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O Cónego Jeremias e as "acampadas"

Seria preferível que estes manifestantes resolvessem o problema da habitação como políticos, arquitectos, engenheiros ou operários da construção civil!

P. Gonçalo Portocarrero de Almada
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Desta vez, encontrei o Cónego Jeremias muito incomodado com as mal-ditas ‘acampadas’ no Porto e em Lisboa.

– Que me diz, Senhor Cónego, destas manifestações?

– Pois olhe, já não temos por que temer a invasão dos bárbaros.

– Como assim?!

– Não nos podem invadir porque já cá estão!

– Quando foi isso?!

– Segundo o INE, os estrangeiros residentes em Portugal, em 2025, eram 1.597.539, quase um milhão e seiscentos mil, mais do dobro do que os registados em 2021! Ou seja, a geringonça abriu a porta, que a maioria absoluta socialista escancarou, pondo em risco a coesão nacional, nomeadamente no que respeita à habitação e à saúde.

– Acha que deveriam ser expulsos os estrangeiros que vivem no nosso país?

– Claro que não porque, entre eles, há gente boa e valiosa, que quer trabalhar e que deve ser recebida de braços abertos. Mas também há oportunistas que só querem viver à conta do Estado. Há que separar, como diz a parábola, o trigo do joio.

– Qual é a principal vítima desta contestação social?

– A principal não sei, mas a primeira é, decerto, a língua portuguesa.

– Porque o diz?!

– Então que jeito tem esta mania de chamar a estes acampamentos ‘acampadas’?! O Dicionário da Academia das Ciências reconhece este termo como forma do verbo ‘acampar’ e não como sinónimo de ‘acampamento’, mas estes manifestantes não só querem subverter a ordem pública, como também a gramática!

– É legítima a reivindicação por mais dignas condições de habitação?

– Claro que sim, mas é de evitar o uso da força e de lamentar vítimas, sejam elas manifestantes, ou elementos das forças de segurança. Leão XIV, numa alocução aos movimentos populares, a 23 de Outubro do ano passado, disse que “a terra, a casa e o trabalho são direitos sagrados, pelos quais vale a pena lutar”.  Já Leão XIII, na encíclica Rerum Novarum, tinha manifestado o desejo de que muitos trabalhadores se tornassem proprietários (n.º 46). Mas este direito, como disse o Papa actual, exige luta e trabalho: se não há almoços grátis, muito menos casas! Toda a gente que jogou ao Monopólio sabe isso, mas talvez não que este jogo foi criado em 1904, com o nome ‘The Landlord’s Game’, para denunciar a injusta especulação imobiliária.

– Não se deveria inverter esta lógica capitalista, que discrimina os mais pobres?

– Que eu saiba, embora sejam evidentes as deficiências do sistema capitalista, o socialista não é melhor, apesar de, na Sibéria, as casas serem mais baratas e até dispensarem alguns electrodomésticos, como o frigorífico …

– Nos países comunistas talvez não houvesse tanta riqueza, mas também não havia a miséria que se nota nas grandes cidades ocidentais …

– De facto, nesses países a pobreza não era tão chamativa, porque a censura ocultava a miséria em que vivia a quase totalidade da população. Também não era notória a riqueza dos membros da nomenclatura, que viviam à grande e à francesa.

– Mas nesses regimes não há tantas pessoas sem-abrigo …

– Talvez, mas é à conta de uma ditadura e de uma pobreza generalizada.

– Não é excessiva essa visão negativa da sociedade socialista?

– Se é exagerada, ou não, não sei, pois, felizmente, nunca vivi num país socialista. Mas há quem saiba pois, apesar de a então República Democrática da Alemanha (RDA), que de democrática só tinha o nome, ser tida como o país mais desenvolvido do Leste europeu, quando se abriram as suas fronteiras com a outra Alemanha (RFA), não foram os alemães da RFA que foram para a RDA, mas o contrário!

– Também há os jovens liceais, que fazem greves climáticas …

– Essa é outra! É bom que estejam preocupados com o planeta, mas o que têm a fazer é estudar, para que possam garantir, no futuro, um mundo melhor. Estas ‘greves climáticas’, à sexta-feira, são de um grande oportunismo, pois só servem para antecipar e ampliar o fim-de-semana. Os estudantes podem ser cábulas, mas não são estúpidos!

– E que diria Cristo destes acampamentos selvagens?

– Então não sabe que, quando Jesus se transfigurou no alto do monte Tabor, Pedro propôs fazer lá uma ‘acampada’?! Queria montar três tendas: uma para o Mestre, outra para Moisés e a terceira para Elias (Mt 17, 1-8)!

– Pois foi! Já não me lembrava! E que aconteceu depois?

– Como Cristo é amigo do ambiente, ao contrário dos que poluem as nossas praças e jardins, não consentiu que se montasse o tal acampamento. Santo Agostinho comentou: ‘Desce, Pedro: querias descansar no monte; desce, prega a palavra’ (Sermão 78, 6). A fé não acampa, nem protesta: arregaça as mangas e trabalha.    

– Bem visto! De facto, seria preferível que esses manifestantes, em vez destes protestos, resolvessem o problema grave da habitação com o seu trabalho: como políticos, arquitectos, economistas, engenheiros, empresários, electricistas, canalizadores ou operários da construção civil! Mas, voltando à transfiguração, que teria acontecido se Jesus tivesse permitido a ‘acampada’?

– Talvez tivéssemos agora o monte Tabor convertido num parque de campismo, cheio de tendas e de roulottes ou, pior ainda, de ociosos manifestantes que, por sinal, não são nada ecológicos, pois dão muito mau ambiente …