Hoje a política global é oficialmente democrática, e poucos ditadores se atrevem a reclamar outro estatuto. Hitler ou Mussolini não escondiam o que eram, e os comunistas afirmavam querer a ditadura do proletariado. Agora quase todos os governos procuram afirmar a sua legitimidade democrática, e até as piores ditaduras se dão ao trabalho de fraudar eleições. Felizmente, ainda há países onde as eleições são livres, justas e, portanto, impossíveis de prever. Nestes meses há várias com impacto global e regional: no Brasil e em Espanha, em Israel e nos EUA.
Virada e fuga
Lula da Silva foi reeleito com 51,8% dos votos e mais de quatro milhões de votos de vantagem. Nunca um derrotado da primeira volta tinha vencido a segunda: a “virada” deveu-se muito à aposta na política digital, com o seu “Exército de Lula” a disputar um espaço até aí dominado pelo bolsonarismo. A direita tinha todas as condições para vencer, como se viu nas eleições parlamentares e estaduais, mas os Bolsonaros voltaram a perder a presidência e a não saber perder. Lula será o primeiro presidente brasileiro com um quarto mandato, algo raríssimo em democracias pluralistas: o único outro caso que me ocorre é o de Franklin Roosevelt. No Brasil republicano, só Getúlio Vargas se lhe compara. É um feito político, mas mostra também que a esquerda foi incapaz de renovar lideranças. Este será, porém, o mandato mais difícil de Lula. Fez promessas demais, veremos se legais, que somam 40 mil milhões de reais. A bolsa e a moeda brasileiras caíram porque não se vê onde irá buscar o dinheiro num país deficitário e endividado. Além disso, nunca um presidente teve um Congresso tão diferente politicamente: será um teste à afamada habilidade negocial de Lula, agora com 81 anos.
Neste contexto, a fuga de Flávio Bolsonaro para Miami foi uma prenda para Lula. Um erro tão flagrante que até Valdemar Neto, presidente do PL, se demarcou da carta de Miami em que Flávio começou por se proclamar presidente do Brasil. A maioria da opinião publicada classificou-a de golpista e amadora ao ponto de ter de ser rapidamente revista e substituída por uma segunda versão. A fuga dá a Lula e ao resto da elite política brasileira mais margem de negociação, mas está longe de resolver todos os problemas políticos e económicos do país.
Esta é a primeira derrota da direita em sete eleições recentes nas Américas e um revés para o objetivo de hegemonia política regional de Trump, declarado na Estratégia de Segurança Nacional dos EUA de 2025. Não por acaso, Lula começou o discurso de vitória dizendo que o Brasil não será quintal de ninguém. No seu campo havia quem temesse um cenário à Guaidó, com Flávio Bolsonaro presidente no exílio, e o próprio parece ter achado credível essa possibilidade. Mas Trump não gosta de perder nem de quem perde e, apesar de crítico das eleições brasileiras, deixou claro que não quer envolver-se. Também quase toda a direita latino-americana no poder, de Bukele a Kast, felicitou Lula; Milei foi a exceção. Até Trump diz dar-se bem com Lula: ambos combinam ideologia e pragmatismo. Lula sabe que, se a China pesa 29% das exportações brasileiras, a Europa vem a seguir com 17% e os EUA com 11%. Trump já viu quanto lhe pode custar em inflação uma guerra comercial com um país que produz cinco vezes mais petróleo do que a Venezuela. Mais, o Brasil tem as segundas maiores reservas mundiais de terras raras, é nessa dimensão vital da geoeconomia atual, a grande alternativa atlântica à China. Veremos quem aproveitará essas reservas: a China, os EUA, que já avançaram com investimentos bilionários, ou os europeus, que parecem ficar pelas boas declarações. Lula certamente continuará a apostar nos BRICS, de que foi um dos fundadores em 2009. Mas, com o alargamento para 11, os BRICS estão mais divididos. E podem ser convenientes para Lula alternativas ocidentais de investimento, menos complicadas do que Trump. Saberão a Europa e Portugal aproveitar as oportunidades no Brasil? Mesmo com o novo acordo Mercosul-UE, tenho dúvidas.
