Jerry Seinfeld estreou-se a solo em Lisboa este domingo, depois de um primeiro espetáculo acompanhado pelos “melhores amigos”. No palco gigante da MEO Arena, o humorista deu colo a uma geração que o conheceu através da série homónima que protagonizou, e que foi emitida pela televisão portuguesa nos anos 90. Apesar da controvérsia que visou o MEO Commedia A La Carte Fest no início de julho — depois da desistência de vários atos da respetiva programação, que organizaram uma ação de boicote ao humorista pró-Israel —, a noite decorreu sem grande alvoroço. Separar a arte do artista foi a atitude dominante entre aqueles que assistiram, sem palavras de ordem ou cartazes. Nas mãos apenas se viam os bilhetes impressos.
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Enquanto se aproxima da fila que dá entrada aos balcões da MEO Arena, Daniel afirma que vai ver o humorista norte-americano, de quem gostava “em miúdo”, na companhia da mulher e não é necessariamente crítico dos seus posicionamentos políticos. “[A questão israelo-palestiniana] tem contornos muito intrincados e há pessoas com opiniões muito instantâneas sobre um caso que tem um contexto tão complicado e distante de nós”, avança, concluindo de seguida que não faz “a junção daquilo que é o artista com aquilo que é a pessoa”.
Desde o ataque de 7 de outubro de 2023 que Jerry Seinfeld tem demonstrado um apoio inequívoco ao Estado de Israel, que visitou no rescaldo das investidas do Hamas naquele território. O humorista rejeita a solução de dois estados na região, recusa qualquer associação à palavra genocídio e já admitiu publicamente que “a Palestina não existe”. É frequente que os seus espetáculos de stand-up comedy sejam interrompidos por ativistas do movimento de libertação do território ocupado, que, em vídeos divulgados nas redes sociais, acusam Seinfeld de racismo e de apoiar a morte do povo palestiniano.
Na manhã deste domingo, circularam nas redes sociais fotografias da MEO Arena vandalizada com frases escritas a tinta vermelha, onde se lia “Fuck Israel” e “Free Gaza“. Questionado pelo Observador, o responsável de segurança da sala de espectáculos afirmou que as imagens foram geradas com recurso a inteligência artificial. De facto, cerca das 20h, a escadaria do edifício, que aparece grafitada na fotografia, não apresenta qualquer indício de vandalismo. Nas imediações da arena, apenas circulavam pessoas pela noite amena do Parque das Nações e grupos empenhados em entrar no recinto.

Às 20h15, as cancelas que protegem a entrada dos artistas, localizada na parte norte do edifício, escancaram-se para deixar passar a estrela da noite. Três motas da divisão de trânsito da PSP que descrevem marcha de emergência escoltam Jerry Seinfeld e a respetiva entourage, transportados em duas carrinhas de passageiros. Os veículos descem a rampa que dá acesso às traseiras da MEO Arena, protegida por um par de agentes da PSP, que se soma ao pessoal da segurança já destacado no local.
Em simultâneo, o staff da sala de espectáculos começa a recolher os telemóveis e outros aparelhos eletrónicos na posse dos membros do público, que utilizam as entradas principais para aceder ao recinto. “À chegada, o telemóvel será colocado numa bolsa individual Yondr, que ficará fechada durante o espetáculo”, lê-se no texto, enviado por e-mail aos espectadores apenas quatro dias antes do evento.
As opiniões dividem-se a este respeito. Débora e Diogo confessam-se curiosos. “Acho que as pessoas precisam de aprender novamente a desfrutar dos espetáculos em vez de estarem a ver tudo no telemóvel“, avança Débora. O marido recorda instâncias em que viu artistas ao vivo através de ecrãs alheios. “É muito estranho quando estamos sentados a ver um espectáculo e a pessoa ao lado passa o tempo todo a filmar, vê o espetáculo pelo ecrã do telemóvel.” O casal não se importa de abdicar dos aparelhos eletrónicos e acredita que a iniciativa pode aumentar o foco na hora de ver um espetáculo.
Maria da Luz, pelo contrário, garante que vai entrar com o telemóvel — “ou então não entro”. A professora de 64 anos aproxima-se da MEO Arena acompanhada pelo filho, David, que explica que o pai está doente e que precisam de se manter contactáveis. A mãe intercede: “Não é isso, o problema é que, quando comprei, não havia esta ‘lei’“, detalhe que só foi anunciado há poucos dias. O Observador apurou que a obrigatoriedade de prescindir do telemóvel à entrada do recinto pode ser invocada para pedir a devolução do preço dos bilhetes. “É isso que vou exigir, se me obrigarem mesmo [a deixar o telemóvel]. Se me chatearem mesmo, eu venho-me embora.”
