“O que é que nos pode parar? O que é que nos pode travar de fazer essa batalha? O que é que nos pode travar de vencer? O que é que nos pode travar de conseguirmos o objetivo? A imprensa, o Governo, o Tribunal Constitucional, os poderes externos da Comissão Europeia, os poderes de Bruxelas? Não! Nós só nos travaremos por nós próprios. Nós só nos travaremos se nós próprios quisermos travar-nos.” André Ventura, 9 de outubro de 2026, Conselho Nacional do Chega.
O Chega já não é o que era. O partido que chegou ao Parlamento com um deputado único no dia 6 de outubro de 2019 cresceu exponencialmente e sem precedentes — tornou-se o segundo com mais representação na Assembleia da República, levou André Ventura a líder da oposição, tem três presidentes de câmaras, autarcas por todo o país e milhares de militantes. Tornou-se um dos três grandes. E como todas as organizações tentaculares é cada vez mais difícil de gerir — mesmo quando no topo tem um homem praticamente incontestável internamente e uma figura consensual.
Com uma reunião magna marcada para o final de novembro, numa altura em que o Chega tem sondagens bastante favoráveis — uma delas aponta até para a possibilidade de André Ventura vencer as eleições e chegar a primeiro-ministro —, o líder do partido foi ao Conselho Nacional, emocionou-se mais do que uma vez (“Hoje estou mais emocional” ou “Não sei o que é que se passa comigo hoje, não estou bem”) e transformou o discurso num alerta: é possível o Chega alcançar o Governo, mas é preciso união interna. Mais do que um apelo, o momento foi lido por alguns dos presentes como uma chantagem emocional: ou nos unimos ou acabamos destruídos por dentro.
“Sempre esperámos que todos pensassem igual no partido? Não. Sempre esperámos que todos tivessem a mesma posição e postura dentro dos órgãos autárquicos, locais e distritais? Não. Temos espaço para caber todos no mesmo partido? Deixem-me dizer-vos isto: temos, temos, temos. Se queremos ganhar o país, antes temos que mostrar que temos um partido unido e pronto para governar”, avisou o líder do Chega, suplicando que todos no partido — desde autarcas, a conselheiros e deputados — tenham a consciência de que é possível pensar “para lá do conflito” porque “o que está em causa é a história de Portugal”.
Ventura tem noção de que as eleições internas agudizaram os problemas, de que há guerras e diferentes correntes no interior do partido (ainda que saiba que nenhuma destas afronta a sua liderança) e, por essa razão, enviou mais uma mensagem para dentro do Chega: “Para lá dos que ganharam e dos que perderam, para lá daqueles que venceram e daqueles que foram vencidos, para lá das estruturas locais e distritais” é preciso que haja um “sentido maior” naquilo que o partido ambiciona, um “projeto maior”.
União procura-se: do “triângulo mais criticado” ao “alvo a abater”
A união pedida por Ventura não tem reflexo nos corredores do Chega. Pelo contrário. Um pouco por todo o país falta calma entre os militantes, dirigentes e deputados. E as guerras internas estão ao rubro. Com base nas vitórias e derrotas nas eleições distritais, fazem-se contas aos delegados da Convenção e traçam-se cenários sobre a possibilidade de fazer mossa a oponentes.
Resta saber até onde é que os protagonistas das lutas internas estão disponíveis a ir quando têm consciência de que isso pode deixar Ventura em maus lençóis — não só porque o chumbo causaria danos internos (e pioraria o convívio no day after), mas também pela imagem que passaria para fora, numa altura em que o Chega ambiciona cada vez mais alcançar o Governo, à boleia das sondagens, e o líder se esforça para mostrar que o partido está pronto — dizer que está unido seria um enorme exagero.
Fontes ouvidas pelo Observador, desde militantes de base a altos dirigentes de norte a sul do país, apontam para um partido bastante mais dividido no pós-eleições distritais, em que vários deputados e dirigentes contrariaram as indicações de André Ventura e influenciaram as lutas internas. Há dois nomes que se destacam nas conversas: Pedro Pinto e Bruno Nunes. O secretário-geral do partido há muito que ganhou poder nas bases do Chega pela responsabilidade que tem na direção, desde logo através do trabalho feito em autárquicas, e Bruno Nunes tem vindo a consolidar apoio em distritos de peso para o Chega que podem ser relevantes na hora da decisão.
