É inescapável: todos os caminhos vão dar ao Rossio. E a expressão “acampada” perfila-se como forte candidato a verbete num futuro dicionário crítico da política portuguesa deste início de século, ao lado de expressões como “não é não” ou “geringonça”. Já aqui disse e nunca é demais repetir: o CDS-PP não discute a justiça das manifestações. Não se trata de vagas causas atmosféricas, mas de causas bem terrenas que todos sentimos na pele.
Mas é precisamente a severidade dos motivos e o drama que provocam na vida das pessoas que torna mais abjecto o aproveitamento que a esquerda indígena tem feito do tema da habitação e das manifestações dos últimos quinze dias.
Na passada Terça-feira, na Assembleia Municipal de Lisboa, foram apresentados três documentos da esquerda sobre o assunto. O Bloco saudou uma “vaga de solidariedade e protesto” e deu por assente que houve “intervenções policiais desproporcionadas”. Teria sido justo, porém, que tivesse esclarecido que tipo de solidariedade era esta: se para com os legítimos manifestantes, se para com os agitadores profissionais que fazem escala em Lisboa para depois seguirem para a próxima capital europeia. O PCP, fiel ao léxico doutrinal, falou em “submissão flagrante ao grande capital” e “repressão policial”; o que agradecemos: é sempre tranquilizador contar com a franqueza soviética do velho partido de Cunhal. O PS foi, digamos, mais “astuto”: pediu escrutínio à actuação das forças de segurança ao mesmo tempo que redigiu a moção de maneira a sugerir que o veredicto estava encontrado antes sequer de a investigação começar.
A “acampada” tornou particularmente visível o ensejo da esquerda em pôr legendas na realidade. O extraordinário é tudo ser apresentado como uma espécie de geração espontânea do descontentamento das massas, quando o que está em causa é a necessidade de sobrevivência de quem perdeu força nas urnas.
Foi o que aconteceu em Marvila. Na tentativa de proporcionar uma “Maricarmen” portuguesa à comunicação social, ávida de sangue derramado por boas causas, organizou-se uma vigília em torno do “despejo” de uma jovem viúva e dos seus dois filhos. Só que, segundo a Gebalis, a mulher nunca integrou legalmente o agregado nem provou residência habitual na casa; duas providências cautelares foram decididas a favor da empresa municipal; quem acabou por recuperar a casa foi o seu legítimo inquilino, um senhor de 84 anos que, entretanto, apresentou queixa-crime por ter sido coagido a abandonar a casa. Sim: a Maricarmen de Marvila não foi a despejada, mas a agente despejadora. Não fosse trágico e a anedota fazia-se sozinha.
Ora, para fazer parelha com esta pobre personagem, só mesmo Pedro Nuno Santos, uma figura que não perde uma oportunidade para fazer má figura. O homem que foi Ministro das Infraestruturas e da Habitação entre 2019 e 2023, que fez parte do Governo responsável pelo agravamento do problema da habitação e que foi um dos principais protagonistas da solução política citada mais acima e conhecida por “geringonça”.
Esta semana, durante o desvio do Rossio para o Largo de São Bento, lá estava ele: um dos bravos do PS em plena manifestação. Depois veio explicar que não via hipocrisia nenhuma nisso. É preciso uma considerável elasticidade moral para dizer uma coisa destas sem se desfazer. Entretanto, numa entrevista à Renascença, declarou que não pretende recandidatar-se a deputado, que não está a pensar em voltar a cargos de direcção e que quer continuar a trabalhar no sector privado. Mas também diz que nunca deixará de fazer política. Ou seja, a política activa pode estar a chegar ao fim para Pedro Nuno Santos; já a política activista não.
Salvos os diferentes graus de responsabilidade no problema da habitação, o mecanismo é exactamente o mesmo nos votos apresentados na Assembleia Municipal e na vigília em Marvila: a realidade é sempre o elo mais fraco na cadeia do aproveitamento político.
Dir-se-ia que o PS pode ter desfeito a geringonça, mas a geringonça continua a fazer o PS. Mas seria injusto. Podem ser poucos, é certo, mas ainda há quem resista. Ascenso Simões e Francisco Assis, por exemplo, contra a inexorável deriva esquerdista do seu partido, foram capazes de articular um discurso sensato sobre o tema.
Mais desvio, menos desvio, e enquanto aguardamos que o Partido Socialista se entenda, todos os caminhos continuam a ir dar ao Rossio. Nesse percurso pode haver falta de casas. Mas a responsabilidade continua muito bem instalada, ali mesmo no n.º 2 do Largo do Rato.