(c) 2023 am|dev

(A) :: Um erro tremendo

Um erro tremendo

Um pedido de desculpas de parte do Reino Unido? Não se percebe … ninguém de boa fé compreende.

Gonçalo Meneses
text

Recentemente, num artigo publicado no jornal The Guardian, o atual Primeiro-Ministro Britânico Andy Burnham, veio dizer que o Reino Unido precisaria reconhecer a sua «História complexa» a fim de proteger a Commonwealth nascida no rescaldo do fim do Império Britânico. A intenção, segundo parece, seria a de o Reino Unido pedir formalmente desculpa pelo facto de ter sido um participante no tráfico transatlântico de escravos que existiu até ao século XIX, ainda que, em todo o caso, o Reino Unido continuaria a resistir aos pedidos de reparação motivados por essa mesma participação. De todo o modo, Burnham afirmou que iria trabalhar favorecendo a liquidação das dívidas nacionais de países da Commonwealth pertencentes às geografias nas quais aquele mesmo tráfico se verificou. A ideia seria a de estes países liquidarem aquelas dívidas num prazo mais longo e com taxas de juro mais baixas.

Ora, por mais que me tentem convencer de alguma bondade ou mérito numa política deste tipo, continuo a discordar frontalmente dela, rejeitando-a de forma clara. Em primeiro lugar, após todo este tempo de debate público à volta deste tema, qualquer pessoa que se encontre de boa fé a respeito deste, já dispõe de pleno conhecimento que o esclavagismo e o tráfico de escravos existiu historicamente pelo menos desde a Antiguidade, tendo ambos apenas terminado a partir da segunda metade do século XVIII, designadamente por ação dos países ocidentais, os quais, inclusivamente, foram os efetivos responsáveis pela disseminação do fim do esclavagismo e do tráfico de escravos pelo Mundo afora no decurso desse movimento abolicionista iniciado na sequência do surgimento do Iluminismo. De nenhumas outras partes do Globo resultaram quaisquer movimentos, fossem de cariz político, fossem até mesmo de índole estritamente intelectual, que advogassem e menos ainda levassem a efeito prático, qualquer abolicionismo, quer do tráfico de escravos, quer do próprio esclavagismo em si mesmo considerado. Mais, em muitos dos lugares em que este cessou por ação ocidental, tal não deixou de ocorrer com muita resistência e oposição por parte dos autóctones. Foi este o caso, p. ex., do chamado Reino de Lagos, situado na atual Nigéria, onde o monarca local (Oba) Kosoko se opôs militarmente contra as pressões promovidas pela Grã-Bretanha para que tratados contra o tráfico de escravos fossem assinados, levando a que a própria Marinha Real Britânica  — então a mais forte no Mundo — bombardeasse e invadisse Lagos em 1851 a fim de o destituir, promovendo a sua substituição por um novo governante local já disponível para cessar o tráfico de escravos então ali praticado.

Por outro lado, também não «compro» a tese que países como o Reino Unido ou outros da esfera ocidental sejam desenvolvidos ou mais prósperos desde logo por comparação para com os territórios localizados em geografias nas quais o tráfico transatlântico ocorreu em resultado deste mesmo tráfico e do esclavagismo então praticado. Basta pensar no exemplo Português: um país paupérrimo no final do século XIX e durante uma grande parte do século XX e, por isso, com enormes fluxos migratórios para fora do seu território, durante esse período, para países como o Brasil, no qual o esclavagismo apenas foi abolido em 1888. Inclusivamente, este país ainda em meados do século passado era considerado por muitos como um país altamente promissor, tendo mesmo, em 1941, sido designado pelo escritor austríaco Stefan Zweig como o «país do futuro». Mais, territórios como os estados do Sul dos Estados Unidos, onde, sem sombra de dúvida, o esclavagismo resultante do comércio transatlântico de escravos imperou por um extenso período, apenas tendo terminado por força da Guerra Civil que assolou aquele país na década de 60 do século XIX, atualmente, são territórios prósperos e desenvolvidos no contexto da Economia mundial. Então como é que se explica que territórios, no quais aquele mesmo esclavagismo se verificou como é o caso, p. ex., da Jamaica, não conheçam uma tal prosperidade ou desenvolvimento, mas antes uma pobreza e atraso assinaláveis? Isso deve-se, efetivamente, ao esclavagismo e ao comércio transatlântico de escravos? E, nesta medida, então se tais acontecimentos da História têm que conduzir o Reino Unido a pedir formalmente desculpas pelo passado, então por que motivo é que os Jamaicanos hoje gozam do pleno direito ao seu país, Estado e até mesmo povo? Então como e com que justificação é que gozam estes desses mesmos benefícios? Qual é base de legitimidade moral para os mesmos? Não se percebe … ninguém de boa fé compreende. O dualismo de critérios e padrões de valoração são manifestos.

