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(A) :: Com Neves desafinado, Governo tenta saída airosa. Cavaco defende Montenegro em Conselho de Estado

Com Neves desafinado, Governo tenta saída airosa. Cavaco defende Montenegro em Conselho de Estado

Decisão do Tribunal não é necessariamente má para o Governo, porque permite margem para fazer outra gestão das manifs. Neves e PSP não se entendem. Cavaco defende Montenegro em Conselho de Estado.

Miguel Santos Carrapatoso
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Como transformar uma derrota numa vitória. Ou na vitória possível, pelo menos. Por paradoxal que possa parecer, aos olhos dos conselheiros mais próximos de Luís Montenegro, a decisão do Tribunal Administrativo de Lisboa permite ao Governo corrigir um erro original sem perder por completo a face e quebrar um ciclo de violência cujo desfecho seria imprevisível, salvaguardando, em simultâneo, a relação institucional com o Presidente da República e com as forças de segurança.

Ao longo dos últimos dias, e apesar do que se ia repetindo publicamente, havia muita gente no Governo e na bancada parlamentar do PSD que já tinha percebido que não era possível passar fim de semana sim, fim de semana sim a ter de responder pelas imagens de violência no Porto e em Lisboa. Mais a mais, existia a perfeita consciência de que se estava a caminhar sobre gelo fino: qualquer incidente mais grave seria politicamente insustentável para o Governo — e já houve um polícia à paisana que, segundo a PSP, se viu obrigado a brandir uma arma por sentir a sua integridade física ameaçada.

Mas qualquer recuo evidente colocaria em causa a autoridade do Executivo — a partir do momento em que houve a primeira carga policial, a 15 de outubro, no Porto, e a partir do momento em que Luís Neves decretou o fim das acampadas, qualquer decisão que não uma intervenção musculada da polícia em circunstâncias idênticas seria sempre interpretada como uma vitória dos manifestantes e como sendo uma desautorização do Executivo e das forças de segurança. Agora, com esta decisão do Tribunal, que não dá a vitória absoluta a ninguém, abre-se alguma margem para outro tipo de gestão política.

Há quem considere que Luís Neves, a braços com uma crise de imagem e de popularidade, não está a ser capaz de lidar com as manifestações e com o escalar da tensão. "Está a tentar — ou tentou — utilizar isto como uma forma de recuperar alguma autoridade. Não correu bem e não está a correr bem", lamenta um elemento do Executivo

Confiar no erro do adversário

“Esta decisão pode dar-nos uma saída airosa“, concede ao Observador fonte do Governo. Por um lado, porque diz claramente que os manifestantes não podem simplesmente ocupar o espaço público; ao mesmo tempo, dá à direção da Polícia de Segurança Pública espaço para não atuar como atuou naquela primeira madrugada e nas que se seguiram; e, por fim, desobriga o Governo de ter de tomar qualquer decisão política que viesse a colocar em causa a relação com as forças de segurança. “Se depois de tudo o que aconteceu tirássemos o tapete à polícia, perdíamos o controlo da polícia. ‘Entregavam as armas‘ no dia seguinte”, nota um influente dirigente da AD.

A isto soma-se, naturalmente, a pressão de António José Seguro. Depois de ter estado em silêncio 12 dias, o Presidente da República fez uma primeira declaração que deixou o Governo numa situação ainda mais delicada. Daí para cá, Seguro tem-se desdobrado em declarações a pedir o desescalar da situação, o que não impediu, mesmo assim, duas novas cargas policiais, no Porto e em Lisboa, durante a madrugada de sábado para domingo. Ora, os recados presidenciais não matam, mas moem. Isto é, não seria o Presidente da República a derrotar o Governo, mas ajudaria a isolar ainda mais Montenegro. “Seguro é muito medroso. Não resistiu [às ruas]”, desabafa com o Observador um destacado dirigente social-democrata.

A palavra pertence agora aos manifestantes e os homens de Montenegro estão convencidos de que o tempo lhes dará razão. Seja porque a repetição das concentrações acabará por cansar a comunicação social e a opinião pública, seja porque, eventualmente, os manifestantes poderão perder o controlo do próprio protesto e ultrapassar determinadas linhas vermelhas — ocupação indevida do espaço público, destruição de património ou episódios mais violentos que justifiquem, sem qualquer margem para debate, a intervenção da polícia.

De resto, a sondagem publicada pela CNN na semana passada coincide com a perceção do Governo sobre o que vão pensando os portugueses: as pessoas acham aquelas acampadas despropositadas, não se reveem naquele tipo de protesto e gostavam que acabassem; mas também não gostam de ver episódios de violência policial. Retirado o último fator da equação, os manifestantes poderão cometer um erro que vire o tabuleiro a favor do Executivo, da aplicação da ordem e da segurança.

Seguro tem-se desdobrado em declarações a pedir o desescalar da situação, o que não impediu, mesmo assim, duas novas cargas policiais, no Porto e em Lisboa, durante a madrugada de sábado para domingo. Ora, os recados presidenciais não matam, mas moem. Isto é, não seria o Presidente da República a derrotar o Governo, mas ajudaria a isolar ainda mais Montenegro. "Seguro é muito medroso. Não resistiu [às ruas]", desabafa com o Observador um destacado dirigente social-democrata

Cavaco sai em defesa do Governo

O dia acabou por ficar também marcado pela reunião de Conselho de Estado, antecedida pelo almoço entre António José Seguro e Luís Montenegro — o encontro semanal entre Presidente da República e primeiro-ministro foi antecipado porque Seguro parte esta terça-feira para Madrid, onde irá participar na 30.ª Cimeira Ibero-Americana. Seguiram-se mais de quatro horas de intervenções descritas, por quem nelas participou, como tendo sido menos tensas do que, porventura, seria de esperar.

