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(A) :: Do "plano" de reação até às negociações com a PSP. A noite em que as tendas voltaram (por instantes) à rua no Porto

Do "plano" de reação até às negociações com a PSP. A noite em que as tendas voltaram (por instantes) à rua no Porto

Votação esteve longe de ser consensual, mas o regresso das tendas à Praça D. João I acabou aprovado. Diálogo com a PSP levou a recuo dos manifestantes, que chegaram a discutir plano de segurança.

Miguel Pinheiro Correia
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David Oliveira
photography

Quatro noites depois, a Praça D. João I voltou a receber tendas. A decisão, que dividiu os presentes na Assembleia Popular, começou a ser posta em prática por volta das 22h30, com a montagem da primeira tenda. Numa hora, somaram-se mais dez, na perspetiva de uma nova noite de protestos. Mas, ao contrário do que já aconteceu, o braço de ferro com as autoridades não se traduziu numa intervenção policial. O diálogo prevaleceu e os manifestantes concordaram em retirar as tendas, com a PSP e permitir a permanência, “sem ruído”, no local.

Durante a tarde, a presença policial numa praça que recebeu vários concertos — desde B Fachada a Xtinto ou João Maia Ferreira — foi discreta, com a vigilância a variar entre um ou dois carros da PSP e da Polícia Municipal. A decisão saída da Assembleia Popular não alterou o dispositivo, que só ganhou maior número depois da montagem de mais tendas.

Perto da meia-noite, e com dezenas de agentes nas imediações da praça, a subcomissária Eduarda Fã explicou ao Observador que o diálogo ainda não tinha sido iniciado, mas que não faltaria muito. E não tardou: 20 minutos depois, um contingente policial entrou na praça e dirigiu-se ao grupo de manifestantes que preparava a noite.

O 1.º diálogo: PSP pede retirada das tendas

“Solicitamos que a partir da 00h30 dispersem do local e que, ao fazerem isso, retirem as tendas”, começou por dizer a subcomissária Eduarda Fã, no primeiro de três diálogos entre ambas as partes. A agente foi questionada sobre se o problema era a continuidade na praça ou as tendas e esclareceu que a prioridade continuava a ser, num primeiro momento, a retirada das tendas, mas adiantou: “a partir da 00h30 o ideal seria dispersarem”. Leonor Figueiredo questionou essa visão, lembrando que o decreto-lei que limita esse horário tem sido amplamente debatido e posto em causa, antes de recentrar o debate com a polícia na retirada das tendas.

https://observador.pt/especiais/como-renata-cambra-quer-convencer-um-tribunal-a-autorizar-a-acampada-no-rossio-ate-25-de-novembro/

Leonor Figueiredo: “Gostaríamos de perceber se a questão é termos tendas montadas? É estarmos aqui depois da 00h30? Disseram-nos que temos que dispersar, foi o que [a subcomissária] nos disse inicialmente. Temos que dispersar de uma praça pública por ser 00h30?”

Subcomissária Eduarda Fã: “A questão principal é efetivamente as tendas…”

LF: “…não foi o que nos foi comunicado quando aqui chegou, foi a questão da 00h30. Estou a perguntar para clarificar.”

EF: “Quis dar-vos o enquadramento geral. Para nós o ponto principal será a remoção das tendas. Depois de percebermos da vossa parte qual é o vosso entendimento, poderemos ver tudo o resto. (…) Mediante aquilo que vocês me transmitam, falarei com os meus superiores e comunicar-vos-ei qual é o equilíbrio a que podemos chegar.”

LF: “Se retirarmos as tendas — não estou a dizer que é isso que vamos fazer — podemos permanecer na praça?”

EF: “Não me posso já comprometer com isso… mas à partida sim.”

Durante a conversa com os manifestantes, a subcomissária ouviu um homem questionar se a PSP também recebia ordens para ir à rua Cândido dos Reis (associada à movida portuense), onde “pessoas ficam a noite toda a incomodar os moradores da cidade”.