Tanto no partido como no grupo parlamentar alimentam-se teorias assentes em traições, ameaças e incontáveis mensagens com críticas e especulações. De um lado constrói-se a tese de que André Ventura está “mal rodeado” e “mal aconselhado”; do outro acredita-se que pode estar a ser construída uma alternativa à liderança e que o presidente do partido precisa de “proteção”. De ambos os lados sublinha-se uma certeza: “Não há Chega sem Ventura” — mas isto não é suficiente para que as lutas não existam num segundo plano.
Mas isso já não é suficiente para que André Ventura antecipe uma Convenção sem solavancos. Aos poucos, conta um deputado ao Observador, “muita gente afastou-se de Pedro Pinto”, que é visto externamente como um braço direito de Ventura — prova disso é o facto de ter substituído o líder do partido quando se sentiu mal em plena campanha eleitoral. Aliás, há uma frase dita numa dessas ações de campanha que aumentou o mal-estar em torno do líder parlamentar.
Pedro Pinto disse aquilo que o partido anda há anos a tentar transmitir — “O Chega, ao contrário do que muitos queriam passar, não é só a cara de André Ventura e o rosto de André Ventura. O Chega é um partido que está equilibrado, com futuro, e o partido que mais mobiliza em Portugal” —, mas a postura, num momento em que André Ventura estava numa cama de hospital, não agradou. “As imagens do Pedro Pinto depois de André Ventura se sentir mal em Odemira foram espalhadas por grupos internos e não caíram nada bem”, comenta uma fonte ao Observador, que considera que, naquela altura, “Pedro Pinto não devia estar a dar a entender que havia um plano B”.
Mas esse foi apenas um momento-chave. Nos meses seguintes, sentiu-se uma “mudança” dentro do Chega, com vários dirigentes a assumirem ao Observador que se afastaram do núcleo mais próximo do líder parlamentar por discordarem da forma como “tenta controlar o partido”. Além disso, há queixas sobre a forma como faz a gestão do próprio grupo parlamentar, desde a forma como se distribuem os tempos de quem fala — sendo que o Chega até é dos partidos em que se observam mais deputados a falar, como acontece em debates orçamentais — até à alegada “falta de reuniões” e organização. “Se não for o André Ventura a reunir por razões específicas, o líder parlamentar não o faz”, garante um deputado, sendo que o lamento é extensível em versões de outros parlamentares.
Pedro Pinto rejeita essa versão e, em declarações ao Observador, garante que “não se sente atacado” e que “não tem queixas do grupo parlamentar”. “Tenho sempre a porta aberta”, assegura, deixando claro que está disponível para ouvir todas as queixas e que estas não lhe chegam. Fonte próxima do líder parlamentar vai mais longe: “Se têm queixas que as façam. Se estão a falar nas costas só contribuem para piorar a situação.”
O descontentamento com Pedro Pinto propaga-se por outras pessoas do núcleo duro. O nome de Cristina Rodrigues, que nos corredores vai sendo apontado como uma possibilidade para André Ventura levar até à direção, começou por ser um problema dentro do partido por ter feito um percurso político no PAN, que em muitos casos defende valores opostos aos do Chega. Na altura houve até desfiliações quando o líder do partido a levou para o gabinete parlamentar.
De lá para cá, muito mudou. Cristina Rodrigues deixou rapidamente de ser uma mera assessora parlamentar. É o braço direito de Ventura em termos jurídicos e não há praticamente nada no trabalho parlamentar que não passe pelas mãos dela. Ascendeu rapidamente a deputada, lugar que já tinha ocupado quando foi eleita pelo PAN, tem um espaço de comentário fixo na televisão e não há como ignorar o poder que passou a ter dentro do partido — estando ou não na direção. A teoria de que Ventura pode levá-la até para esse órgão nacional não passa disso mesmo, de uma teoria, mas tendo em conta o percurso não seria surpreendente. Nos corredores garante-se que “o passado não está esquecido e que o nome não passaria”. Mas mesmo entre deputados que estranham o salto na carreira interna há uma certeza: “É uma trabalhadora nata.”