Descarrilou a campanha de Sánchez
Um segundo acidente ferroviário grave, em Espanha, em menos de um ano, e a menos de um mês das eleições de 29 de novembro, dificilmente deixará de marcar os debates da campanha. A alta velocidade era a imagem de marca de uma Espanha moderna e próspera, de novo a dar cartas no mundo. Dois acidentes tão graves em tão pouco tempo não são coincidência: revelam falta de investimento na manutenção, a metade da média europeia. Governar quatro anos com duodécimos e transferências milionárias para as autonomias tem consequências. O PSOE apostou tudo no erro humano, que pode ter existido, mas coexiste com repetidas falhas do sistema de segurança.
O PP lidera na média das sondagens com cerca de 31%, contra 27% do PSOE, e o Vox, com 19%, é quem mais cresce. Veremos se o acidente pesa no voto, o que em tempos tão polarizados pode não acontecer muito, e para onde irão os votos que o PSOE venha a perder. O cenário mais provável continua a ser um governo de maioria de direita, mas o peso relativo de PP e Vox fará grande diferença na sua estabilidade e orientação, sobretudo se ficarem muito próximos em votos. Certo é que a Espanha importa muito para a UE, de que é a quarta maior economia, e para Portugal, de que é o principal parceiro comercial.
Bibi supera as expectativas, mas os partidos árabes quase duplicam
Netanyahu perdeu apoio e 9 deputados, mas superou as expectativas de derrota. O seu bloco ficou com 53 lugares, longe dos 61 necessários para a maioria no Knesset, mas acima dos 48 da oposição. Continua a ser o grande sobrevivente da política israelita, mas é impossível formar governo sem grandes mudanças na postura dos principais partidos: só desfazendo as duas coligações, que diziam o pior uma da outra, ou acabando com o tabu do apoio de partidos árabes – que passaram de 10 para 19 deputados – haverá maioria. Se nem Netanyahu nem Gadi Eisenkot tiverem êxito até dezembro, haverá novas eleições, para já, o cenário mais provável. Certo é que, entretanto, Bibi governa interinamente, e a oposição teme que aposte no regresso à guerra com o Irão para a condicionar.
O que mudarão as eleições intercalares
Os EUA continuam a ser a grande potência com maior impacto na Europa. As intercalares de 3 de novembro podem alterar a relação de poder no Congresso e levar Trump a desafiar ainda mais abertamente os limites constitucionais do seu poder. Nate Silver, reconhecido especialista nas tão criticadas sondagens, antecipa uma eleição possivelmente transformadora, mas lembra os limites das sondagens, que dependem de uma boa amostra e de padrões de comportamento eleitoral em mudança. Mais, estamos a falar de um país de dimensão continental, com enormes diferenças regionais, e de eleições uninominais, em que a personalidade de cada candidato conta muito.
Na Câmara dos Representantes, ainda assim, a vitória democrata é dada como quase certa pela maioria das sondagens e dos analistas, mesmo republicanos. A dúvida é a margem: chegar a uma vantagem de 20 lugares seria extraordinário no contexto atual. No Senado uma vitória dos democratas é muito mais difícil, pois estão em jogo sobretudo estados conservadores como o Texas, o Kansas, o Alasca ou a Carolina do Sul, que só a baixíssima popularidade de Trump torna competitivos. No Texas, o mais populoso e rico desses estados, o democrata James Talarico aparece pela primeira vez com uma vantagem acima da margem de erro em várias sondagens, as mais favoráveis aos democratas desde a eleição de Lloyd Bentsen, em 1988. Uma derrota significativa dos republicanos pode ter grandes implicações internas para Trump, sobretudo se lhe custar o controlo do partido, mas as implicações externas serão mais limitadas: como presidente continuará a ter um enorme poder discricionário na diplomacia e na defesa.