Que se faz em outubro? Mata-se o porco? Bebe-se jeropiga? Comem-se castanhas? Usam-se camisas de pescador? Joga-se hóquei no gelo? Admito que num par de ocasiões já saí de casa com um casaquinho mais grosso.
Se calhar alguns de vós estiveram de férias; outros mudaram-se para a periferia; haverá quem sofra de maleitas de amor. Alguém dizia que nunca estamos verdadeiramente sós quando temos música, o que é uma boutade bonita, mas falsa; de qualquer modo, concedamos que a vida sem música seria impossível.
E é exactamente por saber isso que vos trago cinco disquinhos de outubro com potencial para aquecer muitas das vossas noites.
“The Same Place”
The Olivia Tremor Control
O que é que se faz quando nunca ninguém ligou ao teu trabalho e ainda por cima os principais responsáveis pelo teu trabalho se finaram? Acabas o trabalho deles – que é também o teu, claro. Porque nós, os poucos que querem saber, querem muito saber. Houve poucas bandas tão esquisitas e deliciosas como os Olivia Tremor Control, cuja música por vezes parecia um fruto exótico nascido, por sua vez, do cruzamento de frutos ainda mais exóticos, e que tinham propriedades psicadélicas. Fundados em Athens, no estado americano da Geórgia, foram figuras centrais da Elephant 6 (casa dos Neutral Milk Hotel ou dos Apples in Stereo); o seu mote era criar bandas-sonoras para filmes de animação inexistentes, o que se tornava a desculpa perfeita para resgatar o psicadelismo dos Beatles, dos Zombies ou de Syd Barrett através de colagens sonoras e muita experimentação caseira.
https://open.spotify.com/intl-pt/album/22Qa4J7PkfP23xfqx4QBat?si=66bf5a085cd44fbd
O meu disco preferido dos OTC é Black Foliage (1999); entretanto, Bill Doss e Will Cullen Hart morreram (em 2012 e 2024, respetivamente) e os restantes membros do coletivo pegaram no que eles deixaram e criaram esta ode a si próprios: a exuberância melódica de Dusk at Cubist Castle e o experimentalismo de Black Foliage, como verificável na maravilhosa “Timewaster” (metais e pop psicadélica); ou na estupidamente melódica Garden of Light (de uma beleza quase infantil). Uma lista das grandes canções do álbum poderia ser apenas a enumeração das 27 que o compõem. 27 canções? Oh diabo, por onde começar? Bom, Begin Now! chama-se Begin Now! e depois irrompe em guitarras ruidosas e harmonias luminosas; depois para continuar temos The Spinning Continuous, mergulhada num labirinto de cordas, órgãos e guitarras delirantes. Os Olivia Tremor Control nunca mais farão um disco, viva os Olivia Tremor Control.
“Popstar”
Tinashe
É possível que por vezes tenham a sensação de que todas as semanas existe uma nova estrela pop feminina – o que talvez se deva a que quase todas as semanas os media nos apresentem o que dizem ser “A” nova estrela pop, e a dita nova estrela pop surge-nos no algoritmo do Instagram demanhã à noite. Ainda há pouco andávamos a gabar a lascívia white trash de Slayyter – uns mesinhos depois e Tinashe é a mulher a seguir. O que vale é que avisa logo ao que vem no título do disco – e faixas como Too Easy, uma espécie de r’n’b esquelético e futurista, não só vale bem a pena como ainda prepara a chegada de Melatonin, uma espécie de hino de club anti-house: quase nada acontece e no entanto é incrível.
https://open.spotify.com/intl-pt/album/06CjF89lLSSiVWXujVVtQs?si=5cf1c292d5844d33
Nascida em 1993, Tinashe estreou-se com Aquarius (2014), ajudando a redefinir o r’n’b alternativo antes de fazer nome com o êxito viral Nasty; isto pode parecer estranho, mas Popstar é nada mais nada menos que o seu oitavo álbum – e possivelmente o mais ambicioso. Já usei a experessão r’n’b futurista, não usei? Que se dane, vou usar outra vez: entre o r’n’b futurista, a eletrónica de clube, o hyperpop e a pop dos anos 2000 (com ecos de Britney Spears, Janet Jackson e FKA Twigs, não por acaso as suas maiores heroínas), Tinashe constrói um disco simultaneamente hedonista e inquieto, que tanto recua ao drum’n’bass como cruza graves voluptuosos com uma sensualidade quase hipnótica em Nobody Wanna Dance Anymore. É muito duvidoso que Popstar a torne numa estrela; esta música é demasiado desafiante para isso. Mas merece mais que 15 minutos da nossa mais atenta atenção.
