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Escola, amigos, e outros pais: testemunhas do sofrimento de um filho alienado (VII)

Neste sétimo artigo da série Testemunho de uma Mãe Alienada, continuamos a acompanhar a história de uma mãe que descreve o afastamento progressivo do filho, num contexto que identifica como alienação

Eva Delgado-Martins
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O testemunho de uma mãe, complementado pela observação direta realizada no âmbito de uma intervenção psicológica de apoio à parentalidade em contexto de conflito parental, permite compreender de que forma as dinâmicas familiares podem influenciar os comportamentos de uma criança alienada, afetar a sua segurança emocional e condicionar a liberdade de demonstrar afeto por ambos os pais.

Neste sétimo artigo da série Testemunho de uma Mãe Alienada, continuamos a acompanhar a história de uma mãe que descreve o afastamento progressivo do filho, num contexto que identifica como alienação parental. Nos artigos anteriores, abordámos as acusações de violência que esta mãe afirma serem falsas, as alterações da residência do filho e os comportamentos que tive oportunidade de observar durante a intervenção psicológica de apoio à parentalidade que realizei com esta família.

Neste artigo, gostaria de destacar a importância de observar a criança alienada nos diferentes contextos em que vive, valorizando não apenas o papel da escola na identificação de sinais de sofrimento emocional, mas também o contributo de familiares, amigos e outros adultos que têm oportunidade de testemunhar diretamente as suas relações afetivas e os seus comportamentos no quotidiano.

“Então, o que é que vamos fazer hoje?”

A mãe alienada testemunhou-nos que, durante o período em que procurava preservar a convivência com o filho alienado, fazia questão de organizar momentos agradáveis em casa, proporcionando-lhe oportunidades de brincar e conviver com outras crianças e adultos. Segundo relatou, o filho participava espontaneamente nestas atividades e demonstrava sentir-se confortável e feliz: “Eu fazia questão de que, durante esse período, houvesse sempre amigos lá em casa, a jantar, a brincar. Até para que as pessoas vissem como ele estava.”. Perante as dificuldades na relação com o filho e as acusações de que tinha sido alvo, esta mãe considerou importante que familiares e amigos pudessem observar diretamente a forma como a criança se comportava quando estava consigo.

Esta necessidade de que outras pessoas testemunhem os momentos de bem-estar e proximidade afetiva com os filhos é particularmente significativa nas famílias envolvidas em processos judiciais prolongados e marcados por acusações entre os pais. O receio de não serem acreditadas ou de que os comportamentos das crianças sejam interpretados de forma descontextualizada pode levar estas famílias a sentir que precisam de demonstrar aos outros aquilo que deveria ser vivido com naturalidade: que os filhos também estão felizes e tranquilos na sua companhia. É doloroso pensar que uma mãe alienada possa sentir que não basta viver momentos felizes com o filho, mas que precisa também de testemunhas desses momentos. Neste caso, familiares e amigos tiveram a oportunidade de observar uma criança que brincava, ria e convivia descontraidamente com a mãe, apesar de, noutras circunstâncias, apresentar comportamentos de oposição ou rejeição.

“A continuidade na mesma escola também ajudou”

Durante a intervenção em contexto, verifiquei juntamente com a mãe a importância do filho alienado ter permanecido na mesma escola ao longo do conflito parental. A permanência no mesmo estabelecimento de ensino permitiu preservar rotinas, relações de confiança e o contacto com profissionais que já conheciam a criança, bem como a participação da mãe na sua vida escolar. Esta continuidade foi particularmente relevante porque existiam adultos que tinham acompanhado a família antes e durante o conflito parental e que podiam observar diretamente as interações da criança com os pais.

Refletimos também sobre o impacto que uma eventual mudança de escola poderia ter nestas relações. Em algumas situações de alienação parental, uma mudança de escola pode ser utilizada para afastar a criança alienada de profissionais que conhecem a sua história familiar e cujas observações não correspondem à imagem negativa transmitida acerca do pai ou da mãe alienados. Para um pai alienador que procura controlar a narrativa sobre o outro, a independência dos profissionais da escola pode ser percecionada como um obstáculo.  Por isso, importa preservar, sempre que possível, a continuidade da criança na escola, até porque as relações educativas e afetivas que já se desenvolviam antes do conflito contribuirão para a estabilidade emocional da criança.

A importância da intervenção psicológica em contexto

A intervenção psicológica que realizei com esta família permitiu-me observar diretamente comportamentos do filho alienado que dificilmente poderiam ser compreendidos apenas através dos relatos dos pais. É diferente ouvir aquilo que a mãe relata, aquilo que o pai descreve ou o que a própria criança conta, e estar presente nas situações concretas em que os comportamentos acontecem.

Recordo, em particular, uma ocasião em que acompanhei a criança e a mãe à escola. Observei a preocupação constante do filho em perceber o que podia ou não fazer, procurando repetidamente confirmar se determinada decisão estava autorizada pelo pai ou pela mãe. O filho alienado demonstrava um receio particular de contrariar aquilo que lhe tinha sido indicado pelo pai. Fazia perguntas sucessivas, procurava confirmação e revelava insegurança perante situações simples do quotidiano. Chamou-me também a atenção o estado de tensão em que parecia encontrar-se, como se estivesse permanentemente à espera de que alguma situação pudesse transformar-se num incidente. O sofrimento emocional que observei manifestava-se na dificuldade em agir espontaneamente, na necessidade constante de procurar autorização e no receio de contrariar as indicações e expectativas do pai alienador. Estas observações permitiram compreender melhor a insegurança emocional da criança alienada e a forma como o conflito de lealdades se podia manifestar nas situações mais simples do quotidiano.

“Havia pessoas que conseguiam observar estas situações”

Durante minha conversa com a mãe, destaquei também a importância do envolvimento dos profissionais da escola que conheciam o filho alienado e acompanhavam o seu percurso: “E havia aqui pessoas que conseguiam observar estas situações, não é? E que deram também um bocadinho do seu testemunho”. Os professores e educadores podem observar como a criança chega à escola, como se despede dos pais, como reage aos reencontros e se os seus comportamentos se alteram consoante as circunstâncias. Estas observações podem constituir elementos fundamentais para a avaliação psicológica, sobretudo quando os relatos dos pais são contraditórios e os comportamentos da criança variam significativamente de acordo com o contexto.

A escola não deve ser transformada num espaço de disputa entre os pais, nem compete aos professores determinar se existe alienação parental. Contudo, a sua neutralidade não significa indiferença perante o sofrimento emocional. O seu papel é observar, registar com objetividade e, quando necessário, colaborar com os profissionais responsáveis pelo acompanhamento da criança alienada.

A escola pode ajudar a proteger a liberdade emocional de uma criança alienada

O testemunho desta mãe alienada, complementado pelas observações que realizei durante a intervenção psicológica, mostra como o sofrimento de uma criança envolvida num processo de alienação parental pode manifestar-se em comportamentos aparentemente contraditórios. Uma criança alienada pode brincar e estar feliz com um dos pais e, noutras circunstâncias, recear cumprimentá-lo ou demonstrar-lhe afeto. Pode sentir necessidade de pedir autorização para situações simples, procurando evitar qualquer comportamento que possa ser interpretado como uma deslealdade. A escola, pela continuidade das relações que estabelece com a criança e pela possibilidade de a observar diariamente, pode contribuir para identificar estes sinais e compreender as suas necessidades emocionais.