Esperava discutir gestão da educação. Em várias sessões, senti-me num comício. Foi esta a impressão com que saí do primeiro dia do I Congresso Internacional do Fórum Português de Administração Educacional, realizado em Vila Real, nos dias 23 e 24 de outubro.
Participei com uma comunicação sobre inteligência artificial generativa e gestão do ensino superior. Levei perguntas sobre transformação institucional. Saí com outra: onde termina a análise académica e começa a militância política?
Refiro-me às intervenções a que assisti, não às convicções de todos os participantes. Mas os discursos de um encontro académico merecem escrutínio.
«Neoliberal» surgiu repetidamente como explicação para os problemas da educação, sem definição clara ou distinção entre contextos. Quando um conceito serve para condenar tudo aquilo de que se discorda, substitui os argumentos.
Numa apresentação sobre mercantilização e financeirização do ensino superior brasileiro, ouvi Bolsonaro ser classificado como fascista e o investimento privado ser profundamente condenado. A procura de lucro pelas universidades detidas por fundos de investimento parecia constituir, por si só, uma acusação.
Na exposição a que assisti, não foram apresentados dados que demonstrassem como essa característica afetava a qualidade do ensino. A possibilidade de despedimentos em instituições deficitárias surgia como argumento de condenação, sem discussão equivalente sobre sustentabilidade ou alternativas.
Importa investigar as condições de trabalho, a qualidade académica e a proteção dos estudantes. Isso exige testar hipóteses e confrontar resultados. A natureza dos acionistas não dispensa essa avaliação. A ausência de fins lucrativos também não garante qualidade.
Ouvi ainda troçar da expressão «não há almoços grátis». Podemos discordar sobre quem deve financiar a educação. Não podemos ignorar que alguém suporta os seus custos. A gratuitidade para o beneficiário não elimina a necessidade de financiamento.
Conhecer educação é indispensável para dirigir instituições educativas. Mas gerir exige também competências em estratégia, finanças, recursos humanos e avaliação de resultados. Seria útil discutir como reunir estes saberes. Encontrei, em várias intervenções, mais certezas ideológicas do que perguntas de investigação.
Não espero uma academia sem convicções. Espero que saiba submetê-las ao contraditório e rever conclusões perante evidência contrária.
Instituições chamadas a produzir conhecimento sobre problemas críticos do país mobilizam recursos e autoridade científica. Quando os utilizam sobretudo para reafirmar posições políticas, cumprem a sua missão?
Um congresso não permite julgar todo um setor. Mas deixa uma pergunta: quantas instituições poderão promover ideologias sob uma aparência académica e científica?
Como profissional com experiência em gestão da educação, preocupa-me o destino desses recursos e a influência desse discurso nas políticas públicas. O país precisa de conhecimento rigoroso. Merece saber se é isso que está a receber.