O 2.º diálogo: Acampada recua e retira tendas

A conversa de cerca de cinco minutos terminou com os polícias a abandonar a praça, aguardando na Rua de Sá da Bandeira por uma decisão dos manifestantes, que entretanto voltaram a reunir-se para discutir uma solução. Pouco tempo depois, foram os manifestantes que saíram do centro da Praça D. João I e caminharam em direção à subcomissária, já com uma decisão.

Antes de ser comunicado esse acordo, Leonor Figueiredo voltou a perguntar se a polícia teria um “auto” para justificar aquela intervenção. “Não existe propriamente um auto. É feito um parecer, e tem sido comunicado presencialmente aos promotores e acho que a palavra da PSP ainda vale alguma coisa. Essa comunicação é depois transmitida pela Câmara Municipal aos promotores”, respondeu Eduarda Fã, que voltou a centrar o diálogo na remoção das tendas.

Subcomissária Eduarda Fã: “Falando da vossa reunião, o que decidiram?”

Leonor Figueiredo: “Decidimos remover as dez tendas que ali estão.”

EF: “E pretendem continuar na praça?”

LF: “Sim, naturalmente.”

EF: “Pronto, nós vamos avaliar e eu já vos dou uma resposta.”

O 3.º diálogo: Podem ficar, mas sem barulho, diz PSP

No final do terceiro ato desta negociação, os papéis inverteram-se. Desta vez, era a polícia que reunia para entregar uma resposta aos manifestantes, que em poucos minutos desmontaram todas as tendas da praça. Também rápida foi a discussão dos agentes, que rapidamente seguiram os manifestantes já com uma resposta. “Uma vez as tendas retiradas, podem permanecer aqui na Praça D. João I. Aquilo que vos solicitamos é que estejam em silêncio. Não produzam ruído, se não houver tendas não há inconveniente em permanecerem aqui na Praça D. João I”, disse Eduarda Fã, que agradeceu a “colaboração na retirada das tendas”.

Sérgio Aires, antigo candidato pelo Bloco de Esquerda à presidência da Câmara Municipal do Porto, questionou apenas se a cantina popular teria que ser removida, ou se poderia continuar a operar. A subcomissária respondeu ao também fotógrafo que o único impedimento era o ruído.

Com as negociações terminadas e as tendas desmontadas, a multidão que prometeu permanecer na praça foi-se desmobilizando, continuando apenas cerca de duas dezenas de pessoas, algumas deitadas em mantas, no chão, com a presença policial mais reduzida — ficaram apenas três carros da PSP estacionados na praça.

Mesmo com o barulho de fundo das conversas dos manifestantes, foi-se verificando a exigência da subcomissária Eduarda Fã de pouco barulho.

Acampada cria jornal e mantém impasse com Pedro Duarte

O coro da Acampada aqueceu as vozes para o momento seguinte, o mais repetido e mais ansiado pelos manifestantes: a Assembleia Popular, que serve para discutir várias propostas que determinam o futuro do acampamento. Com o sistema de som montado, instalaram-se várias cadeiras a partir de onde a mesa da assembleia liderou os trabalhos da noite.

A poucos metros desta reunião, e ao contrário do que tem acontecido nestes protestos, brincam muitas crianças. Num dos cantos da praça, foi organizada uma oficina para entreter crianças, com a maioria delas a preferir colorir uma grande tela que se estende no chão com os contornos de uma casa.

Do lado oposto da praça, perto do Rivoli, juntava-se uma grande fila na “cantina popular” que tem atraído muitas pessoas ao longo dos dias, servindo jantares também a sem-abrigo. O espaço que começou, nos primeiros dias do protesto, com apenas uma mesa, já conta com um toldo de abrigo e iluminação própria.

A assembleia arrancou depois da hora prevista, com a promessa de discussão e votação de três pontos: permanência na praça; redação de uma carta aberta (com a Acampada de Lisboa) dirigida aos sindicatos apelando a uma greve geral; e, a última e mais importante, a pernoita na praça.

Ao contrário do terceiro ponto levado a votos, os primeiros dois foram aprovados sem votos contra ou abstenções. No entanto, a decisão de voltar a dormir na praça reuniu menor consenso. Se os votos contra foram pouco expressivos, o mesmo não se pode dizer das abstenções, equiparáveis aos votos a favor. “Há muita abstenção, contudo é aprovado”, decidiu uma das representantes do movimento, sendo prontamente aplaudida. Pouco antes, outro manifestante tinha sugerido a hipótese de as tendas serem só armadas no fim de semana, para reunir mais pessoas e responder melhor a uma eventual investida policial.

