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A coesão social

As sociedades cosmopolitas, as fronteiras porosas e a imigração em massa destroem a coesão social e o sentido de pertença que permitem pessoas bem formadas e projetos coletivos efetivos.

Patrícia Fernandes
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1 Como destruir o Ocidente

Circula, pelo que dizem, nas redes sociais, mas pode ser replicado por qualquer pessoa em casa. Se pedirmos a um bot de inteligência artificial degenerativa que faça uma piada sobre o Cristianismo, ele responde sem hesitar; mas se pedirmos o mesmo acerca do Islão, a máquina diz que “prefere não fazer piadas sobre temas religiosos sensíveis”.

Isto diz muito, claro, sobre a pretensa objetividade ou neutralidade da IA (já agora: o que ainda falta acontecer para decidirem, de uma vez por todas, carregar no botão de emergência que implodirá o sistema?), mas diz muito mais sobre o caldo cultural em que temos sido mergulhados nas últimas décadas e que Thomas Sowell resumiu do seguinte modo:

“pode-se elogiar qualquer cultura do mundo, exceto a cultura ocidental – e não se pode culpar nenhuma cultura do mundo, exceto a cultura ocidental.”

Trata-se de um tipo de relativismo muito peculiar, que nasceu na Academia mas se tem multiplicado pelas franjas políticas mais radicais dos países ocidentais. De acordo com a teoria do relativismo cultural, não é possível estabelecer critérios objetivos que permitam determinar se algumas culturas são melhores do que outras – mas, na versão woke do relativismo cultural, é não só possível como necessário afirmar que a cultura ocidental é a pior de todas as culturas.

Como chegamos até aqui?

Como chegamos ao ponto de esta convicção se ter infiltrado de tal modo nos sistemas educativos ocidentais que tantos elementos das gerações mais novas assumem como factual e correto que o Ocidente é um mal em si mesmo e que o facto de termos nascido aqui é um mal irredimível?

Na sua Carta de amor de um imigrante ao Ocidente, Konstantin Kisin reconhece a propagação dessa ideia como uma ferramenta ao serviço da destruição do Ocidente:

“Ao sobrecarregarmos as pessoas [que nasceram no Ocidente] com um sentimento incómodo de culpa e humilhação, aceleramos o processo de declínio ocidental, porque o seu sentimento de valor será cada vez mais reduzido.”

2 Como destruir o estado-nação

No Reino Unido, este ataque ao Ocidente faz parte do pacote do “multiculturalismo”: a adoção de políticas que visam a integração considerando que a sociedade deve adaptar-se para receber todas as culturas, ao invés de exigir assimilação cultural por parte daqueles que chegam. Durante décadas, esta foi a política de integração oficial, mas as consequências catastróficas das políticas britânicas de imigração, legal e ilegal, têm assombrado de tal forma a sociedade britânica que o Home Office se viu confrontado com a necessidade de entregar aos requerentes de asilo um panfleto que detalha os comportamentos esperados por parte daqueles que entram no país, quer no que diz respeito a “harassment” e “violação”, como à simples igualdade entre homens e mulheres:

(Uma vez confrontei um decisor político, com responsabilidades nesta matéria, sobre estas dificuldades, mas recebi a resposta de que a solução passa por políticas de “reagrupamento familiar”. A absoluta incompreensão do problema revelada pelo ex-ministro deixou-me sem palavras.)

Devemos ter, contudo, cuidado ao culpar o modelo multiculturalista: em França, onde vigora um modelo teoricamente assimilacionista, pelo que a lei não reconhece a possibilidade de fazermos valer elementos da nossa identidade cultural, o ataque ao estado tem-se traduzido em enorme violência. Como Katharine Birbalsingh chama a atenção neste episódio do seu podcast, embora possamos reconhecer diversidade étnica nos protestos que têm assolado várias cidades francesas, muitas imagens revelam como jovens brancos (geralmente, privilegiados) têm participado não na luta por melhores condições de educação, mas promovendo mensagens de ódio ao Ocidente ou cantando canções que exaltam assassínios jihadistas.

Perspicaz no seu olhar como pedagoga, Katharine entende que este comportamento resulta de as escolas terem sido afastadas da sua função de integrar os mais novos nas comunidades e terem-se transformado em locais que, ao invés de promover a cultura, a tradição e as grandes obras nacionais, ensinam hoje o desprezo pela história e os valores do Ocidente.

E se combinarmos este aspeto com o facto de estas gerações não beneficiarem de uma educação baseada em autoridade e limites (mais sobre isto para a semana), o resultado só poderia ser a violência e o caos.

3 A importância da coesão social 

Como tenho insistido nas últimas semanas, os mais novos têm, na verdade, pouca responsabilidade em relação a tudo isto. Nestas questões (como aconteceu com a crise ambiental), eles limitam-se a reproduzir aquilo que lhes é impingido nas escolas – e cada vez com maior relevância se considerarmos o papel crescente que as instituições de ensino têm agora no processo formativo das crianças e dos jovens. Nas últimas décadas, as famílias têm perdido o seu lugar de formação e educação e os mais novos passam cada vez mais tempo na escola e nas redes sociais. Aí, não só não são inseridos na cultura nacional e ocidental, como, em sentido contrário, ouvem essencialmente críticas ao mundo em que nasceram – assim, como poderiam não ser lentamente enformados por uma espécie de ódio ao Ocidente?

Notemos que o problema não resulta apenas de os valores ocidentais – aqueles que passaram o teste do tempo e deram forma às nossas melhores instituições – merecerem ser realmente valorizados. O problema também se encontra no facto de o ser humano, pela sua própria natureza, necessitar de enraizamento comunitário – de estar inserido numa comunidade construída a partir de narrativas que, através de uma língua e tradições comuns, dão forma a uma realidade partilhada e reconhecida por todos. Podemos (e devemos) ser críticos em relação ao nosso passado e podemos ir transformando as nossas próprias narrativas, mas não é possível medrar de modo saudável se nos dizem a todo o momento que o solo está conspurcado e que todos os frutos são malévolos.

Em sentido contrário, devemos envolver-nos na nossa história com atitude crítica, mas sobretudo com curiosidade e deslumbramento, tal como António Carlos Cortez sugere em Uma Estória de Os Lusíadas (precisamente para os mais novos):

“[que] mergulhes nessa aventura espectacular de há mais de cinco séculos e penses, ou questiones, entre o espanto e um certo orgulho: ‘Como foi possível?’”

Mas é isto que as sociedades cosmopolitas, as fronteiras porosas e a imigração em massa não permitem. Elas destroem a coesão social e o sentido de pertença que permitem pessoas bem formadas e projetos coletivos efetivos, porque só tendo raízes consolidadas e orgulho num passado comum é possível pensar num futuro partilhado. Apesar de politicamente corretas, as sociedades abertas e diversas transformam-se, inevitavelmente, em sociedades mais individualistas e desconectadas. As gerações mais velhas que defendem esta “nova Europa” falam, na verdade, de barriga cheia: beneficiaram de algo que estamos a retirar aos mais novos. E o preço a pagar será enorme.

Estes tempos confusos exigem clareza intelectual, mas, acima de tudo, clareza moral e é por isso que as palavras com que Katharine Birbalsingh encerra os seus episódios devem ser recordadas todos os dias: “Hold the lines. Strength and honor.” Volto para a semana.