O Presidente norte-americano foi várias vezes claro: a Ucrânia não devia atacar refinarias de petróleo russas. Donald Trump culpou repetidamente a liderança ucraniana pelo aumento do preço dos combustíveis nos Estados Unidos da América (EUA) e até no mundo, anunciando um acordo com o Kremlin para libertar reservas de gasóleo. Nos bastidores, contudo, a realidade era bem diferente: segundo avançou o Kyiv Independent, a CIA continuou a fornecer discretamente dados confidenciais a Kiev para manter os ataques em território russo, incluindo contra as grandes petrolíferas.
Ao mesmo tempo que responsabilizava a Ucrânia e até sugeria a saída de Volodymyr Zelensky da presidência, a administração Trump reabria as negociações entre as partes, exercendo pressão sobre Kiev — o magnata Elon Musk terá inclusive imposto restrições ao Starshield (o serviço de satélites detido por si) em território ucraniano. O enviado especial Steve Witkoff viajou para Moscovo e reuniu-se com Volodymyr Zelensky em Oslo, estando também previstas para esta semana novas reuniões entre as duas partes em confronto nos Emirados Árabes Unidos, embora não seja certo se se vão realizar.
Não seria a primeira vez que delegações russa e ucraniana se encontrariam nos Emirados — esses contactos já ocorreram no passado, sempre com resultados pouco concretos. Nenhuma das partes aceitou ceder ou avançar para a mesa de negociações: a Rússia recusa categoricamente retirar as suas tropas das áreas ocupadas, enquanto a Ucrânia rejeita ceder no controlo do Donbass. Encontrar um ponto de encontro entre as partes parece ser uma tarefa quase impossível.

O novo esforço diplomático de Washington aparenta seguir o mesmo destino. Nem mesmo o secretário de Estado se mostra otimista em relação a eventuais avanços. Numa conferência de imprensa após a cimeira do G20, este fim de semana, Marco Rubio afirmou: “Não sei se uma paz negociada é alcançável na Ucrânia”. “É o que estamos a tentar fazer, mas não creio que alguém possa alegar que estamos perto de uma solução diplomática”, declarou.
O empenho da Casa Branca em travar o conflito aparenta ser pouco consistente. Ao culpar Volodymyr Zelensky e apontar para os ataques a refinarias russas, Donald Trump terá procurado obter dividendos políticos e ganhar votos para os republicanos nas eleições intercalares. Como prova de que é capaz de uma trégua, com o apoio da primeira-dama Melania, alcançou um cessar-fogo temporário em Oleshky. Subsistem, no entanto, várias dúvidas sobre se estes esforços terão seguimento — até porque, assim que a contagem dos votos das eleições intercalares terminar, a presidência norte-americana deverá voltar as atenções para outra das prioridades: o Irão.
O cessar-fogo em Oleshky: Rússia recusa prolongá-lo e prossegue ofensiva
Normalmente fora da arena política e com um papel mais simbólico na Casa Branca, Melania Trump foi o rosto de um cessar-fogo temporário de seis dias em Oleshky, uma cidade na linha da frente na província de Kherson, no sul da Ucrânia, que estava, segundo descreveu a primeira-dama, “à beira do desastre”. Apesar de várias dúvidas, a iniciativa de Melania, que esteve em contacto com dirigentes russos e ucranianos, resultou na saída de cerca de 800 civis da localidade. Porém, assim que a trégua terminou, Moscovo voltou aos ataques.

No passado, em certas circunstâncias (em festividades como a Páscoa Ortodoxa ou o Natal), já se tinha chegado a acordo para um curto cessar-fogo, até ao longo da linha da frente. A Rússia, ainda assim, opõe-se a um cessar-fogo temporário mais longo, argumentando que isso servirá para rearmar e reorganizar as tropas ucranianas. Apenas pontualmente concede aceitar tréguas curtas, sendo o grande objetivo o fim total das hostilidades, num acordo que lhe seja favorável.
Num momento em que procura obter concessões dos norte-americanos na mesa das negociações, o lado russo acedeu ao pedido da primeira-dama norte-americana para mostrar alguma boa vontade e para provavelmente manter o bom relacionamento com Donald Trump. Oleshky está sob controlo de Moscovo desde 2022, se bem que as condições humanitárias se tenham mantido bastante precárias na localidade. Através dos corredores de transporte seguros, os moradores puderam decidir, nos últimos dias, se queriam dirigir-se para território ucraniano ou para zonas sob domínio russo.
Depois dos seis dias, esta segunda-feira, o Kremlin, através do porta-voz Dmitry Peskov, assegurou que se cumpriram os objetivos “desta operação humanitária”. Assim que terminou, a Ucrânia denunciou, contudo, que a Rússia voltou aos ataques. Fonte das Forças Armadas denunciou que “os ocupantes russos atacaram um carro com um drone no bairro de Korabelny”, na província de Kherson, provocando dois feridos.