Acresce que, ao contrário do que se imaginava quando se filiou num partido tão distante daquele pelo qual entrou na Assembleia da República pela primeira vez, Cristina Rodrigues foi mesmo fazendo um caminho na vida interna e tem aumentado a influência principalmente junto dos jovens — o que é visto como uma tentativa de tentar “controlar o futuro”. Nas distritais, o vice-presidente da lista vencedora à distrital do Porto, Pedro Pinto Faria, com ligações ao grupo de extrema-direita Reconquista, publicou uma foto com a deputada do Chega e uma mensagem: “Há madrinhas que valem por muito.” A partir desse momento ficou claro que Cristina Rodrigues está cada vez mais próxima deste grupo de jovens que tem crescido no partido, tem apelado à “remigração” e, em entrevista à Vichyssoise, chegou a justificar que no Chega “não existe a censura que existe nos outros”. Agora, em declarações ao Observador, assegura que a tese que corre é mentira: “Apoio jovens e menos jovens no partido inteiro.”
Noutro dos vértices do “triângulo mais criticado” tem surgido o nome de Patrícia Carvalho. A ex-jornalista começou no Chega como assessora, foi-se tornando uma pessoa da confiança de André Ventura, entrou na direção nacional e alcançou o lugar de deputada. Mais do que isso, tem no partido uma função que a coloca numa posição sensível: é a responsável por toda a comunicação do Chega.
Em tempos, foi a cara da lei da rolha imposta aos deputados do partido. “Tem de passar tudo pela Patrícia”, iam repetindo os parlamentares contactados pelo Observador quando o Chega passou de um para 12 deputados. Nessa altura, Patrícia Carvalho era a assessora de comunicação e marcou presença numa reunião de deputados para implementar o novo modelo a seguir. A partir daquele momento, todos os deputados que falassem sem autorização estavam a desrespeitar as regras — o que resultou (e continua a resultar) em longas reuniões sobre fontes em off, com pressões a quem fala com a comunicação social sem autorização e onde se pretende descobrir quem diz o quê e a que jornalistas.
Além de queixas sobre a forma como tenta “controlar” os deputados, há acusações de que Patrícia Carvalho “cria problemas e alimenta teorias da conspiração sobre possíveis adversários de André Ventura”. A somar a isso, é uma das pessoas que têm sido associadas a lutas distritais.
https://observador.pt/2022/03/10/chega-impoe-lei-da-rolha-aos-deputados-todo-o-contacto-com-os-jornalistas-passa-pela-assessoria/
Do outro lado, Bruno Nunes é o “alvo a abater”. Durante muito tempo foi considerado uma persona non grata por muitos elementos do núcleo duro de Ventura e ainda há quem acredite que está a construir uma alternativa interna para, um dia, fazer frente ao presidente do Chega. Em 2024, foi o único deputado despromovido por André Ventura em comparação com as eleições anteriores. E, sabe o Observador, o tema foi discutido por membros da direção e houve pressão para que não fosse nas listas. À época, o Chega defendeu-se dizendo que o lugar era elegível, com base nas sondagens, e Bruno Nunes não só aceitou o sétimo lugar por Lisboa (quando tinha sido cabeça de lista por Setúbal em 2022) como conseguiu mesmo manter a cadeira na bancada.
Nos últimos meses, envolveu-se em lutas para as eleições internas — ainda que não tenha ido a votos —, tendo cantado vitória principalmente em Lisboa e Setúbal pela proximidade aos dois cabeças de lista. Deputados ouvidos pelo Observador consideram que Bruno Nunes acabou por sair beneficiado com o facto de vários dirigentes estarem de costas voltadas com Pedro Pinto. É como se “trocassem de equipa”, explica um alto dirigente, argumentando que tem havido uma tentativa de os descontentes se unirem para ganharem uma força que, por si só, pertenceria mais naturalmente ao líder parlamentar.
A “chantagem” que deixa Ventura em xeque
Apesar de deputados e dirigentes se sentirem desconfortáveis com algumas atitudes do “triângulo mais criticado”, a verdade é que Pedro Pinto, Cristina Rodrigues e Patrícia Carvalho são três das pessoas mais próximas de André Ventura.
E na próxima Convenção André Ventura pode ter de se deparar com a necessidade de fazer escolhas — e ser chamado a defender intransigentemente as suas convicções. O Observador sabe que há distritais com peso que se têm alinhado com o intuito de afastar pessoas próximas de André Ventura da direção, sendo que Pedro Pinto e Patrícia Carvalho são os nomes mais divisivos.
Tal como aconteceu em Évora, quando André Ventura só conseguiu dois terços dos votos da Convenção para eleger a direção à terceira tentativa e depois de ter chorado em palco, o presidente do partido volta a precisar desse número porque viu os novos estatutos chumbados. E o clima tem aquecido em várias distritais ao ponto de se estar a ponderar uma “reedição de Évora”. Dirigentes ouvidos por todo o país cenarizam a hipótese de André Ventura ter de “ceder” a alguns pedidos, “tendo em conta que os anticorpos têm vindo a crescer” na direção.
