Se vivesse hoje, Álvaro de Campos estaria feliz. Ia conhecer imensa gente que já tinha levado porrada. Quase toda, aliás. Lendo as notícias, fica-se com a ideia de que, nas últimas semanas, têm-se sucedido batalhas campais entre manifestantes e polícia, com centenas de estropiados. Só que, na realidade, não tem sido bem assim. Não tem havido verdadeiramente “porrada”. Há uns empurrões, umas bastonadas, algumas cabeças partidas e várias nódoas negras, é certo. Mas nada disso são as agressões brutais que têm sido denunciadas. Está mais para primeiro dia de mega-saldos na Primark do que para motim. E nem sequer é preciso comparar com os confrontos violentos que existem noutros países da Europa, muito mais tumultuosos do que os nossos. Basta ver o entusiasmo da polícia de choque quando lhe cheira a sarrabulho num jogo grande. Por mais duras que tenham sido as escaramuças no Rossio e na D. João I, uma pessoa corre mais perigo numa festa de crianças se entrar distraída no perímetro da piñata.
Está-se a notar uma inclinação para exagerar um bocadinho a intensidade da violência. Não é que não exista. Só não é da dimensão bélica que querem fazer crer. Isto são pessoas que, quando a hora do soco surgiu, não só não se agacharam, como ainda se atiraram para cima da possibilidade do soco. Para ficar com mais marcas e mostrá-las na televisão e nas redes sociais.
Esta hipérbole não é apenas por parte dos manifestantes. Aliás, esses até são os que têm mais razões para confundir amassos com agressões. Estão mesmo na refrega, desprotegidos e desarmados, a encarar uma espécie de robocops artilhados. É até natural que amplifiquem a ameaça. Já não se percebe tanto que a própria polícia também alinhe por esta tendência assustadiça e se queixe de levar pancada dos manifestantes. Estamos a falar de latagões com capacetes, escudos e caneleiras variadas, que ainda nem sequer enfrentaram uma saraivada de calhaus como as que vemos em Paris. E se há cidade onde seria fácil é Lisboa, com a calçada degradada a fornecer munição. O máximo que lhes aconteceu foi empurrarem a massa de manifestantes contra a lateral de uma fonte e depois, como uma bola de borracha, a massa de manifestantes empurrar de volta. Não é uma carga, é um moche. Além dessa coreografia, só uma versão do jogo da corda, mas com tendas. Não é propriamente a investida dos orcs no Senhor dos Anéis, não chega para ficar com PTSD. Mais: choramingam por serem injuriados, como se fossem meninos da catequese chocados porque a freira disse “poça!” Espera-se que as forças de segurança não se piquem facilmente, tenham uma carapaça mais rija e não alimentem a ideia de vitimização só porque lhes chamaram “bófia”.
Mas onde se vê mesmo a vocação comichosa na sociedade portuguesa é na reacção caguinchas dos políticos. A começar com Luís Montenegro, que se veio queixar do activista que, num de entre dezenas de discursos inflamados, em que os nossos mini-Trotskys dão azo à sua excitação revolucionária, resolveu sugerir que deviam ir atirar um tijolo à casa do Primeiro-Ministro. Foi o suficiente para Montenegro vir choramingar para a televisão, denunciando uma suposta ameaça à sua família, como se as palavras inflamadas de um garoto num comício fossem para levar a conferência de imprensa em directo. Não via uma reacção tão desmedida com uma falsa ameaça desde que Santana Lopes interpretou como coacção uma carta promocional para o lançamento de um livro que dizia “cuidado com os rapazes”.
Além de Montenegro, foram vários os políticos da área da AD a lamentarem a agressividade da linguagem dos manifestantes, quer nos discursos, quer nos cartazes. Parece que costumam escrever coisas que aleijam. Já para não falar dos cânticos, que às vezes forçam a rima para lá enfiarem desagradáveis palavrões. Os membros do Governo e dos partidos que o apoiam esforçam-se por estabelecer uma ligação directa entre o tipo de linguagem usado e potencial violência física. Que é, digamos, uma atitude medricas. Isso e vir alertar para uma suposta destruição apocalíptica do espaço público de Lisboa e Porto. É preciso não esquecer que são duas cidades que, chegado Junho, acordam todos os dias com o chão pegajoso de xixi, cerveja, farturas e bêbados. Comparada com isso, a acampada parece arrumada por um obsessivo-compulsivo.
Se esta tibieza é preocupante, o que dizer da demonstrada pelo Chega? Se há característica que esperamos da extrema-direita, é a sua virilidade. Supostamente, é malta rija, sempre pronta para a briga. Porém, desde que começaram os protestos pela habitação, é ver os seus deputados queixarem-se das ofensas dos manifestantes. André Ventura chamou-lhes “vândalos”, exibindo uma limitação semântica que não lhe vai permitir caracterizar outro tipo de investidas, verdadeiramente violentas, por lhe faltar vocabulário. Também se lamuriou amargamente pelos apelos à revolução nas acampadas (em vez de se congratular por haver mais gente a querer derrubar o sistema). Mas de Ventura, que já tinha sido agredido por uma caixa de pastilhas Smint, pelo escape de uma mota e por um gang de copos de água fria, não se estranha este pavor. Dos seus valentes correligionários, confesso que contava com uma atitude mais aguerrida. Em vez disso, temos Pedro Pinto a fazer queixinhas a Aguiar-Branco pela linguagem ofensiva usada por um deputado do PS; e Pedro Frazão, lívido, a dizer que o slogan “já ninguém atura o facho do Ventura” é muito grave e que estas palavras podem dar origem a violência política. Ou Francisco Gomes, deputado madeirense do Chega, indignado porque um manifestante se mascarou de polícia palhaço (ou palhaço polícia, ainda não consegui decidir). Francisco Gomes é um caso peculiar. Fala sempre aos gritos. Parece que ainda não percebeu que não está no Funchal a berrar para Lisboa, ouvimo-lo bem daqui. Para um anti-comunista tão veemente, fica vermelho muito depressa. É possível até que já tenha ultrapassado o Ronaldo e seja o primeiro madeirense a chegar aos mil golos. De poncha.
Era suposto a extrema-direita ser durona e não ter chiliques por tudo e por nada. Afinal, é um canteiro de florzinhas de estufa que se amofinam se lhes falam torto. E que, além disso, revelam um desejo bizarro de dar banho aos activistas.
Finalmente, a esquerda, com a sua veia igualitária, não quis ficar atrás ao nível da choraminguice. Todos os dias aparece alguém a garantir que, entre o Estado Novo e o que se passa, a única diferença são as calças à boca de sino e a televisão a preto e branco. Geralmente, fazem-no numa coluna de jornal ou num espaço de comentário que não passam pelo exame prévio, mas devem achar que isso está para acabar. Entretanto, o Tribunal Administrativo de Lisboa pronunciou-se no sentido de Portugal ainda ser uma democracia – se bem que das burguesas. Pode ser que isto tenha acalmado os planos para o exílio. Até porque Paris também não está famosa.