Naquela província do sul da Ucrânia, existe uma fronteira natural que separa os dois lados: o rio Dnieper. Desde a contraofensiva ucraniana no final de 2022, Kiev controla a margem direita da província de Kherson, onde tem resistido a constantes bombardeamentos russos. Já a Rússia mantém o domínio na margem esquerda, utilizando-a como base para consolidar o controlo sobre a totalidade da província.
Mesmo não pertencendo ao Donbass (região que integra Donetsk e Luhansk), a Rússia pretende manter também o domínio sobre Kherson e também Zaporíjia. Em eventuais negociações de paz, a Ucrânia tem admitido a possibilidade de congelar a linha da frente, mantendo sob o controlo de Kiev os territórios que ainda domina nas quatro províncias atravessadas pela linha da frente. O Kremlin não tem sido claro sobre se aceitaria essa premissa em Kherson e Zaporíjia, embora rejeite totalmente ceder qualquer parte do Donbass.
Rússia não cede, Ucrânia com apoio discreto mas eficaz da CIA
Independentemente do decorrer das negociações, as tropas russas vão continuar a ofensiva. A ideia em Moscovo, apesar das aproximações norte-americanas, não aparenta ter mudado: ou obtém à força os territórios que vê como seus, ou mantém a soberania por via diplomática. O cessar-fogo em Oleshky foi apenas um pequeno parêntesis numa estratégia bem definida no Kremlin. Em Moscovo, acredita-se que a Europa e os Estados Unidos vão acabar por se cansar de apoiar o esforço de guerra ucraniano — e que, portanto, Kiev ficará sem recursos para sustentar a resistência.

Essa perceção tem sido alimentada pela subida de forças críticas contra o apoio à Ucrânia nas sondagens antes de eleições cruciais em vários países europeus. Neste momento, tendo sido suspenso o envio direto de armamento dos Estados Unidos, os ucranianos dependem do financiamento militar europeu, que adquire armamento norte-americano através do mecanismo PURL no quadro da NATO. Porém, este cenário pode mudar a curto prazo.
Em 2027, França vai a eleições e pode ter, na segunda volta, dois candidatos (Marine Le Pen, da União Nacional, e Jean-Luc Mélenchon, da França Insubmissa) que se opõem à manutenção do apoio militar francês a Kiev — e que podem também desestabilizar a coesão na União Europeia. Na Alemanha, Alice Weidel, líder da Alternativa para a Alemanha e abertamente pró-russa, continua a subir as intenções de voto nas sondagens. Estes são bons sinais para o Kremlin que, caso não alcance uma solução diplomática imediata, pode dar-se ao luxo de esperar que os parceiros da Ucrânia decidam deixar de apoiar o país.
Mesmo que o prolongamento do conflito pressione as contas públicas russas e comecem a surgir críticas dos russos, o Kremlin mantém sob controlo rigoroso qualquer dissidência ou protesto contra a guerra. Confiante de que partidos favoráveis ao reatar de laços com Moscovo vão ganhar terreno na Europa, a via diplomática surge como mera forma para antecipar o fim das hostilidades. A Rússia sente que o tempo joga a seu favor e recusa-se a abdicar da sua posição de força, independentemente das palavras de simpatia de Donald Trump para com Vladimir Putin.

Por sua vez, a Ucrânia resiste. O país invadido tem recorrido a táticas cada vez mais disruptivas na linha da frente para neutralizar a superioridade numérica russa. Em simultâneo, os ucranianos têm levado o conflito para o interior do território russo, minando infraestruturas vitais para a sustentação do esforço de guerra inimigo. A estratégia parece estar a surtir efeito: segundo Volodymyr Zelensky, Moscovo registou em outubro de 2026 o maior número de baixas desde o início da invasão.
Ainda assim, a Ucrânia continua vulnerável às oscilações de humor na Casa Branca. Vários membros da administração Trump consideram que a pressão sobre Kiev é o caminho mais eficaz para terminar a guerra. Elon Musk restringiu serviços por satélite à Ucrânia e vozes mais radicais do movimento Make America Great Again rotularam Volodymyr Zelensky “como um inimigo da América” por atacar as refinarias. O intuito é forçar Kiev a aceitar um acordo de paz, ainda que desfavorável.
Nem todos pensam da mesma forma — o que tem sido fundamental para a Ucrânia manter algum apoio norte-americano. Numa administração Trump dividida entre isolacionistas e intervencionistas, a causa ucraniana está longe de ser consensual, mas conta com um aliado de peso: os serviços de informações norte-americanos, em particular a CIA, liderada por John Ratcliffe. Como revelou uma fonte ucraniana à revista Atlantic, o diretor está “bem informado e entende a situação real”. “As pessoas dele apoiam-nos bastante. Têm sido absolutamente profissionais”, declarou um responsável ucraniano dos serviços de informações de Kiev.