Para mais, além de muitos outros argumentos que justificam que um tal pedido de desculpas não tenha sentido, gostaria em todo o caso de salientar ainda o seguinte: é que me parece muito claro que os propósitos subjacentes a uma tal reivindicação e a cedência à mesma não se encontram fundados em qualquer fundo de boa fé, produzindo, pelo contrário, a final efeitos assaz nefastos. Sempre considerei que existem dois grandes grupos que, politicamente, sustentam estes «pedidos de desculpa» e respetivas (na sua ótica, devidas) consequências: o primeiro, localizado em países externos ao Ocidente e que, além de quererem tapar todos os desvarios e práticas próprias internas com a História, pretendem atacar esse mesmo Ocidente, minando-lhe a confiança em si próprio e dos outros nele, doravante impondo a narrativa que os países ocidentais, esses grandes e eternos malvados da História, não têm qualquer autoridade moral e política para sustentar o que quer que seja, precisamente porque têm esse enorme e inamovível pecado às costas, devendo, por conseguinte, daqui em diante «comer e calar» e pouco ou nada mais; o segundo daqueles grupos, tratando-se já de grupos internos aos Estados Ocidentais, o que pretendem, no fundamental, é claramente impor uma narrativa revisionista da História, na qual eles próprios se apresentam como «os virtuosos» da mesma, naturalmente com todo o poder e sabedoria para comandar os demais. Trata-se, na realidade, de uma maneira de controlar as pessoas, inculcando-lhes complexos e fantasmas que, naturalmente, os legitimam a eles para mandarem e imporem as suas próprias conceções e pontos de vista em geral e deslegitimam os outros que destes possam discordar. Uma vez tais pedidos de desculpas executados, muito rapidamente todos os clamores revisionistas da História se seguirão, precisamente com base no «enorme pecado histórico» pendente sobre as costas dos Europeus cuja regeneração se impõe, levando à revisão da História ensinada na escola, destruição de monumentos, «controle» (na realidade, censura!) de livros e textos históricos, etc.. Também clamores para o estabelecimento de políticas de «regeneração» da sociedade como a imposição de quotas e outras — na realidade absolutamente desigualitárias —, estou convicto que surgirão a muito breve trecho.

Para mais, não vejo sequer como é que quaisquer eventuais perdões de dívida ou outras políticas do género, verdadeiramente, irão trazer prosperidade e desenvolvimento aos países que reivindicam os tais pedidos de desculpas e políticas de reparações, já que, na realidade, apenas iriam viciar esses mesmos Estados, elites governantes locais e até populações em eternas e repetidas medidas do tipo (em looping ou como uma roda do hámster), sem atacar as efetivas causas dos problemas que afetam esses países e sem produzir os verdadeiros incentivos para a mudança preconizada.

Por tudo isto, considero que este tipo de políticas de «pedidos formais de desculpa pelo passado» já há muito ocorrido, quando, reconhecidamente, se tratou esse passado de algo que, há época, era generalizado, não sendo tido por ninguém como ilegal nem sequer como imoral, um manifesto erro que, longe de pacificar o que quer que seja, pelo contrário, despoletará os efeitos mais negativos, inclusive sob ponto de vista das relações humanas entre povos e indivíduos. Tanto mais que se trata de uma via única — dos países ocidentais em relação a outros —, impondo uma carga (pretendida) de culpa de uns sobre os outros com as devidas implicações.

Por fim, gostaria apenas de dizer que, Andy Burnham, a meu ver, está a usar a desculpa da possível fragmentação da Commonwealth Britânica para justificar face aos Britânicos o tal pedido formal de desculpas que tanto parece querer protagonizar. Devo relembrar que se trata de alguém que não sequer foi eleito diretamente pelo Povo Britânico para o cargo que ocupa, não estando, politicamente, legitimado para dar um tal passo segundo me parece. E isso, mais tarde ou mais cedo, penso que emergirá com consequências políticas desastrosas para os trabalhistas e para ele próprio, tendo em conta que, segundo julgo, a larga maioria daquele povo não estará de acordo com uma tal política propugnada pelo ex-Mayor de Manchester. Aliás não conheço melhor receita para a polarização da sociedade e o crescimento dos extremos que políticas como esta. Ao invés de enfrentar, de forma decidida, o wokismo deplorável preconizado por determinados Estados falhados da Commonwealth Britânica (como, p. ex., Churchill fez com os totalitarismos nazi e soviético no século XX), Burnham, ao que parece, prefere ceder a tais movimentos que, tudo visto, a única real intenção pretendida, segundo julgo, será a de afundar, decisivamente, o seu próprio povo e país. Inclusivamente, as ameaças de fragmentação da Commonwealth, além de assumirem as vestes de chantagem barata, penso serem, na verdade, claramente um fogo fátuo. Como é que muitos desses países membros desta organização teriam acesso a muitos dos benefícios que ainda hoje retiram daquela organização, inclusive os milhões de ajuda ao desenvolvimento e cooperação pagos pelo Estado Britânico àqueles mesmos países? E, mais importante que isto, e que eu penso que muitos no Reino Unido começaram a questionar seriamente, para que serve exatamente uma organização deste tipo se, na realidade, tudo visto, ainda serve para prejudicar, seriamente, os interesses britânicos?

Como anteriormente dito, a acontecer um tal pedido forma de desculpas, parece-me um erro tremendo, fruto de políticos que, infelizmente, na atual Europa Ocidental se mostram cada vez menos estadistas, assumindo ao invés posturas de clara miopia e cobardia política.