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Entre a rua e a responsabilidade institucional: as divisões no PS sobre os protestos pela habitação

Protestos pela habitação expõem diferenças no PS: há quem peça (e tenha) maior intervenção na rua, outros exigem distância da contestação. Líder quer manter pontes e endurecer crítica a Montenegro.

Rita Tavares
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A escalada da tensão nos protestos pela habitação e as intervenções policiais têm levado um número crescente de deputados e dirigentes socialistas às manifestações. O líder socialista, José Luís Carneiro, não tem incentivado diretamente a participação de membros do partido nos protestos, mas também não se opõe a essa presença. O “recuo” do primeiro-ministro veio dar um novo fôlego à estratégia do secretário-geral do PS, que, internamente, segundo apurou o Observador, tem defendido que é necessário manter pontes com quem está na rua.

Esta foi, de resto, uma das razões que levaram o líder parlamentar Eurico Brilhante Dias a juntar-se, na semana passada, aos manifestantes em frente à Assembleia da República, acompanhado por outros deputados socialistas, como Luís Testa, Carlos Pereira, Francisco César e Nuno Fazenda. Nesse mesmo dia, estiveram também junto dos manifestantes o antigo ministro das Infraestruturas, Pedro Nuno Santos, e a antiga ministra da Habitação, Marina Gonçalves. A presença socialista foi prontamente criticada pelo PSD, com o líder parlamentar Hugo Soares a chamar-lhe a “maior hipocrisia política” que já tinha visto na vida.

Mas estes não foram os únicos socialistas que se deslocaram aos protestos que têm existido. No último domingo, os deputados Pedro Delgado Alves, Eva Cruzeiro e Isabel Moreira estiveram no Rossio, em Lisboa, durante parte da noite, antes do início da carga policial. De acordo com socialistas ouvidos pelo Observador, existia a expectativa de que a presença de deputados pudesse dissuadir uma intervenção policial. No fim de semana anterior, porém, a presença do deputado do BE Fabian Figueiredo não impedira uma carga policial.

Na noite de sábado, Pedro Delgado Alves disse aos jornalistas que não existia “um movimento organizado” para a presença dos deputados na praça do Rossio — estavam também Fabian Figueiredo, do BE, e Isabel Mendes Lopes, do Livre — e explicava que se pretendia apenas “sensibilizar” as forças de segurança para o que estavam a ver. Na altura atravessou-se mesmo ao dizer que não existia “razão rigorosamente nenhuma” que justificasse uma ação da polícia.

Depois da carga na madrugada de domingo, foram ainda mais os socialistas que saíram à rua. No domingo, no Porto, os deputados Tiago Barbosa Ribeiro e José Carlos Barbosa estiveram na Praça D. João I, tal como o líder do PS-Porto, Nuno Araújo. Em Lisboa, Mariana Vieira da Silva, André Pinotes Batista, Alexandra Leitão e Sofia Pereira (líder da JS) foram alguns dos socialistas que estiveram no Rossio durante a tarde.

O líder do partido não tem planos para participar nas manifestações, sabe o Observador. Uma fonte próxima do secretário-geral explica que José Luís Carneiro que o objetivo é evitar que essa presença seja vista como uma tentativa de apropriação política do movimento. Nessa decisão pesa também o papel institucional do líder do PS, um partido que se apresenta como alternativa de Governo. A mesma fonte defende, aliás, que os socialistas que entendam juntar-se aos protestos devem “equilibrar a sua função de representação com a de manifestantes”: participar não significa falar em nome de quem protesta.

Na quinta-feira passada, em entrevista ao Observador, o socialista Francisco Assis foi especialmente crítico dos deputados que estiveram nas manifestações. Alertou para uma eventual pressão crescente sobre o secretário-geral do partido para radicalizar o discurso e para os perigos da influência da extrema-esquerda sobre o PS. Questionado diretamente sobre a participação do ex-líder Pedro Nuno Santos e da antiga ministra Marina Gonçalves no protesto em frente ao Parlamento, o eurodeputado considerou “absurdo que deputados do PS se vão misturar com os manifestantes que estão em frente à Assembleia da República”. E acrescentou: “Isso eram práticas típicas de outros partidos, não do Partido Socialista.”