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Fã da série Seinfeld há largos anos, Maria da Luz confessa-se apreensiva. Inteirou-se do boicote ao festival Commedia A La Carte e sabe que o humorista que vai ver “agora está diferente” e já não é “o famoso comediante que vimos na série Seinfeld dos anos 80”, segundo David. A sexagenária não promete ficar “se ele começar a meter-se com muita política”. “Fico triste que se meta a política em tudo e que se estrague um bocadinho a arte“, acrescenta, sobre os artistas que boicotaram o festival. Ao mesmo tempo garante que “se soubesse que [Seinfeld] era assim, talvez também não tivesse ido”.
“Chegámos à triste conclusão de que às vezes é difícil separar a arte do artista“, remata David. Mas, “é possível gostar de uma coisa sem gostar da pessoa que a fez.”
O fator nostalgia joga a favor do comediante, que atua pela primeira vez em Portugal. Depois do fim da série que o tornou num dos humoristas mais reconhecidos do mundo, Seinfeld — que representava uma personagem semiautobiográfica na televisão — dedicou-se à stand-up comedy. Contudo, a maior parte das pessoas com quem o Observador falou antes das 21h, hora a que estava previsto o início do evento na MEO Arena, afirmaram que o principal contacto que tiveram com o comediante se estabeleceu através da sitcom de nove temporadas (1989-1998).
“Vimos o Seinfeld nos anos 90, éramos adolescentes com 13 ou 14 anos“, recorda Débora, que hoje tem 43. O marido, Diogo, acrescenta que “é um bocado nostálgico” ver o humorista, mas que, independentemente disso, gosta “das piadas que ele faz, ele é diferente dos outros”. “Por exemplo, sempre adorei o Robin Williams, bastava-me olhar para ele e começava a rir. O Seinfeld não, parece que veio da classe operária, é muito como nós — foi dos primeiros comediantes que mostrou o absurdo nas coisas do quotidiano“.
O espectador e a mulher também têm uma opinião sobre as opiniões políticas do humorista. “Vínhamos a falar disso no carro”, explica Débora. “Acho que há que separar as pessoas da sua parte profissional, afinal ele é judeu, por amor de Deus, havia de estar em que lado do conflito?”
“Uma coisa são as crenças que as pessoas têm e outra é o seu trabalho”, continua. “Eu acho que as coisas não se têm de imiscuir — estar a boicotar artistas pelas suas crenças se isso não tiver nada a ver com o trabalho que fazem não tem sentido. Eu consigo aproveitar e gostar daquilo que ele faz independentemente das coisas em que acredita e que defende.”
Corre-se o risco de ceder a uma atitude intolerante, com afinidades ao “totalitarismo”, completa outra espectadora, ensanduíchada por duas filhas gémeas de 18 anos. Mafalda concorda com Herman José, que também constou da programação do festival e confessou à SIC Notícias ser “ferozmente democrático” e respeitador “de todas as opiniões”, numa entrevista que deu ao canal na sexta-feira. Como a mãe antes delas, as gémeas Maria Ana e Madalena são devoradoras de sitcoms e programas de comédia. Além de Seinfeld, já acabaram Friends, The Office, How I Met Your Mother (Foi Assim Que Aconteceu, na versão portuguesa) e Brooklyn 99.
As filas que se multiplicam nos vários acessos da MEO Arena vão aumentando em comprimento, sob o olhar vigilante de dois amigos de longa data, que contemplam a cena a alguns metros de distância. Ambos chamam-se Nuno e ambos seguram cervejas. “Recebemos a informação de que, durante o espetáculo, os bares iam estar todos fechados”, explicam — o que não se confirma, quando entram no recinto. O par costuma assistir a espectáculos juntos: “O último [solo de stand-up] que fomos ver foi o do Ricky Gervais”, explicam, demonstrando interesse pelo próximo espectáculo do humorista britânico, que vai acontecer naquele sítio no próximo dia 19 de março.
A proibição de usar telemóveis durante o evento não é totalmente estranha a um dos Nunos, que já foi impossibilitado de aceder ao seu smartphone durante um concerto da banda Placebo, sob pena de ser expulso. “Lá dava para entrar com o telemóvel, mas avisaram que, se alguém filmasse, ia para a rua“, explica. Ao contrário daquilo que acontece este domingo, e que se junta a um conjunto de procedimentos que retardam o andamento das filas, o concerto dos Placebo não disponibilizava bolsas Yondr — que são trancadas antes de se entrar no edifício e reabertas à saída. Sobre o confronto de opiniões a respeito do caso Israel vs. Palestina, o duo limita-se a dizer: “Eu também sou do Sporting e ele é do Benfica.”