Com a promessa da disponibilização de até 30 tendas para quem quisesse dormir na praça, a assembleia prosseguiu, discutindo-se uma resposta ao pedido de reunião com Pedro Duarte, com os manifestantes a continuarem a recusar uma ida à Câmara Municipal do Porto, tal como pediu o Presidente da autarquia.

Os membros do movimento Acampada anunciaram a 21 de outubro que receberam o “primeiro convite formal” para o encontro com Pedro Duarte. No entanto, fonte da Câmara Municipal acusa o movimento de mentir, garantindo ao Observador que este não foi o primeiro convite formal.

O primeiro contacto terá acontecido já a 15 de outubro, no seguimento da intervenção policial dessa madrugada e antes da manifestação com milhares de pessoas na Praça D. João I. Foi feito por via telefónica para a primeira requerente da manifestação, assinada por três pessoas. Os manifestantes, no entanto, alegaram que essa não seria a via oficial e exigiram que fosse feito o convite para o endereço de e-mail do movimento, o que acabou por ser feito pela autarquia esta segunda-feira. Ao Observador, fonte da autarquia descreve o novo convite como uma renovação do primeiro, entendendo que a chamada telefónica para a requerente já constitui um convite devidamente oficial a um movimento “que não está formalmente ou legalmente constituído como tal”.

Este convite tem sido discutido na Praça D. João I em assembleia popular, mas ainda sem uma resposta. Esta quarta-feira, chegou a ser discutida a hipótese de este encontro acontecer no Teatro Municipal Rivoli (perto da praça) ou no Coliseu, de forma a ser possível a presença de mais pessoas ligadas aos protestos.

Antes de ser apelada a mobilização de pessoas para os protestos em Covas do Barroso — contra a instalação de uma exploração de lítio — foi ainda revelada a criação de um jornal, digital e em papel, da Acampada, cujo nome poderá ser votado pelos manifestantes, que escolherão uma de três hipóteses: “Egoístico”, “Estrilho” ou “Tendão”.

https://observador.pt/2026/10/21/pedro-duarte-quer-ouvir-manifestantes-mas-nao-vai-negociar-oposicao-critica-tom-do-autarca-e-cedencia-ao-politicamente-correto/

Manifestante exalta-se e impede presença de jornalistas

Tal como ficou definido na assembleia de terça-feira, a partir de agora quem vota a favor de pernoita passará a participar numa reunião em que receberá indicações do plano de segurança do movimento Acampada, que inclui “trajetos de fuga” e “outras formas de proteção”. Essa proposta teve a oportunidade de começar a ser testada esta noite, quando se preparava nova noite na Praça D. João I, com eventual carga policial.

Ainda com receio da ação dos agentes na madrugada de domingo, a última noite que as tendas foram montadas, um manifestante lembrou que se nesse dia estavam mal preparados, agora, além de falta de preparação, tinham falta de gente. A organização apontava para cerca de 20 pessoas a pernoitar na praça, enfraquecendo a capacidade de resistência, que acabou por não ser necessária, já que o diálogo com a PSP levou à retirada das tendas.

No entanto, a discussão durante essa reunião para planear a segurança acabou por ficar marcada por momentos de maior hostilidade dirigidos aos jornalistas. Depois de um participante ter sugerido que estariam mais pessoas no encontro do que as pessoas que votaram a favor de dormir nas tendas, outro apontou para os jornalistas e disse que não poderiam estar presentes na reunião. Confrontados com o facto de ser uma praça pública, não demoveram e defenderam que aquela era uma conferência privada, o que não havia sido anunciado previamente.

Nesse instante, um manifestante empurrou pelo menos um jornalista para fora deste encontro, mantendo uma postura hostil que foi prontamente apaziguada por pessoas ligadas à organização do movimento, que tentaram justificar esta ação com a tensão vivida nos últimos dias.