é o preconceito. Há dois anos, quase metade dos europeus afirmava que se sentiria desconfortável por ter vizinhos ciganos. No entanto, os ciganos já são nossos vizinhos. São nossos colegas de trabalho e de escola, nossos professores e bombeiros. Os ciganos pertencem à Europa. Sempre pertenceram. A questão é saber se estamos prontos para derrubar as barreiras que ainda os travam.

O preconceito aprende-se e, por isso, também se pode desaprender. Começa por pequenas coisas: um currículo avaliado pelo seu mérito, um novo vizinho bem recebido à porta. Uma mãe cigana a quem é dada, na maternidade, a mesma cama que a qualquer outra mãe. As leis podem abrir portas. As nossas escolhas do dia a dia mantêm-nas abertas.

A inclusão é justa e é também inteligente. Torna as nossas sociedades mais fortes. Os ciganos podem desempenhar um papel importante no nosso mercado de trabalho e devem ter as mesmas oportunidades que todos os europeus.

Imaginem uma menina cigana que começa a escola este outono, numa sala de aula que partilha com todas as outras crianças da sua cidade. Quando se candidatar ao seu primeiro emprego, o seu nome num currículo deverá abrir portas com a mesma facilidade que o de qualquer outra pessoa.

É esta a Europa que devemos às famílias de Lety e a cada criança que cresce hoje. Só seremos inteiros quando todos tiverem o seu lugar entre nós.

Ma bisteren.