No mesmo dia, no programa Vichyssoise, também no Observador, o deputado e secretário nacional adjunto Luís Testa contrapôs que Assis estava “claramente errado”. “O PS esteve, muitas vezes, ao lado dos manifestantes”, afirmou. Sobre aquela manifestação em frente ao Parlamento, acrescentou que “havia muitas pessoas como o Francisco Assis. Porventura com menos capacidade para comprar casa”, atirou.

https://observador.pt/especiais/habitacao-tirar-eleitores-a-ventura-sem-ir-atras-da-rua-o-desafio-do-ps-de-carneiro/

Resposta de Carneiro à tensão nas ruas com críticas em sentidos opostos dentro do PS

Desde a noite desta terça-feira, o líder socialista festeja aquilo que interpretou como uma vitória sua: o convite do primeiro-ministro para o diálogo sobre soluções para o problema da habitação. “Finalmente, o primeiro-ministro reconheceu que a crise que estamos a viver não pode ter uma solução policial”, disse Carneiro na reação à declaração de Montenegro e ao telefonema que recebeu do primeiro-ministro de manhã para o convidar para uma reunião em São Bento. O socialista viu nesta iniciativa uma resposta ao “esforço” do PS no pedido de diálogo sobre os problemas da habitação.

Carneiro tem procurado mostrar que sempre esteve do lado da solução, que apresentou propostas — lembrou as cartas escritas ao primeiro-ministro com propostas — e que está aberto a “chegar a um ponto de encontro”, até numa questão em que o Governo já tem acordo feito com o Chega: as alterações à lei das rendas.

Também diante das manifestações, a postura adotada por Carneiro no período de tensão tem procurado a figura da moderação, mas não tem estado isenta de críticas internas. Miguel Prata Roque, por exemplo, achou insuficiente a conferência de imprensa do líder do PS no domingo, depois da carga de sábado à noite, e foi para a rua juntar-se aos protestos. Na manhã seguinte, na rádio Observador, alertou Carneiro para o risco de ficar à espera da deterioração do Governo sem assumir posições mais firmes.

Prata Roque criticou a expectativa de que o poder possa regressar ao PS apenas por desgaste do adversário e questionou se o partido acredita que “o poder lhe vai cair no colo” se ficar “quietinho à espera”. Para o socialista, essa alternância tem um limite: “As pessoas não se mobilizam em favor de um projeto, mobilizam-se contra o estado de coisas e isso não permite aos governos mudar o país”.

O socialista defendeu que o partido deve “conceder condições ao atual Governo minoritário para implementar as suas políticas”, mas rejeitou que isso implique uma oposição pouco comprometida: o PS “não pode fazer um discurso balofo, de paninhos quentes, não se querendo comprometer”. Caso contrário, advertiu, “se o PS voltar a ser Governo, teremos mais do mesmo, ou seja, a incapacidade de fazer verdadeiras reformas no país”.

Se Prata Roque considera insuficiente a reação do PS no caso das manifestações, Ascenso Simões critica-a em sentido oposto. O socialista escreveu nas redes sociais que “a forma como o PS está a lidar com a situação está a afastar milhares de cidadãos que gostam de um país livre, mas também de um país com ordem/harmonia e respeito pela autoridade.” E acrescentou mesmo que isso pode ter um impacto eleitoral, a prazo: “O PS tem muitas câmaras no interior do país onde esses valores são mais presentes. Talvez as próximas autárquicas o façam perder 30 ou 40 câmaras. Não ter a presidência de grandes municípios, e perder parte dos pequenos, extingue definitivamente o Partido Socialista como força de poder”, alertou.