Sandra, Ricardo e Alexandre também são frequentadores assíduos da MEO Arena. Nos últimos meses foram ver Robbie Williams e The Weeknd, e regressam ao recinto já na terça-feira para o concerto dos Duran Duran. Contudo, nunca viram um aparato como aquele que está montado neste domingo. As regras apertadas do evento atrasam o fluxo de espectadores, que além de terem de entregar os “telemóveis, smart watches, óculos inteligentes, câmaras ou quaisquer outros dispositivos de gravação”, devem submeter as suas malas a uma inspeção efetuada pelos seguranças no local. Ficam para trás as garrafas de água — com ou sem tampa — e há relatos de tubos de batom retidos, depois depositados pelos proprietários no bengaleiro.
O casal de 46 e 48 anos vem acompanhado pelo filho Alexandre, de 14, e leva os bilhetes impressos — uma advertência que constava na informação veiculada pelo MEO Commedia A La Carte Fest. “Deixámos os telemóveis em casa“, explicam, mas começam a sentir os efeitos de uma síndrome de abstinência. “Estamos muito habituados [aos aparelhos]”, diz Sandra, acrescentando que o filho “já meteu a mão à mala não sei quantas vezes”, num gesto reflexo. Sem possibilidade de ver as horas — o relógio de pulso é smart e também ficou em casa — “fui perguntar as horas agora ao segurança”, continua.
“Caríssimos” é a avaliação que a família faz dos preços para ingressar no espectáculo. Maria da Luz — já aqui referida — diz mesmo que “a cultura está caríssima, cada vez mais inacessível”. Os acessos ao espectáculo a solo de Seinfeld variam entre os 60 e 220 euros (sem incluir a comissão cobrada pelas bilheteiras online), valor que os dois amigos chamados Nuno consideram “um bocado puxado”, mas justificável — “tendo em conta que o Seinfeld só vem à Europa para fazer este espectáculo e nunca cá veio antes”. Débora e Diogo vão mais longe: “Não achei exorbitante, é mais ou menos aquilo que esperávamos”, admitem.
“Tem a versão física do bilhete?”, pergunta uma funcionária da arena a todos os grupos de espectadores que compõem as filas. A pergunta denuncia uma solução alternativa para quem se esqueceu de trazer um formato analógico dos ingressos — que, explica a funcionária, “convinha”, mas pode ser “resolvido com estes papéis”. Na mão traz uma resma de cartões quadrados, onde são inseridos os dados contidos nos bilhetes, depois de serem validados pelos assistentes de sala.
“Reviver o passado”
Ultrapassadas as várias etapas de inspeção de bilhetes, da mala e dos aparelhos eletrónicos, depositados numa bolsa que pode ser pendurada ao pescoço — finalmente é possível entrar no recinto, que oferece quase tantas diversões como a sessão de stand-up comedy agendada para esta noite. Atividades lúdicas organizadas por diferentes empresas, stands que vendem comida e bebida, e particularmente os cestos de pipocas, que abundam em qualquer direção que se olhe, tentam aqueles que circulam pelo longo corredor.
Uma assistente de sala explica que o espectáculo está francamente atrasado, uma vez que um grupo considerável de pessoas “continua lá fora”, esperando terminar os trabalhos hercúleos que são necessários para entrar. O seu relógio de ponteiros indica 21h45 — o evento começava às 21h — quando as luzes apagam e o Theme of New York, New York, de Frank Sinatra, dá lugar ao silêncio. A sala está longe de ter a lotação completa e o balcão dois continua vazio, à medida que as pessoas que compraram os respetivos bilhetes são reencaminhadas para o balcão imediatamente abaixo.
No seu ritmo frenético, Ryan Hamilton foi o primeiro em palco, antes da quase hora e meia de material de Seinfeld que os espectadores de sábado — quando Jerry Seinfeld and His Best Friends se estreou no Coliseu dos Recreios — já tinham ouvido. Para gáudio geral, a maioria do público de domingo não é repetente, e abandona a MEO Arena com um sorriso entre os lábios e uma sensação de missão cumprida. Para Sânia, a noite deste domingo “foi uma experiência sem idade“, importante porque foi acompanhada pelo filho, Gonçalo, mas também pela “nostalgia” e saudade que deixou. “Pude reviver o passado”, diz a mãe sobre uma experiência que o jovem rotula como “diferente”. “Nunca tinha experimentado ver stand-up ao vivo, foi uma boa primeira vez, com um comediante de que gosto.”
Os portugueses estão em maioria entre o público, mas não são os únicos. Miguel e Anette vieram de Madrid de propósito para estar neste sítio. “O meu marido viu que ia acontecer e disse: temos de ir, dê por onde der”, recorda a espectadora de origem alemã. “Foi bom, o Seinfeld falou sobre a vida quotidiana, o casamento, os filhos.” Perante temas tão inofensivos e a satisfação generalizada entre os espectadores, não houve espaço para afirmações políticas, apenas para recordar os tempos em que “aquele senhor” não estava na MEO Arena, mas sim na televisão.