Do ponto de vista do núcleo duro de André Ventura, anteveem-se “dificuldades” na Convenção, mas também há quem avise: “Os militantes têm de compreender que o presidente do partido vai trabalhar com a equipa que escolher.” Pede-se “maturidade” para perceber que “se Ventura escolhe uma determinada direção é porque confia”.
Não há dúvidas, entre a entourage de Ventura, de que está em causa uma “chantagem” que, ainda por cima, “mais do que prejudicar” alguns nomes do partido, pode deixar o presidente do Chega numa posição de fragilidade a nível externo — sendo que o chumbo da direção seria acompanhado por toda a comunicação social, num momento em que o Chega é o segundo maior partido na Assembleia da República e sonha alcançar o Governo. “A imagem que passaria não seria positiva”, reconhece-se.
Do lado oposto tem-se noção do impacto de uma decisão deste género, mas há dois argumentos: passaram-se “limites inadmissíveis” que prejudicam o partido e o próprio presidente e “André Ventura precisa de saber quem são as pessoas que têm à sua volta”. Ainda assim, existem teorias distintas entre os militantes, dirigentes e deputados ouvidos pelo Observador: há quem considere que “não se pode deixar Ventura nessa posição” e garanta que “a direção que ele escolher é a que vai ser eleita porque não será feita nenhuma afronta”; e quem ache que “este é o momento para mudar algo e levar isto avante”.
André Ventura é muitas vezes avesso à mudança, fez poucas na direção ao longo dos últimos anos e, numa altura tão fulcral para o Chega — em que o partido pode ter de ser chamado à responsabilidade numas próximas legislativas — mudanças tão relevantes como os nomes de Pedro Pinto e Patrícia Carvalho são difíceis de acontecer, até porque são dois dos nomes em quem o presidente do Chega tem mais confiança. Em princípio haverá mudanças, mas dificilmente uma revolução.
Juventude, um problema extra
Há mais um problema a ter em conta na Convenção, a Juventude do Chega. Num momento em que um considerável número de jovens tem vindo a ganhar espaço e visibilidade no partido, alguns deles ligados ao grupo Reconquista — o que divide o partido, nos corredores do Chega discute-se a possibilidade de haver mudanças na juventude do partido — que atualmente é nomeada por André Ventura e não eleita pelo partido.
Sabe o Observador que está a ser discutida a hipótese de haver uma moção que mude as regras deste jogo. Nesse caso, o líder da juventude deixaria de ser uma decisão do presidente do partido e passaria a haver uma eleição para esse órgão.
Caso a manobra funcionasse, um dos nomes que surge como possível candidato, e que teria o apoio de vários jovens próximos do Reconquista, é o de Ricardo Reis, o deputado do Chega próximo de Pedro Pinto que ultimamente tem sido promovido com longas horas de comentário e debate em televisões e até a sentar-se por diversas vezes na primeira fila da bancada parlamentar do partido.
A acontecer, Rita Matias teria de decidir se iria a votos para consolidar a liderança ou se deixaria o cargo. Há no Chega quem considere que a deputada tem perdido espaço mediático nos últimos tempos — sendo que durante muitos anos era vista com André Ventura em todas as circunstâncias e uma das deputadas que mais destaque tinha —, mas há também quem garanta que continua a ser “um dos melhores ativos do partido” e que não está “encostada”.
Paralelamente ao Chega, Rita Matias passou a integrar a direção de um novo movimento nacionalista de direita — o que não agradou a todos os dirigentes nacionais —, mas André Ventura, ainda que tenha reconhecido não conhecer a organização, assegurou que não se trata de uma prova de desunião ou sequer de concorrência.
Seja como for, André Ventura sempre defendeu que a Juventude Chega deve ser nomeada e não eleita porque deve fazer parte de um “partido unido” e “evitar que haja uma multiplicação de estruturas desestabilizadoras”. Mais do que isso, considera que este é um cargo de confiança do presidente do partido e abriu a porta, em qualquer ocasião, a uma mudança noutro sentido. Teria de mudar muito para permitir que passasse a ser de outra forma.
https://observador.pt/especiais/chega-dividido-sobre-absorver-ou-afastar-reconquista-discurso-extremista-assusta-mas-ha-quem-desvalorize/