Para a CIA, como escreve a Atlantic, uma eventual derrota da Ucrânia colocaria em causa os interesses de segurança dos Estados Unidos e da Europa, havendo um histórico de forte animosidade em relação à Rússia que remonta aos tempos da Guerra Fria. Discretamente, o ramo das secretas tem apoiado os ucranianos a atacar território russo, apesar das mensagens ambivalentes e contraditórias da Casa Branca — ao longo do seu segundo mandato, Donald Trump ora elogia Volodymyr Zelensky, ora o destrata e sugere a sua saída.
Embora fontes próximas de John Ratcliffe tenham assegurado à Atlantic que a agência cumpriria uma ordem direta de Trump para cortar a partilha de informações confidenciais (como sucedeu em março de 2025), a CIA tem aproveitado a ambivalência da Casa Branca para manter a cooperação. Recentemente, segundo o Kyiv Independent, o ramo das secretas continuou a fornecer coordenadas vitais a Kiev para atacar refinarias russas — alvos a que Donald Trump se opõe publicamente.
A margem de manobra da CIA face ao poder político não é clara e o assunto é amplamente debatido. De qualquer forma, uma figura próxima da administração sublinhou ao Kyiv Independent que a retórica dura das últimas semanas é para consumo interno. A Casa Branca precisa de encontrar um bode expiatório na véspera das intercalares para explicar a subida dos combustíveis e Volodymyr Zelensky foi escolhido. A mesma fonte confirmou que, pese a todas as notícias e críticas aos ucranianos que foram surgindo, a CIA manteve a transmissão de informações estratégicas que viabilizaram a ofensiva contra o setor petrolífero russo.

Este fim de semana, a dias das intercalares, a Ucrânia atacou uma refinaria em Nizhny Novgorod, mesmo após o Wall Street Journal ter noticiado que os ucranianos tinham concordado em não atacar o setor energético russo durante 30 dias. Publicamente, o episódio parece ter passado ao lado de Donald Trump, que nem sequer o comentou publicamente. Em parte porque, na agenda de política externa da Casa Branca, as atenções começam a virar-se para um novo foco, desta vez no Médio Oriente.
Como o Irão pode interromper as negociações entre Rússia e Ucrânia
O dia 3 de novembro marcará um antes e um depois da administração Trump. Dependente do resultado nas intercalares, a presidência poderá sair enfraquecida ou fortalecida. Na política externa, pouco vai mudar, pois Trump assume grandes poderes nessa matéria. A curto prazo, ainda assim, a história é outra. O Presidente norte-americano está a ponderar, após as eleições, se deve ou não atacar o Irão, enviando mensagens contraditórias. Não é claro se há negociações em curso ou se são apenas uma cortina de fumo para agradar à base eleitoral MAGA, com tendências isolacionistas e contra guerras estrangeiras.
No Médio Oriente, a Casa Branca aparenta estar dividida: se continua na via diplomática com os iranianos ou avança para um ataque. No meio de todas estas dúvidas, a questão ucraniana perde gás e mantém-se o statu quo até agora: uma guerra de atrito entre russos e ucranianos na linha da frente com tímidos avanços e recuos de parte a parte.

Após a exposição que deu ao assunto, Donald Trump quase já nem fala sobre o conflito na Ucrânia. Ainda assim, para o final desta semana estão marcadas reuniões entre delegações russas e ucranianas nos Emirados Árabes Unidos. Encontros que ainda não se sabe ao certo se vão ocorrer — tudo por causa da ameaça que paira sobre o Irão e a possibilidade de um ataque norte-americano.
Um assessor de Vladimir Putin, Yuri Ushakov, admitiu que as negociações “vão depender da situação no campo de batalha e em geral”: “A situação agora no Médio Oriente parece não permitir qualquer encontro no futuro próximo. É a minha opinião”. Mesmo se Donald Trump não atacar o Irão, o Kremlin parece convencido de que os progressos diplomáticos, nos próximos tempos, serão poucos.
Do lado ucraniano, Volodymyr Zelensky também reconhece que atualmente “o principal foco” dos Estados Unidos está “no Médio Oriente”. “Há vários desenvolvimentos, incluindo mudanças políticas em alguns países, que podem influenciar o Médio Oriente”, frisou. O chefe de Estado da Ucrânia vê mesmo como provável uma escalada no Irão: “Eu acho que vai acontecer.”
Diante de outras prioridades no Médio Oriente, a administração Trump parece colocar novamente em segundo plano a guerra na Ucrânia, como já aconteceu várias vezes desde janeiro de 2025. Explorando-a apenas quando sente que pode eleitoralmente ganhar algo com isso, o Presidente norte-americano, que prometeu terminar o conflito em apenas 24 horas, escolhe ativamente arrastar a sua resolução. Em parte, porque o seu círculo mais próximo está profundamente dividido sobre como agir — e o tema parece ser demasiado complexo e com tantos cinzentos para que um chefe de Estado tão polarizador como Donald Trump o consiga solucionar.