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A crise da habitação pode redesenhar Portugal

Portugal não tem apenas falta de casas onde estão as oportunidades; tem falta de oportunidades onde ainda existem casas

Ramiro Brito
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As manifestações desta semana disseram, à porta do Parlamento, uma verdade difícil de disfarçar: para demasiadas pessoas, ter emprego deixou de garantir uma casa perto do lugar onde a vida acontece.

Quando trabalhar já não permite sair de casa dos pais ou viver perto do emprego, não estamos perante um simples problema imobiliário. Estamos perante um bloqueio económico e social.

Os números confirmam-no. No segundo trimestre de 2026, o preço mediano da habitação atingiu 2.445 euros por metro quadrado, mais 18,4% do que um ano antes. Os preços aumentaram nas 26 sub-regiões do país.

É urgente construir e reabilitar onde existe procura, aumentar o arrendamento acessível e acelerar o licenciamento. Mas limitar a resposta às áreas metropolitanas seria tratar a consequência sem corrigir uma das causas.

Portugal tem duas crises separadas. Nas áreas metropolitanas concentram-se emprego, investimento, serviços e procura de habitação. Nos territórios de menor densidade acumulam-se casas vazias, perda de população ativa e redução dos serviços. São duas faces do mesmo mapa.

Os Censos de 2021 registaram 723 mil alojamentos vagos. Nem todos estão habitáveis ou onde existe procura. O paradoxo é esse: faltam casas onde estão as oportunidades e oportunidades onde ainda existem casas.

A resposta fácil seria recomendar a quem já não consegue pagar Lisboa ou Porto que se mude para o interior. Seria injusto e inútil. Uma casa barata sem emprego, transportes, escola ou saúde pode ser muito cara. O que se poupa na prestação perde-se em rendimento, deslocações, tempo e isolamento.

A coesão territorial não pode ser uma ordem de despejo geográfica. O objetivo não é retirar pessoas das cidades. É multiplicar os lugares de Portugal onde se pode construir uma vida.

Habitação, economia, transportes, saúde e educação têm de ser uma única política. O Estado separa-as; as famílias vivem-nas em conjunto.

Uma estratégia séria começaria por reforçar cidades médias e centros regionais, em vez de dispersar incentivos por centenas de concelhos. Não é necessário que cada localidade tenha todos os serviços. É necessário que existam centros fortes, ligados aos territórios envolventes por transportes regulares e tempos de acesso razoáveis.

A habitação deve entrar desde o início. É preciso recuperar imóveis e criar arrendamento acessível antes de anunciar investimentos ou convidar famílias a mudar. Caso contrário, os apoios serão absorvidos pelos preços, reproduzindo no interior o problema que se pretendia aliviar.

Depois, é necessário criar emprego. Benefícios fiscais isolados não constroem uma economia regional. Os apoios às empresas devem depender de trabalho duradouro, salários qualificados e ligação à economia local. Politécnicos, hospitais e centros tecnológicos podem funcionar como âncoras quando articulados com as empresas.

Também é preciso mudar a execução. Portugal não sofre por falta de programas para o interior. Sofre por excesso de medidas fragmentadas e pouca avaliação.

Esta estratégia exige continuidade, mas não mais uma arquitetura institucional. Já existem entidades e fóruns suficientes. O que falta é uma cadeia curta de decisão, responsabilidade atribuída e capacidade para executar.

Em vez de colocar Estado, CCDR, comunidades intermunicipais e municípios em mais uma mesa permanente, cada território prioritário deveria ter uma estrutura leve, liderança identificável, orçamento plurianual e objetivos públicos. Menos reuniões de concertação. Mais contratos de execução.

O sucesso não se mediria pelo dinheiro distribuído ou pelos fundos executados. Medir-se-ia pelo emprego criado, pelos salários, pelas casas arrendadas, pela fixação de jovens e pela sobrevivência das empresas apoiadas.

Nada disto resolve a renda do próximo mês. Por isso, a estratégia territorial não pode adiar a resposta urgente nas zonas de maior pressão. Mas precisar de tempo não justifica passarmos outra década a gerir emergências.

As manifestações pedem casas. A política deve responder com casas, mas não apenas com casas. Deve responder com um país onde a oportunidade deixe de estar concentrada em meia dúzia de códigos postais.

Resolver esta crise exige aumentar a oferta onde existe procura. Evitar a próxima exige distribuir pelo país as razões que levam as pessoas a querer viver num lugar.

Portugal não precisa de esvaziar as cidades. Precisa de deixar de esvaziar o país.