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Montam tendas. Mas quem constrói as casas?!

Há três semanas que as tendas fazem parte da paisagem no Porto e Lisboa. Montam-se, desmontam-se por ordem da polícia e voltam a montar-se. Tornaram-se o símbolo de uma geração que diz não ter casa.

Joana da Costa Taborda
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Montam tendas. Mas quem constrói as casas?! Há três semanas que as tendas fazem parte da paisagem no Porto e Lisboa. Montam-se, desmontam-se por ordem da polícia e voltam a montar-se. Tornaram-se o símbolo de uma geração que diz não ter casa. Mas, olhando com atenção, dizem muito mais sobre o país do que sobre o mercado imobiliário.
A crise é real, mas tenda não é a resposta!

Ninguém sério nega que a habitação se tornou um problema grave. Rendas que comem metade de um salário, jovens que saem de casa dos pais depois dos 30, famílias empurradas para fora das cidades onde trabalham. Isto é
real e merece resposta política.

Mas a resposta não pode ser ocupar indefinidamente uma praça pública. O direito de manifestação é sagrado numa democracia e deve ser defendido sem reservas. Manifestar-se, porém, não é o mesmo que instalar-se. Uma manifestação tem um início e um fim; uma acampada que dura semanas, à margem das regras de utilização do espaço público, deixa de ser um protesto e passa a ser um braço de ferro com o Estado.

E o espaço público é de todos: de quem protesta, mas também de quem vive, trabalha e passa naquelas praças todos os dias. A polícia fez o que lhe compete…

A polícia não chegou de surpresa. Os manifestantes foram avisados, mais do que uma vez, de que as tendas estavam sujeitas a licenciamento e tinham de ser retiradas. Quem escolhe ignorar avisos sucessivos das autoridades não pode
depois apresentar-se apenas como vítima quando a lei é aplicada. A força policial tem de ser sempre proporcional e dentro dos limites da lei. Houve feridos, de ambos os lados, e o Ministério Público abriu um inquérito, e ainda bem,
pois se houve excessos, devem ser apurados e punidos. É precisamente isso que distingue um Estado de direito.
Mas não aceito a narrativa de que a polícia é o inimigo. Os mesmos agentes que desmontaram as tendas andam eles próprios em protesto por salários e condições dignas. Pedimos-lhes que garantam a ordem e, ao mesmo tempo, recusamo-nos a dar-lhes autoridade para o fazer.

O verdadeiro problema? Não compensa trabalhar. Há aqui um paradoxo que poucos querem encarar. Ao mesmo tempo que se montam tendas a dizer que não há dinheiro para casa, há setores inteiros sem gente para trabalhar. Só na construção, as empresas estimam que faltam cerca de 80 mil profissionais. A hotelaria, a restauração e a agricultura repetem a mesma queixa ano após ano. E quem constrói casas é, precisamente, quem falta.

A culpa não é de uma geração preguiçosa. É de um país onde, muitas vezes, trabalhar não compensa. E é preciso dizê-lo sem medo: Portugal tem um problema de subsidiodependência. Quando a diferença entre trabalhar e não
trabalhar é tão curta, o Estado acaba por premiar quem fica em casa e penalizar quem sustenta o sistema.
Os impostos sobre o trabalho castigam quem quer ganhar mais. E quem tem essa informação faz as contas e emigra.
Mas também é preciso dizê-lo: há trabalho disponível que as pessoas simplesmente não querem. Trabalho físico, por turnos, ao fim de semana, longe do centro.

Trabalho que os nossos pais e avós aceitaram e que hoje é feito, em grande parte, por quem chegou de fora. Podemos discutir salários e condições, e devemos, mas não podemos fingir que todo o emprego tem de ser à medida das nossas
preferências. Um país onde não compensa trabalhar e onde parte do trabalho existente é
recusado nunca terá casas acessíveis.

Menos tendas, mais trabalho que valha a pena! A crise da habitação é o sintoma. A doença é uma economia que paga mal, cobra muito a quem trabalha e deixa os jovens sem perspectiva. Isso exige reformas sérias: aliviar os impostos sobre o trabalho, premiar quem produz, construir mais e mais depressa.

Nada disso se resolve numa praça, à força de tendas e de confrontos com a polícia. Resolve-se quando voltar a compensar trabalhar em Portugal e quando voltarmos a valorizar o trabalho, todo o trabalho, como o caminho para uma vida digna. Incluindo o de ter uma casa.