Segundo apurou o Observador, se existe algum mal-estar entre Presidente da República e primeiro-ministro, os dois disfarçaram bem. No Palácio de Belém, à mesa daquela reunião, pelo menos, não houve qualquer tipo de recado trocado entre António José Seguro e Luís Montenegro. De resto, o tom de quase todas as intervenções foi no mesmo sentido: é preciso fazer um esforço conjunto para esvaziar a tensão. Aliás, foi repetida a ideia de que a lei do arrendamento deve merecer um consenso alargado entre os partidos, em nome da estabilidade e da coesão social.

Uma das intervenções de maior destaque foi a de Aníbal Cavaco Silva. O antigo Presidente da República fez uma declaração de fundo “muito forte”, alertando para a “manipulação política” das manifestações por parte de grupos da esquerda radical e casos flagrantes de “falta de respeito pelas autoridades”. Sem uma gestão eficaz do que está a acontecer nas ruas, é a autoridade do Estado que é colocada em causa. Mesmo assim, o foco dos conselheiros de Estado foi no sentido de contribuir para encontrar soluções para a crise na Habitação e não tão centradas nas cargas policiais.

A partir do momento em que Luís Neves decretou o fim das acampadas, qualquer decisão que não uma intervenção musculada da polícia em circunstâncias idênticas seria sempre interpretada como uma vitória dos manifestantes e a desautorização do Executivo e das forças de segurança. Agora, com esta decisão do Tribunal, que não dá a vitória absoluta a ninguém, abre-se alguma margem para outro tipo de gestão política.

Luís Neves e PSP desafinados

O ministro da Administração Interna continua a ser apontado, mesmo dentro do Governo, como uma fonte de problemas. Primeiro, apareceu em público a decretar o fim dos acampamentos. A seguir, surgiu a dizer que só tinha visto uma bastonada, para logo depois se corrigir. Em terceiro lugar, e já depois de Luís Montenegro ter garantido no Parlamento que o Governo não tinha dado qualquer orientação política à polícia para carregar sobre os manifestantes, apareceu a assumir “responsabilidade política” pelos incidentes registados no Porto e em Lisboa.

Esta segunda-feira, novo embaraço: depois de conhecida a decisão do Tribunal Administrativo de Lisboa, o gabinete do Ministério da Administração Interna emitiu um comunicado a defender que aquele juízo se circunscrevia a “uma situação individual e concreta” — ou seja, apenas à tenda de Renata Cambra — e que continuava prevista a “possibilidade de intervenção das autoridades perante situações de perigo objetivo ou incumprimento das condições estabelecidas”.

A decisão da juíza Ana de Campos está a motivar diferentes leituras jurídicas, nuns casos mais literais, noutros menos. Acontece que a PSP, tutelada por Luís Neves, fez uma interpretação diferente da do ministro da Administração Interna: já depois de o Ministério da Administração Interna ter emitido o referido comunicado, Sérgio Soares, porta-voz daquela polícia, veio dizer que as autoridades vão admitir um “número simbólico e razoável de tendas” desde que os manifestantes permanecessem em silêncio. O próprio Carlos Moedas, presidente da Câmara Municipal de Lisboa, foi lesto a dizer que a ordem do Tribunal era para cumprir, sem mais considerandos.

Horas depois, na CNN Portugal, Hugo Soares, líder parlamentar e número dois de facto do PSD, fez uma leitura idêntica à de Luís Neves, defendendo que o Tribunal autorizou apenas a colocação de uma tenda por parte de Renata Cambra, e elogiou o ministro da Administração Interna. “É responsável pela reorganização do aeroporto de Lisboa, é também merecedor de crédito pelo sucesso que foi o combate aos incêndios, merecedor de crédito pelo combate à insegurança que há em Portugal, não vejo que seja imerecedor de crédito por manter a paz, a segurança e a democracia em Portugal.”

Apesar do peso político de Hugo Soares junto do primeiro-ministro, a opinião do líder parlamentar e secretário-geral do PSD está longe de ser unânime no partido e mesmo no Governo. Há quem considere que Luís Neves, a braços com uma crise de imagem e de popularidade, não está a ser capaz de lidar com as manifestações e com o escalar da tensão, arrastando o Executivo para situações cada vez mais delicadas do ponto de vista político.

“Está a tentar — ou tentou — utilizar isto como uma forma de recuperar alguma autoridade. Não correu bem e não está a correr bem”, lamenta um elemento do Executivo. “Está a ficar tudo muito acantonado. A prioridade deveria ser esvaziar a tensão e não continuar neste ciclo”, aponta outra fonte do Governo. António José Seguro já marcou o ministro — “O senhor primeiro-ministro sabe o que penso sobre o assunto”, chegou a dizer o Presidente da República. Luís Montenegro continua a segurar o seu ministro, apesar de tudo e apesar de Seguro. Resta saber até quando.