Nos últimos dias, nas várias entrevistas que deu, Pedro Nuno Santos também veio defender um PS mais interventivo na rua e menos disponível para sustentar o Governo. Em resposta às críticas que vieram, até dentro do partido, à sua participação num dos protestos, o socialista atirou: “Nós, socialistas, infelizmente, ao longo dos anos, preocupámo-nos demasiado com aquilo que a direita faz ou diz sobre nós.” Na entrevista à Antena 1, também defendeu que “um governo destes não deve ter o suporte do PS”. Já na rádio Renascença, criticou a abstenção socialista por dar “mais um ano de vida ao Governo da AD”, questionando, assim, a estratégia orçamental do líder.

E esta terça-feira surgiu ainda um manifesto, que tem nos seus promotores e subscritores vários socialistas (incluindo Duarte Cordeiro, tido como um dos potenciais futuros candidatos à liderança) e que mostra a necessidade de existir uma voz mais forte e centrada neste contexto. Nas declarações que fez ao Observador sobre essa iniciativa, o dirigente nacional Pedro Costa reconheceu que o Governo “tem feito um esforço” na habitação, mas que “há muito trabalho para fazer”.

Na resposta às manifestações, a posição oficial do PS foi evoluindo, com uma responsabilização política cada vez mais explícita do Governo. Carneiro começou logo por considerar que o uso da força parecia desproporcionado e exigiu explicações a Montenegro, defendendo que a solução para a crise da habitação não era policial. Dias depois, distinguiu a atuação dos agentes das decisões do Executivo, atribuindo responsabilidades às “orientações políticas” do Governo, e não à polícia. Mais recentemente, perante as cargas policiais do último fim de semana, endureceu o discurso e exigiu a presença urgente do ministro da Administração Interna no Parlamento.

Em termos de conteúdos sobre habitação, pediu a retirada da proposta do Governo para alterar a lei das rendas e propôs uma resposta de emergência negociada com o PS. Entre as medidas propostas estão a garantia pública no arrendamento, a moratória para os contratos que estão a terminar até ao final do ano e a mobilização de imóveis públicos para a habitação.

O PS procurou privilegiar uma estratégia de atuação institucional, assente no respeito pela ordem e na abertura ao diálogo e tentando concentrar a responsabilização política no primeiro-ministro, a quem Carneiro acusa de “falta de comando.” Tem defendido que Montenegro faça, aliás, uma remodelação e tem alvos concretos: o ministro da Administração Interna, mas também a ministra da Saúde, a do Trabalho e o ministro da Educação — que vai estar sob inquérito parlamentar, depois da proposta do PS na sequência dos problemas deste verão nos exames nacionais.

Numa entrevista ao Jornal de Notícias e à TSF publicada no fim de semana, José Luís Carneiro disse, no entanto, não saber “se uma remodelação será suficiente para que o Governo consiga responder às dimensões críticas em áreas nevrálgicas da vida do país, para que os portugueses possam estar tranquilos sobre o modo como o Governo responde às suas necessidades”. A declaração questiona a capacidade de resposta do Executivo, mas não é um apelo a eleições antecipadas. Em julho, numa entrevista ao Observador, Carneiro já afirmara não ter medo de eleições, embora afastasse esse cenário como opção preferencial a curto prazo.

Na mesma entrevista do JN, Carneiro atribuiu ao Governo a principal responsabilidade pela estabilidade política: “Nós temos procurado fazer tudo para dar estabilidade política e para evitar que o país entre numa crise. Mas vai depender mais do Governo e do primeiro-ministro, e já agora do seu grupo parlamentar, do que propriamente do PS, porque o primeiro-ministro é quem tem que decidir sobre os termos em que firma a sua base parlamentar”. A linha de Carneiro passa por reforçar a pressão sobre Montenegro, sem fazer do PS o responsável pela instabilidade política. É um equilíbrio que a contestação na rua e as críticas internas vão tornando cada vez mais difícil.

https://observador.pt/2026/11/03/se-estiver-de-boa-fe-e-possivel-carneiro-admite-acordo-nas-rendas-apos-montenegro-convocar-ps-para-reuniao/