“Do Not Dare to Dream”
Teenage Fanclub
Pronto, despachem logo a piadinha do “isso é música de boomer”; antes música de boomer que música de quem só gosta de uma coisa e não aceita nada que seja antigo. E se os Teenage Fanclube são antigos: formados em Glasgow em 1989, e não sendo inventores do indie-rock, são dos pioneiros, em particular da secção gingona que escolheu como figuras totémicas os Byrds e Big Star – se calhar devia acrescentar os Beatles, mas só para chatear saco também de uns 13th Floor Elevators. Estes 37 anos são uma das mais belas aventuras da história da pop de guitarras e, não senhor, não vou fazer uma afirmação destas sem pelo menos deixar um par de recomendações: Bandwagonesque ou Grand Prix, escolham, um deles tornar-se-á o vosso preferido quando os ouvirdes.
https://open.spotify.com/intl-pt/album/5QU2B5YghYinEDhsetY6oo?si=7abf14a054544a9e
Não vou fingir que Do Not Dare to Dream, o 13.º álbum da banda, está a esse nível – antes prolonga a serenidade de Nothing Lasts Forever, trocando a urgência juvenil por uma melancolia luminosa. Há aqui mais do folk-rock californiano dos anos 70, com harmonias vocais delicadas e teclados que enriquecem as melodias. There Was You abre com a doçura contagiante de outros tempos; Tomorrow People introduz sintetizadores psicadélicos numa canção que parece recuperar o espírito dos, ora bem, deixa-me aqui olhar para as notas, ah, os Byrds; Over and Over traz-nos uma melodia de resignação esperançosa; e Take Time, com as suas flautas de Mellotron, é um hino à contemplação. Na ausência da eletricidade de outrora, Norman Blake e Raymond McGinley continuam a encontrar beleza nas pequenas coisas.
“Dja Dja”
Marina Herlop
Antes de mais um conselho: não ponham Dja Dja quando receberem dois casais lá em casa para um pacato serão – foi para isso que se inventou a bossa-nova, a mistura perfeita de experimentação, melancolia e beleza. Herlop está num campeonato particularmente exigente: pianista e compositora catalã de formação clássica, começou pela austeridade do piano e voz de Nanook (2016) e Babasha (2018), antes de abraçar a eletrónica experimental em Pripyat (2022) e Nekkuja (2023). Dja Dja, o seu quinto álbum, é a culminação dessa metamorfose: em As Meigas temos percussões, sons feitos com a boca, partes quase sem palavras, outras gritadas, numa das faixas mais estranhas e sedutoras que ouvi em anos.
https://open.spotify.com/intl-pt/album/2EzFFqkhvaXUaTzcWwWUDZ?si=5ff73105e6de43a9
Claro que isto nos faz pensar em Björk ou Meredith Monk ou Steve Reich; faz-nos pensar o que será a música tradicional indonésia; faz-nos pensar se a pop que Herlop constrói é de outro planeta – de onde vêm estas polirritmias, estes arranjos quase barrocos. Regresso a As Meigas porque é impossível não regressar – é o milagre da multiplica dos cânticos e vocalizações numa floresta de sons desconcertantes; Vas Volant encontra uma inesperada sensualidade no jazz-funk; Los Dos Lobos faz desfilar metais monumentais sobre ritmos mutantes; e em Bliss a euforia transforma-se numa celebração quase ritual. Excessivo, labiríntico e frequentemente deslumbrante, Dja Dja é um disco que parece inventar a sua própria linguagem enquanto a fala. E raramente a estranheza soou tão bela.
“No Bad Memories”
The Avalanches
Sinto um grande orgulho em escrever sobre os Avalanches logo a seguir a ter escrito sobre No Marina Herlop e o seu Dja Dja – é que quando os Avalanches surgiram eu também achei que eles tinham criado uma linguagem só sua, embora claramente mais pop que a de Marina, e profundamente associada às técnicas de colagem do hip-hop – que transformaram numa espécie de arqueologia sentimental. Depois do revolucionário Since I Left You (2000), do psicadelismo de Wildflower (2016) e da melancolia cósmica de We Will Always Love You (2020), regressam com No Bad Memories, um quarto álbum que recupera a exuberância da estreia.
https://open.spotify.com/intl-pt/album/3De7Ues320SIjGCaz5b6fX?si=99b3632c61e2435f
Construído a partir de milhares de fragmentos de publicidade, jingles e gravações esquecidas, No Bad Memories cruza a herança dos De La Soul e Beastie Boys com a eletrónica de Jamie xx e a pop psicadélica. Together transforma sons digitais e memórias televisivas numa explosão de UK garage; Every Single Weekend, com Jamie xx, é uma irresistível celebração estival; Blue Shadows, cantada por Karen O, recupera o romantismo agridoce da pop dos anos 60; e Can’t Get Over Losing You encontra uma tristeza comovente no meio da euforia.
Há excessos e interlúdios dispensáveis, mas também uma ideia belíssima: resgatar emoções dos destroços da cultura de consumo. Os Avalanches continuam a fazer da nostalgia uma forma de imaginar o futuro.