Todos os agentes feridos após a carga policial da madrugada deste domingo estavam a trabalhar no Porto. Ao todo, 13 polícias — 10 do Corpo de Intervenção da PSP e três que se encontravam à paisana— sofreram ferimentos e oito precisaram de transporte para uma unidade hospitalar.
A informação foi prestada pelo subintendente Sérgio Soares, porta-voz da PSP, durante a manhã deste domingo e horas depois da operação simultânea em Lisboa e Porto para dispersar os manifestantes pela Habitação que montaram acampadas no Rossio e na Praça D. João I, respetivamente. As organizações das acampadas estimaram que mais de 50 manifestantes ficaram feridos nas duas cidades.
Os três agentes à paisana que sofreram ferimentos estiveram envolvidos no incidente reportado pelo Observador junto à Câmara do Porto, na Avenida dos Aliados, quando os manifestantes perceberam que quatro homens eram polícias à paisana. Segundo a PSP, os manifestantes agrediram “três dos polícias” desta equipa de monitorização do protesto e “perante esta situação, um dos polícias efetuou recurso passivo da arma de fogo como meio de dissuasão”, assinalou o subintendente Sérgio Soares. Em vídeos, vê-se o agente a segurar a arma na mão, e a ser alvo de arremesso de pedras.
“No decurso das ocorrências no Porto, foram ainda retiradas a um polícia do Corpo de Intervenção (CI) umas algemas de serviço, entretanto recuperadas pela PSP. Foi ainda registada a quebra de uma montra junto à estação de Metro da Trindade”, lê-se na nota.
Em conferência de imprensa, a PSP confirmou a detenção de sete pessoas no Porto e seis em Lisboa. Foram ainda apreendidas 99 tendas.
O porta-voz da PSP referiu ainda que a polícia teve de “mais uma vez lamentavelmente intervir em ambos os locais”, devido ao incumprimento do horário das 0h30, às estruturas de acampamento e desrespeito pelo “direito ao descanso, direito à livre circulação, direito ao vosso trabalho [numa referência aos jornalistas]”.
A PSP teve que avançar para repor “a legalidade da ocupação do espaço público”, garantiu Sérgio Soares. Num comunicado enviado mais tarde, a PSP justificou-se com a necessidade de assegurar “a desocupação dos espaços públicos, cuja utilização se encontrava condicionada pela instalação e manutenção de estruturas de acampamento sem a necessária autorização legal”. “A intervenção policial permitiu, assim, criar as condições necessárias para que as respetivas Polícias Municipais pudessem, no âmbito das suas competências, proceder à remoção e apreensão dessas estruturas.”
“Em resultado de várias ações de mediação, negociação, contacto com os manifestantes, promotores e outros interlocutores não foi possível demover” quem estava no protesto. “A PSP assegura os direitos de manifestação e reunião, mas há limites a que obriga. Nesse sentido, interviemos mais uma vez, apesar de todos os esforços para que não acontecesse.”
“Evitámos ao máximo usar força com bastão policial”, sublinhou o porta-voz, ao denunciar o “arremesso de vários objetos, tinta, pirotecnia”, afirmou. Segundo o porta-voz da PSP, a tinta cor de rosa tinha material inflamável, o que “mostra premeditação para o contacto físico”.
Em comunicado, a PSP adiantou ainda que “já na zona da Praça da Figueira, verificou-se que alguns manifestantes retiraram garrafas dos caixotes do lixo, arremessando-as contra os polícias”. “Foram igualmente utilizadas grades e mesas pertencentes a uma estrutura ali instalada, que foram movimentadas e utilizadas para dificultar a intervenção e o avanço policial”, remata.
Confrontado por uma jornalista que se referiu a imagens a circular que mostram os polícias com o joelho em cima do pescoço de manifestantes, o porta-voz assegurou: “Tentámos usar o mínimo de força para chegar ao nosso objetivo. Todavia, tendo em conta a força também empregue pelos manifestantes, houve necessidade de usar a força dentro daquilo que é necessário.” Na madrugada de domingo, o dispositivo preparado era maior do que o registado no fim de semana anterior, assumiu o porta-voz da PSP.
“As negociações demoraram mais, uma vez que havia mais interlocutores”, explicou. Quanto aos deputados que estavam presentes no Rossio, referiu que tinha havido um cuidado para não haver contacto com os deputados. “Os nossos polícias do Corpo de Intervenção quando tiveram que avançar em linha tiveram o cuidado de não ter qualquer intervenção coerciva junto dos nossos deputados.”
Sérgio Soares considera que houve resistência mais ativa. “A nossa intervenção tentou ser o mais adequada possível para evitar males maiores”, garantiu.
A PSP teve conhecimento de forma prévia da presença de elementos da Provedoria de Justiça. “Lidamos bem com esse escrutínio”, afirmou.
A decisão de uma operação simultânea em Lisboa e Porto coube à Direção Nacional da PSP, em coordenação com os Comandos Metropolitanos de Lisboa e Porto. “Foram feitos três avisos prévios com megafone” de que os manifestantes que não saíssem incorreriam num crime de desobediência, relembrou.